No dia do divórcio, na conservatória do registo civil, tirei a máscara e apareci com o meu verdadeiro rosto. Thago estava a poucos passos de mim, sacudindo pó invisível da manga do blazer, a soltar um longo suspiro de alívio como quem se livra de um peso de mil quilos. Virou-se para olhar para mim, o olhar a passar pelo meu rosto de aparência baça, salpicado de sardas falsas. — Agora chama um Uber para ires para casa.

Tenho um assunto importante. Levantei os olhos para o homem a quem um dia chamei marido. Podes ficar descansado. Não vou perturbar a tua nova vida.
Ele bufou friamente, virou costas e foi-se embora sem olhar para trás sequer uma vez. Na casa de banho, no fundo do corredor, parei em frente ao espelho manchado. Cabelo apanhado num coque desleixado, pele baça, olhos resignados. Era a Sofia que ele desprezava, a esposa provinciana de quem sempre se envergonhou.
Abri a mala, tirei o frasco de desmaquilhante. Camada por camada de base escura, sardas falsas meticulosamente desenhadas durante cinco anos começaram a desaparecer. A minha pele branca e macia revelou-se. Soltei o cabelo, deixando-o cair sobre os ombros.
Pintei os lábios com batom vermelho. Em minutos, a mulher rústica no espelho desapareceu. Saí da casa de banho. Os meus saltos altos ecoavam no átrio.
Thago ainda não tinha ido embora. Estava ao lado de uma rapariga de vestido justo, a Rita, a sua amante. Ela agarrava-se ao braço dele. Ao ouvirem os meus passos, ambos se viraram.
O olhar de Thago passou por mim com indiferença, depois as pupilas contraíram-se. Ele ficou petrificado, a boca aberta. Parei em frente a eles. — O que se passa?
Ainda não passaram quinze minutos e já te esqueceste da tua ex-mulher? — Tu, tu és a Sofia? Rita agarrou o braço dele com força, a intuição de outra mulher a disparar. — Ó, é a Sofia.
Mal te reconheci. Deves ter tido muito trabalho para esconder essas manchas. Thago recuperou a arrogância:
— Uma mulher divorciada, por mais bonita que seja, é sempre mercadoria em segunda mão. Nesse momento, um Porsche preto parou ao nosso lado.
O vidro desceu lentamente, revelando o rosto sereno de um homem de fato elegante. Miguel tirou os óculos de sol, os olhos profundos a pousarem em mim. — Já terminaste, querida? O pai está à nossa espera para almoçar.
Thago olhou chocado para o homem, depois para o carro que valia dez vezes mais que o dele. A inveja era evidente no seu rosto. Entrei no carro. Miguel não arrancou imediatamente.
Estendeu a mão para o banco de trás, pegou numa pasta preta e colocou-a nas minhas mãos. — Vê isto. Esta é a verdadeira razão pela qual ele insistiu num divórcio rápido. Abri a pasta.
Extratos bancários, contratos de empréstimo, um termo de fiança com a minha assinatura. Reconheci aquela assinatura desajeitada. Era de quando estava bêbada. — Isto não são documentos de negócios.
É uma fiança para um empréstimo pessoal. Quinhentos mil euros. O número dançou diante dos meus olhos. Ele usara duzentos mil para pagar o sinal de um apartamento de luxo em nome de Rita.
O resto para o carro dela. Afinal, a generosidade dele para com a amante foi construída sobre o meu sangue. O telemóvel começou a vibrar. Número desconhecido.
— Dona Sofia, sou o Sombra. O seu ex-marido disse que a senhora assumiu a responsabilidade de pagar a dívida. Olhei para a pasta na mão de Miguel. — Se quer cobrar, traga os documentos originais e encontre-se com o meu advogado.
— Se não for em dinheiro, paga-se com outra coisa. Esta noite vou mandar os meus rapazes passar pela casa dos seus pais. — O teu pai e toda a gente já estão protegidos pelos meus homens, disse Miguel, os olhos fixos na estrada. O Sombra está apenas a ameaçar.
Respirei fundo. A raiva fervia no meu peito. Lembrei-me do dia, há seis meses, em que peguei no tablet de Thago. Uma notificação de um grupo de chat privado.
Clube dos homens que sofrem com mulheres feias. Uma fotografia minha a dormir, tirada às escondidas. A legenda: “Vejam só, a minha mulher não parece uma peixeira do mercado. Para cumprir as minhas obrigações, tenho de apagar a luz e imaginar uma miss qualquer.
”
Nos comentários, os amigos dele juntaram-se às piadas. Alguém comentou: “Com essa feiura, nem por um cêntimo alguém a compraria. ” E Thago respondeu: “Quem a quiser levar, ainda ofereço uma scooter velha. É mercadoria fora de prazo.
”
Suportei em silêncio durante cinco anos. Engoli as lágrimas. Disse a mim mesma que eram apenas piadas de mau gosto. Mas agora, ligando todos os pontos, desde as críticas à minha aparência, o adultério descarado, o engano para assinar a dívida e o recurso a agiotas, percebi que a natureza de Thago não era apenas insensível.
Era cruel. — Em que estás a pensar? — perguntou Miguel. — Estou a pensar como é que uma pessoa pode mudar de forma tão assustadora.
— Ele não mudou, Sofia. Foi a máscara dele que caiu. No dia seguinte, Rita publicou uma foto da mão dela entrelaçada com a de Thago. “Obrigada por teres aparecido na minha vida quando eu mais sofria.
” Nos comentários, atacaram-me. “Parabéns, Tiago, por te livrares desse inferno. A ex-mulher não fazia nada em casa. ”
Thago espalhou na empresa que eu o tinha traído.
Que me tinha metido com um ricaço e o abandonei. Miguel entrou no quarto, viu-me a olhar para o telemóvel e sorriu, entregando-me um tablet. — Vê isto. Um vídeo mostrava Thago a beber com amigos.
Ele estava completamente bêbado. “Livrar-me daquela gaja foi um alívio. Além de feia, era aborrecida como água choca. ”
— Este vídeo, juntamente com as provas de adultério, é suficiente para o arruinar.
Mas acho que divulgá-lo agora seria um desperdício. Uma boa peça de teatro tem de esperar pelo clímax. Naquela noite, publiquei três fotos minhas na página pessoal. Vestido de seda vermelho, cabelo preto e brilhante, uma aura de elegância.
Legenda curta: “Obrigada por me teres largado para que eu me pudesse reencontrar. ”
O telemóvel de Thago começou a tocar incessantemente. Ele estava num bar, a beber com amigos para celebrar a vida de solteiro. Pegou no telemóvel para amaldiçoar quem o perturbasse.
Mas o sorriso desapareceu. A mulher na foto era demasiado bonita. Ele ampliou a imagem, a tentar encontrar vestígios de edição. Um amigo espreitou:
— Ei, Tiago, essa é mesmo a tua ex-mulher?
Não disseste que ela era feia como o diabo? Tiago ficou furioso. Bebeu um copo de aguardente de um só trago. — É tudo falso hoje em dia, com as aplicações de edição.
Conheço-a bem, sem maquilhagem, assustaria um fantasma. Mas no seu coração, uma comparação começou a surgir. Lembrou-se de Rita, a jovem amante que estava sempre a exigir coisas, a fazer birras. Comparada com a minha aura sofisticada na fotografia, Rita tornou-se subitamente vulgar.
Rita, sentada ao lado dele, arrancou-lhe o telemóvel da mão. Ao ver as fotos, o rosto escureceu. — Estás arrependido? Queres voltar a rastejar aos pés dela?
— Que disparate! Só estou a ver que truques aquela gaja anda a fazer. Rita começou a fazer birra. Queria uma mala nova.
Thago, com dores de cabeça por causa do empréstimo, forçou um sorriso. No centro comercial, Rita escolheu uma mala de edição limitada e uns sapatos de salto alto. Quase dez mil euros. Thago suava.
Passou o cartão. A máquina apitou. — Desculpe, senhor, o cartão deu erro. O segundo cartão também foi recusado.
Os outros clientes começaram a cochichar. Rita afastou-se bruscamente. — Se não tens dinheiro, diz logo. Não me faças passar vergonha.
Ela virou costas e saiu da loja. Na loja de noivas, uma semana depois, experimentava um vestido feito à medida. A luz dourada da tarde atravessava os vitrais. Miguel estava atrás de mim, a ajeitar a cauda.
— És a noiva mais bonita que já vi. A porta de vidro foi empurrada com força. — Olha só para isto. Esta loja agora também atende clientes de segunda categoria.
Era Rita, com Thago atrás. Ela ainda estava zangada por causa da mala. Mas ao ver-me no vestido de noiva, o ciúme incendiou-se. Thago caminhou na minha direção.
— Pensei que era uma estranha, mas afinal é a minha ex-mulher. Mal te livraste de um marido, já arranjaste outro? Ou contrataste alguém para te fazeres de ricaça? — Tiao, nós divorciamo-nos.
Com quem eu caso é da minha liberdade. — Devias ver a cara dela sem maquilhagem antes de decidires casar, disse Thago a Miguel. Enganou-me durante cinco anos. Rita juntou-se:
— É verdade.
Tenha cuidado para não levar para casa mercadoria de má qualidade. Miguel não mostrou raiva. Ajeitou a gola do blazer, tirou do bolso um convite e entregou-o a Thago. — Este é o convite para o nosso casamento.
Convido a si e a esta senhora para virem testemunhar o quão feliz a sua ex-mulher é agora que está longe de si. Thago arrancou o convite da mão de Miguel, amarrotou-o e atirou-o ao lixo. — Burlona. Ela é uma burlona e tu não passas de um idiota.
Olhei para o convite amarrotado no lixo. Não senti tristeza. — O lixo é o lugar para coisas que não valem a pena, tal como o nosso casamento. Na semana seguinte, as discussões entre Thago e Rita tornaram-se o pão de cada dia.
Rita já não fazia o papel de gatinha mansa. Exigia que ele passasse o apartamento para o nome dela. Gritava que estava farta de promessas. Numa noite, Thago descobriu que Rita trocava mensagens com outros ricaços.
Arrombou a porta da casa de banho, arrancou-lhe o telemóvel. As mensagens de flirt, as queixas sobre o namorado forreta e com problemas de desempenho, os encontros marcados. Thago enlouqueceu. Agarrou Rita pelos cabelos.
Ela arranhou-o, gritou:
— Olha para ti. És velho, cobarde e falido. Se não fosse pela promessa da casa, nunca olharia para ti. A tua ex-mulher fez muito bem em deixar-te.
Ele deu-lhe uma bofetada. Rita sangrou, tapou o rosto, saiu de casa a correr, levando as joias que ele lhe tinha comprado. No dia do casamento, o salão estava decorado com milhares de rosas brancas. Eu estava de vestido de noiva exclusivo, o meu pai ao meu lado, os olhos cheios de lágrimas.
A grande porta abriu-se. Caminhei pelo tapete vermelho. Miguel esperava no altar, de fato preto, o olhar cheio de amor. Mas antes de o padre começar, a porta principal foi empurrada com força.
Thago entrou a correr. Fato amarrotado, gravata torta, olhos vermelhos de álcool e loucura. Arrancou o microfone das mãos do mestre de cerimónias. — Parem tudo agora mesmo.
Este casamento é uma farsa. Centenas de olhares viraram-se para ele. Os meus pais empalideceram. Miguel apertou a minha mão.
Thago cambaleou até ao palco, apontou o dedo para mim:
— Olhem bem. Esta noiva bonita é, na verdade, uma impostora. Eu vivi com ela cinco anos. Tive de suportar um rosto que até o diabo rejeitaria.
Pele escura, cheia de sardas, olheiras como um panda. Todas as manhãs, ao acordar e vê-la, pensava que estava a dormir ao lado de uma empregada velha. Os convidados começaram a cochichar. Olhares desconfiados viraram-se na minha direção.
— Ela enganou-me durante cinco anos e agora está a enganar toda a família Costa. Miguel, és advogado, és inteligente. Como é que deixas uma mulher enganar-te com pó e batom? Atreves-te a deixá-la tirar a maquilhagem aqui mesmo?
Respirei fundo. Soltei a mão de Miguel. Dei um passo em frente. — Tiago.
Dizes que eu te enganei, que este rosto é falso. Queres que eu tire a maquilhagem para o provar? — Sim, atreves-te? Se te atreveres, ajoelho-me aqui mesmo e peço-te desculpa.
— Feito. Fiz sinal ao funcionário para trazer a garrafa de desmaquilhante e o algodão. Coisas que eu já tinha preparado na sala de espera, como se pressentisse este dia. Peguei no disco de algodão.
Sob a luz dos holofotes, levei-o ao rosto. Limpei o batom vermelho, o eyeliner afiado, a leve camada de base das bochechas. Um segundo. Dois segundos.
Três segundos. Thago inclinou-se para a frente, à espera que as manchas, as sardas escuras aparecessem. Mas não. O meu rosto sem maquilhagem revelou-se sob a luz crua.
Pele radiante, rosada, suave como porcelana. Os traços finos permaneciam os mesmos. Sem maquilhagem, parecia ainda mais jovem, mais pura. Um murmúrio de espanto ecoou pelo salão.
— Meu Deus, ela é ainda mais bonita sem maquilhagem. — Que mulher linda! — Como é que ele podia dizer que ela era feia? Thago recuou, a abanar a cabeça freneticamente.
— Não, não pode ser. O que é que fizeste? — Olha bem, Tiago. Este é o meu verdadeiro rosto.
Durante cinco anos, quem usou uma máscara não fui eu. Foste tu. Eu usei maquilhagem para esconder a minha beleza, para testar o coração de um homem. E tu, tu usaste palavras de amor falsas para esconder a tua alma mesquinha e gananciosa.
Hoje a minha maquilhagem foi-se e a tua máscara de virtude também se despedaçou. Miguel pegou suavemente no microfone da minha mão. A sua voz ecoou calma mas firme:
— Esta mulher, durante cinco anos, aceitou usar uma máscara feia. Aceitou ser ridicularizada.
Tudo para realizar um teste ao coração humano. Ela queria saber se o homem que escolheu para marido amava a sua alma ou apenas se encantava pela aparência exterior. E o resultado, como todos viram, é que ele reprovou da forma mais lamentável. Thago gaguejou:
— Porquê?
Porque é que me fizeste isto? — Lembras-te dos dias em que me criticavas? Dizias que olhar para a minha cara te tirava o apetite. Sabes que eu tinha de me levantar às quatro da manhã para desenhar cada sarda falsa, para aplicar aquela camada de base escura?
Peguei no telemóvel, liguei-o ao grande ecrã. As fotos de mim a maquilhar-me de madrugada, os momentos em que tirava a maquilhagem às escondidas na casa de banho e a reaplicava à pressa ao ouvir os seus passos, apareceram uma a uma. Todo o salão murmurou. Algumas mulheres soluçavam.
— Tu dizes que amas a beleza, mas a tua alma é demasiado feia. E quem tem alma feia nunca merece possuir a beleza. Miguel fez sinal ao técnico. O slide no grande ecrã mudou.
Um vídeo começou a ser reproduzido. Thago e Rita sentados num café com o Sombra, o agiota. — A Sofia é uma idiota. Eu embebedei-a.
Ela assina os papéis sem ler. Esta dívida de meio milhão fica em nome dela como fiadora. O salão explodiu. — Chamem a polícia!
Isto é burla qualificada! Thago olhou para o ecrã, o rosto pálido como a morte. Virou-se para mim, suplicante. — Sofia, não é verdade.
Esse vídeo é falso. Miguel acenou com a mão:
— Levem-no daqui. A polícia judiciária está à porta à espera dele. Dois seguranças agarraram Thago.
Ele debatia-se, gritava o meu nome. — Sofia, não me podes fazer isto. Nós fomos casados! A grande porta fechou-se.
O som dos seus gritos extinguiu-se. Miguel abraçou-me. O salão ficou em silêncio, o eco de indignação ainda no ar. O casamento continuou.
Mas a tempestade sobre o caso de Thago estava apenas a começar. O vídeo de Thiago a interromper a cerimónia e o clipe com as provas da sua fraude tornaram-se virais. “O pior marido do ano”, “A vingança de cinco anos da ex-mulher”. Da noite para o dia, o nome Thago Ferreira tornou-se a palavra-chave mais pesquisada, da forma mais humilhante possível.
Os parceiros de negócios cancelaram os contratos. O banco congelou as contas. A empresa despediu-o. Rita, vendo o barco a afundar, transferiu todo o dinheiro que restava na conta de Thago para uma conta no estrangeiro.
Vendeu as malas, os relógios, as joias. Quando Thago foi libertado sob fiança, correu ao apartamento. Estava vazio. Rita estava no aeroporto com um bilhete só de ida quando a polícia a deteve.
Burla qualificada e peculato. Thago foi condenado a sete anos de prisão. Rita, a três anos com pena suspensa e indemnização. A moradia dos pais foi leiloada.
A mãe de Thago, que um dia me atormentou, agora vendia raspadinhas na rua para comprar medicamentos para o marido. Ao ouvir estas notícias, não senti a satisfação que pensei que sentiria. A vingança mais doce não é ver o inimigo sofrer, mas vê-lo destruir-se com o mal que ele próprio plantou. Três meses depois do julgamento, Thago apareceu ajoelhado à chuva em frente ao portão da vivenda de Miguel.
Fato amarrotado, cabelo despenteado colado à testa, olhos fundos de desespero. — Sofia, querida, eu sei que errei. Eu estava errado. Salva-me, por favor.
Retira a queixa. — Vai-te embora, Thago. Não há mais nada para falar. — Ainda não acabou.
Tivemos cinco anos de casamento. Lembras-te daquele pastel de nata? Antigamente tu adoravas. Fui à chuva comprar-te um.
Tu disseste que enquanto eu te amasse aguentavas qualquer dificuldade. Porque é que agora és tão cruel? A memória veio. Sim, houve uma noite de tempestade.
Ele correu para me comprar um pastel de nata. Naquela altura acreditei que tinha escolhido o homem certo. — Aquele pastel de nata custou um euro. Mas eu paguei com cinco anos da minha juventude, com a fortuna dos meus pais, com a minha submissão e as minhas lágrimas.
Tu mencionas esse pastel. Lembras-te do que eu te dei em troca? Quando a tua empresa faliu, quem vendeu o ouro do casamento para pagar as dívidas? Quando a tua mãe esteve no hospital, quem passou um mês inteiro em claro a cuidar dela?
Quem passava fome para te dar dinheiro? Ele baixou a cabeça. Miguel saiu para a varanda, colocou um xale sobre os meus ombros. Não disse nada.
A sua presença era calorosa e firme. — Vai-te embora. Não manches mais as últimas memórias que restam. Virei-me, entrei em casa.
Fechei a porta de vidro. O som da chuva lá fora abafou-se. A última vez que vi Thago, a sua silhueta curvada a desaparecer na escuridão da noite. Dois anos depois, abri o meu próprio estúdio de design de joias.
Voltei à minha paixão. Miguel guardou os desenhos que eu fizera na universidade, aqueles que Thago me mandara deitar fora. “Para que perdes tempo a desenhar? Vai tratar da comida.
”
Numa tarde de outono, estava sentada num café a beber chá de camomila. Sem maquilhagem. Apenas um pouco de batom hidratante. O rosto refletido no vidro estava radiante e sereno.
O telemóvel vibrou. Mensagem de Miguel: “Passei na oficina para ir buscar o primeiro protótipo do conjunto de joias que desenhaste. Está lindo. ”
Sorri.
Os dedos deslizaram no ecrã: “Espero por ti para jantar. Vem cedo. ”
Olhei para o céu. Um papagaio voava alto, a linha esticada ao vento, livre e orgulhoso.
A minha vida agora era como aquele papagaio. Livre das amarras, do engano, do sofrimento. O passado estava encerrado.


