—Finge ser minha esposa. Perla parou. A voz era baixa, controlada, e vinha de um homem que ela reconheceu das capas de revistas de negócios. Maximiliano Errazuriz estava ali, a menos de um metro, a olhar para ela como se a conhecesse há anos.

— Perdão, o quê? — Minha esposa — repetiu ele, mantendo um sorriso casual para quem os observasse de longe. — Só por esta noite. Há uma situação complicada que preciso evitar.
Ela olhou para o lado. Uma mulher loira, de vestido vermelho, fixava-os com olhos de águia. — Estás a pedir-me que finja ser tua esposa porque não sabes dizer não a uma socialite? Maximiliano pestanejou.
Não era a reação que esperava. — É mais complexo do que isso. — Parece-me bastante simples. Um homem adulto, milionário, com acesso a advogados e uma equipa de relações públicas, precisa que uma desconhecida finja ser sua esposa porque não consegue lidar com uma mulher insistente.
— Quando pões assim, parece ridículo. — É que é. Ele abriu a boca para responder e calou-se. Havia qualquer coisa na franqueza dela que o desarmava.
— Posso compensá-la. — Como? Com um cabaz de frutas? Um iate?
— O que quiser. Perla pensou nas últimas quatro semanas. O namorado que a trocou pela colega de escritório. O apartamento que tinha de desocupar em três semanas.
A agência que fechou sem aviso, deixando-a com uma caixa de cartão e oito anos de carreira pelo cano. Depois olhou para a socialite que continuava a observá-los. — Está bem. Mas tenho condições.
— Quais? — Primeira: não sou um acessório. Se vamos fingir, fazemo-lo como parceiros. Segunda: se alguém me perguntar algo que não sei, tu cobres.
Terceira: se a qualquer momento decidir que isto foi longe demais, acaba-se. Sem discussão. — De acordo. — Perfeito.
Encantada, marido. Chamo-me Perla e vais dever-me muito mais do que um cabaz de frutas. — Maximiliano. E tenho a certeza de que me vais lembrar disso com frequência.
— Podes contar com isso. Ela tomou-lhe o braço. Sentiu-lhe a mão tremer ligeiramente. O homem de controlo absoluto estava nervoso.
——
Caminharam para o centro do salão. As primeiras cabeças viraram-se. — Qual é a nossa história? — sussurrou ela.
— Conhecemo-nos numa cafeteria. Entornaste café nos meus documentos e mandaste flores durante duas semanas até eu aceitar jantar contigo. — Entornei café nos teus documentos? Preferias que te atropelasse com um carrinho de souvenirs?
— A cafeteria está bem. Um grupo de empresários aproximou-se. Maximiliano apertou mãos com a mão pousada nas costas dela. — Apresento-vos a Perla — disse ele, com uma naturalidade que os surpreendeu aos dois.
— Minha esposa. — Esposa? Desde quando? — Desde que entornou café nos meus melhores documentos — sorriu Perla.
— Disse que a única forma de me compensar era aturar-me o resto da vida. O grupo riu. A atuação começara. ——
No outro lado do salão, Verónica Aldunate observava com os olhos semi-cerrados.
Maximiliano sorria. Maximiliano nunca sorria naquelas ocasiões. E a mulher ao lado dele não era ninguém que ela conhecesse. Sacou do telemóvel.
— Descobre quem é aquela mulher. Já. ——
Em menos de vinte minutos, Perla apertou mais de uma dúzia de mãos e mentiu sobre a sua vida conjugal a pessoas cujos cargos nem sabia decifrar. O mais surpreendente é que estava a começar a gostar.
— Não usam alianças — observou um homem de óculos redondos. — Estão a ajustar o tamanho — respondeu Maximiliano sem hesitar. — Ela perdeu peso recentemente. — Stress de organizar um casamento com uma sogra que opina sobre cada detalhe — acrescentou Perla.
— Tira o apetite a qualquer um. — A minha mãe não é assim tão complicada. — Querido, ela sugeriu que o ramo combinasse com a cor dos olhos do cão dela. O cão é cego.
Mais risos. Maximiliano baixou a cabeça, escondendo um sorriso genuíno. — És terrível — murmurou. — Tu meteste-me nisto.
Não te queixes. ——
Foi então que apareceu Ignacio Bravo, com um sorriso ensaiado ao espelho durante anos. Executivo de uma firma rival. A história com Maximiliano ia além dos negócios, embora Perla ainda não soubesse até que ponto.
— E esta deve ser a famosa esposa misteriosa. Perla. — E tu deves ser alguém que devia conhecer, mas claramente não conheço. O sorriso de Ignacio vacilou meio segundo.
— Ignacio Bravo. Maximiliano e eu temos uma longa história. — Histórias longas são ótimas para jantares aborrecidos. Dás corda e descansas enquanto a outra pessoa fala.
Risos à volta. Ignacio apertou os lábios. — De onde dizes que és? — Não disse.
Que discreto. Quase invisível. Maximiliano pousou a mão nas costas dela. Alerta silencioso.
— Se nos dão licença, prometemos cumprimentar os diretores da fundação. Quando se afastaram, Perla baixou a voz. — Esse homem é um problema. — Sempre foi.
— Que tipo de problema? — O que sorri enquanto procura informação para usar depois. — Há alguma coisa que ele possa encontrar? Maximiliano hesitou um segundo a mais.
Perla não acreditou nele. ——
À saída, já depois da meia-noite, Maximiliano mostrou-lhe o telemóvel. Um artigo recém-publicado: “Maximiliano Errazuriz aparece com misteriosa esposa em gala ibérica. ” A fotografia mostrava os dois a rir, como se fossem a parede mais natural do mundo.
— Já está a circular — disse ele. — A minha assessora está a receber chamadas. Perla sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões. — Toda a gente vai saber.
— Toda a gente já sabe. A partir de agora, para o mundo, és minha esposa. Qualquer erro será notícia. — Isto definitivamente não estava no plano.
— Bem-vinda ao meu mundo. ——
Na manhã seguinte, quando ligou a televisão, o seu rosto aparecia em todos os canais. O armário do ático era do tamanho do apartamento que ela tinha perdido. Filas de vestidos, sapatos, acessórios.
— Existe uma categoria específica para “pequeno-almoço com investidores”? — perguntou em voz alta. — Existe uma categoria para tudo neste mundo — respondeu uma mulher de cabelo curto e óculos vermelhos, com um tablet na mão. — Sou a Paula, assistente do senhor Errazuriz.
E temporariamente sua também. — Agora tenho assistente. — Tem agenda. É a mesma coisa.
——
Duas horas depois, Perla estava sentada numa mesa redonda com oito pessoas que provavelmente decidiam o destino de economias inteiras. Quando lhe perguntaram pela carreira, respondeu que estava em transição, a decidir entre astronauta e padeira, que o mercado estava difícil para ambas. A única que riu de verdade foi Lorena Mendoza, diretora de operações. — É refrescante — disse ela.
— Alguém que não fala em tecnicismos corporativos o tempo todo. No final, Lorena tomou-a de lado. — Conheço o Maximiliano desde os vinte e seis anos, quando ele assumiu o fundo depois da morte do pai. Trabalha demais, vive de menos.
Nunca o vi rir assim numa reunião. Parece exatamente o tipo de caos que ele precisa. Perla não soube o que responder. ——
No carro, de volta, Maximiliano quebrou o silêncio.
— Arruinei tudo? — Disse que era astronauta ou padeira. Usei o garfo errado três vezes. Apresentei-me como esposa improvisada à diretora de operações.
— Ela gostou de si. — Isso é um elogio? — Ainda não sei. ——
Os dias seguiram um padrão.
Numa inauguração de galeria, Perla confessou a um curador que não percebia nada de arte contemporânea, mas que achava fascinante as pessoas pagarem fortunas por instalações de luzes a piscar. O curador, depois de quinze anos a defender conceitos abstratos, achou a honestidade tão refrescante que a convidou para uma exibição privada. Num cocktail na embaixada, confundiu o cônsul honorário com um empregado e pediu-lhe outra bebida. O homem, longe de se ofender, passou meia hora a contar-lhe receitas da sua terra natal.
— Como é que fazes isso? — perguntou Maximiliano nessa noite. — O quê? — Transformar desastres em vitórias.
— Acho que as pessoas estão cansadas da perfeição. São tão polidas, tão calculadas, que quando alguém aparece e genuinamente não sabe o que fazer, e admite, é quase um alívio. — Tu nunca podes ser genuíno, pois não? — Não neste mundo.
— Isso soa solitário. Ele não respondeu. Mas o cansaço antigo nos olhos dele confirmou o que ela já sabia. ——
Às duas da madrugada, encontrou-o no sofá da sala escura, a olhar para as luzes de Madrid.
— Não dormes? — Às vezes não. — Queres companhia? — Não tens de fazer isso.
— Sei. Mas a insónia é mais fácil quando não se está sozinho. Ficaram em silêncio vários minutos. — O meu pai morreu há seis anos.
Eu tinha vinte e seis. De um dia para o outro passei de estudar finanças a dirigir um fundo de investimento com duzentos funcionários que dependiam de eu não me enganar. Desde então, não dormi bem uma única noite. Há sempre qualquer coisa: um mercado que se move mal, uma chamada que chega tarde, uma decisão que não pode esperar pela manhã.
— E esta noite, o que é? — Esta noite é que não sei o que fazer com o facto de me importares a sério. Perla sentiu o coração dar um salto. — Para alguém que passou seis anos a controlar cada variável, deve ser assustador.
— É. — Bem-vindo ao clube das pessoas normais. Aqui ninguém controla nada e, de alguma forma, sobrevivemos. — Como é que aguentam?
— Mal. Mas acompanhados. ——
Na manhã seguinte, Paula apareceu com a tableta e uma expressão preocupada. — Temos um problema.
A ceia de gala de quinta-feira. A lista de patrocinadores foi atualizada esta madrugada. — Mostrou o ecrã. — Verónica Aldunate.
Patrocinadora principal. — Ela não desistiu — disse Perla. — Nunca desiste. ——
A ceia mal tinha começado quando Verónica atravessou o salão como se lhe pertencesse.
O vestido vermelho parecia cosido por mãos vingativas. — Há pessoas que nascem para estar nestes salões — disse ela, baixando a voz o suficiente para parecer íntima e alto para que vários ouvissem. — E pessoas que aprendem a fingir que pertencem. Tu pertences claramente à segunda categoria.
Não é um insulto, é apenas classe. Perla sentiu a humilhação subir-lhe pelo pescoço. — Tens razão numa coisa — respondeu, mantendo a calma a custo. — Há coisas que não se aprendem.
A decência, por exemplo. A julgar por esta conversa, também não se herda. Um homem próximo abafou uma risada atrás do copo. Verónica apertou os lábios e afastou-se.
——
Mais tarde, no lavabo, Perla ouviu duas mulheres a conversar no cubículo ao lado. — Viste a esposa do Errazuriz? Apareceu do nada e ninguém sabe nada dela. Ouvi dizer que a Verónica está a investigar.
Parece que não há registo do casamento em nenhum tribunal. Pode ser falso. As mulheres saíram. Perla ficou imóvel atrás da porta, com o coração acelerado.
——
Três dias depois, na inauguração da galeria Cronos, Ignacio Bravo voltou a aparecer. — Sabes o que reparei nas pessoas que têm sempre uma resposta rápida? — disse ele. — É que geralmente estão a distrair de alguma coisa.
Do facto de trabalhares numa agência que fechou há dois meses, talvez? De o teu namorado te ter deixado por outra? De viveres no apartamento de uma amiga quando apareceste no braço do Maximiliano? O chão desapareceu debaixo dos pés dela.
— Como sabes isso? — Tenho recursos. E curiosidade. Combinação perigosa.
Nada do que fizeste é ilegal, mas é embaraçoso. Imagina o título: “A esposa do milionário estava quase na rua antes do misterioso casamento. ” Não te preocupes, eu não faria isso. Mas a informação tem vida própria.
— O que queres? — Por enquanto, nada. Só queria que soubesses que sei. ——
O que Perla não viu foi a conversa no parque de estacionamento, dez minutos antes.
— Conseguiste mais alguma coisa? — perguntou Verónica, encostada ao carro. — Suficiente. Desemprego, rutura, quase despejada.
E pelo meu contacto no tribunal, nenhum registo de casamento recente em nome de Errazuriz. — É falso. — É falso. A pergunta é quando tornamos público.
— Em breve. Antes que alguém investigue primeiro. ——
Dentro da galeria, um homem aproximou-se. — Maximiliano, ouvi dizer que tiveram uma lua de mel incrível.
Lisboa, não? O hotel boutique onde ficaram, como se chamava? Silêncio. Perla abriu a boca e fechou-a.
Não havia nome para recordar porque não havia lua de mel. — O Bairro Alto — respondeu Maximiliano, com uma naturalidade perfeita. — Pequeno, discreto, vistas para o Tejo. Perfeito para casais que procuram privacidade.
O homem ficou encantado. Entre os dois, sem nunca terem planeado, construíram um fim de semana inteiro inventado em tempo real. Quando o homem se afastou, Perla exalou o ar que tinha estado a prender. — O Bairro Alto existe mesmo?
— Existe. Já lá estive. Se ele verificar, encontra exatamente o que descrevi. — Podias ter-me avisado que tinhas um repertório de hotéis portugueses pronto para improvisar uma lua de mel inteira sem aviso prévio.
— Estava sob pressão. Preciso de ar. ——
No jardim interior, apoiada na varanda, ouviu passos atrás dela. — Vais seguir-me a noite toda?
— Sim. Até me dizeres o que se passa. — Não se passa nada. — Estás a mentir.
Perla cruzou os braços, de costas para ele. — Os dois mentimos. É a base desta relação, não é? — Algo mudou.
Mudaste tu. E quero saber porquê. Ela virou-se, deixando sair toda a tensão acumulada. — Significa que ouvi a tua chamada no sábado.
A explicar que isto é temporário, que sou uma transação, que em semanas vais encontrar maneira de me fazer desaparecer discretamente. O rosto de Maximiliano mudou completamente. — Não percebeste o contexto. — Que contexto?
A parte em que garantias que não há risco de complicações emocionais? — Era o meu advogado. Estava a usar a linguagem que ele esperava ouvir. Precisava de garantias legais.
— Legal. Preocupavas-te com o legal. — Estava a proteger-vos a ambas. — Estavas a proteger-te a ti.
Ele passou a mão pelo cabelo, frustrado. — A verdade — disse ele, devagar — é que não te esperava. Esperava alguém que fizesse o papel e fosse embora. Alguém fácil de esquecer.
E tu és impossível de esquecer. Entraste na minha vida como um vendaval. Fazes piadas em momentos completamente inapropriados. Fazes-me rir quando não devia.
E sim, disse aquilo ao meu advogado porque já não sabia o que era real e o que era atuação. E isso assustou-me. Há muito tempo que nada me assusta a sério. A voz dele quebrou-se ligeiramente.
— A mim também me assustaste — admitiu Perla. — Porque em algum momento deixei de fingir. E apercebi-me de que tu não o tinhas feito. — Fiz.
Só não soube como dizer-to a tempo. — Então, o que somos? — Não sei. Mas sei que não quero que desapareças.
O telemóvel de Maximiliano vibrou. O rosto endureceu. — O que é? Ele mostrou-lhe o ecrã.
Mensagem urgente de Paula: “Portal de notícias publica história em 25 minutos. Título: A verdade sobre a esposa falsa de Errazuriz. Fonte: Ignacio Bravo. ”
———
Vinte e dois minutos para o desastre.
Maximiliano manteve duas chamadas simultâneas enquanto andava de um lado para o outro. Os advogados não conseguiam parar nada. Liberdade de imprensa, sem provas de difamação prévia. — E se não negarmos?
— disse Perla de repente. — E se contarmos a história nós primeiro? Ele parou. — Estás a sugerir admitir publicamente que mentimos?
— Estou a sugerir virar a narrativa antes que o Ignacio a controle. — É muito arriscado. — Mais do que deixar que ele decida como todo o país se vai lembrar de nós? Silêncio.
— Alguém tem de contar essa versão de forma convincente. E eu sou a única que pode. Tu és o milionário poderoso, se falares primeiro parece controlo de danos corporativo. Se eu falar, parece honestidade.
Durante oito anos, trabalhei em comunicação de crise. Sei como fazer. Maximiliano olhou para ela como se algo se encaixasse finalmente. — Farias isso?
Depois do que ouviste? — Não me trataste mal. Foste demasiado cuidadoso com a tua imagem, com a tua empresa, com tudo o que não era eu. Isso doeu.
Mas não quero ver-te destruído. E as pessoas que se importam a sério não deixam o Ignacio Bravo e a Verónica Aldunate ganhar. ———
Doze minutos. Precisavam de um jornalista de confiança.
Lorena resolveu em segundos: Tomás Yturra, dez anos a cobrir economia e sociedade. Paula apareceu a correr com o número. A chamada conectou em trinta segundos. — Tomás, sou Perla Solórzano, a esposa do Maximiliano Errazuriz.
Preciso de lhe contar uma coisa antes de ler o que vão publicar sobre nós. — Doze minutos do seu tempo é exatamente o que tenho antes de uma reunião. Fale. E Perla falou.
Contou que não estavam casados formalmente, que a noite da gala Maximiliano se tinha aproximado por uma razão prática e ela aceitara por razões próprias, que o que começou como estratégia se tornou genuíno. Que a fonte do artigo rival era Ignacio Bravo, executivo com agenda pessoal, associado a Verónica Aldunate. — Isso parece uma novela de sobremesa. — Acredite, eu pensei o mesmo até a estar a viver.
— E o Errazuriz confirma? Maximiliano entrou no enquadramento da videochamada. — Tomás, sei que é invulgar, mas a Perla diz a verdade. Exagerámos a história inicial para evitar especulações.
Foi meu erro. O que sentimos um pelo outro não é. — Preciso de algo concreto. Qualquer casal diz que se quer.
Poucos demonstram. Perla não hesitou. — Posso falar-lhe dos ovos. — Perla, não — disse Maximiliano, mas já era tarde.
— Queimou os ovos. Tentei ensiná-lo a cozinhar e queimou-os em três minutos. É quase fisicamente impossível, mas ele conseguiu. Vê documentários de arquitetura industrial às duas da manhã.
Uma vez admitiu que o meu percurso de metro era mais eficiente do que o carro dele. Tomás estava a rir do outro lado da linha. — Os ovos queimados. Perfeito.
Publico agora. Título: “A história real por detrás do casal mais comentado de Madrid. ” Concordam? — Perfeito.
— Uma pergunta final: é real? Perla olhou para Maximiliano. Ele olhou para ela. — Sim.
É real. ———
A chamada terminou. — Contaste a história dos ovos — disse Maximiliano, incrédulo. — A um jornalista que vai publicá-la para milhares de pessoas.
— Sim. E, apesar de tudo o que estava em jogo, ele riu. Uma risa autêntica. O telemóvel vibrou minutos depois.
Mensagem de Paula: o artigo de Tomás já era viral. Os comentários eram esmagadoramente positivos. Ignacio Bravo tinha sido identificado como a fonte do artigo rival, agora criticado publicamente. Verónica, ao outro lado da galeria, com o telemóvel na mão e o rosto tenso, ignorava as tentativas de Ignacio para falar com ela.
Lorena aproximou-se. — Já há uma hashtag a circular. Qualquer coisa sobre ovos queimados. É, sem dúvida, uma coisa boa.
Verónica passou por eles. — Isto não acabou — disse em voz baixa. — Sei — respondeu Perla. — Mas por agora, para ti, acabou.
Verónica hesitou um instante e depois afastou-se em direção à saída. ——
Saíram juntos da galeria. O ar fresco de Madrid bateu-lhes no rosto. — Obrigado pelo que fizeste lá dentro — disse Maximiliano.
— Não tinhas de o fazer. — Sei. Porque é que o fizeste? — Porque quis.
Porque vales a pena. E porque não quero que isto acabe. — Eu também não. Ele deu um passo em direção a ela.
— Quero que isto seja real. Sem contratos, sem advogados, sem estratégia. Só nós. — Estás a pedir-me para ser tua namorada?
A sério? — Estou. Depois de todo o caos. Especialmente por causa do caos.
— Então sim. ———
Três meses depois, uma manhã de domingo, Perla desligou o telefone com o rosto pálido. Tomás tinha ligado para a avisar. Ignacio estava a vender uma história nova a um canal internacional.
Documentos financeiros falsificados do Grupo Cordillera, sugerindo que Maximiliano tinha manipulado números. — É mentira — disse Maximiliano. — Sei. Mas se sair sem resposta, o mercado reage antes de podermos desmentir.
E desta vez não temos vinte e cinco minutos. Temos menos de duas horas. Ele imobilizou-se um segundo, depois pegou no telefone para ligar ao conselho. Os registos originais estavam num servidor a que só ele e duas pessoas tinham acesso.
Lorena era uma delas. — Desta vez — disse Perla — estamos os dois à frente juntos. Não carregas tu a estratégia sozinho e eu assino depois. Se falharmos, enfrentamos também juntos.
— De acordo. Juntos. Lorena atendeu ao primeiro toque. Depois de minutos que pareceram eternos a rever ficheiros, confirmou: os registos estavam limpos.
Ignacio tinha alterado números de um rascunho preliminar de dois anos atrás, anterior à auditoria final. As marcas de data provavam-no. Tomás pediu quinze minutos e dois auditores independentes. Lorena já os tinha contactado.
Duas horas depois, os registos financeiros reais estavam publicados. O canal internacional retirou a notícia antes de a emitir. Ignacio Bravo perdeu o lugar na firma rival nessa mesma semana. — Vês?
— disse Perla nessa noite, exausta mas tranquila. — Isto é o que somos agora. Não o milionário que arranja tudo sozinho, nem a mulher que improvisa sozinha. Os dois ao mesmo tempo.
— Gosto como isso soa. — Eu também. ——
Seis meses depois, Perla aceitou o trabalho que Lorena lhe tinha arranjado numa fundação de comunicação para causas sociais. Não pagava o que a consultoria corporativa pagava, mas todas as manhãs chegava com vontade.
Maximiliano insistiu que ela não precisava de trabalhar. Ela explicou, com a paciência de quem já tinha dado aquela explicação antes, que precisava. Que trabalhar a fazia sentir útil. Que se ficasse em casa o dia todo, acabaria por reorganizar o armário por cor e estação até ele a odiar.
Maximiliano, entretanto, aprendeu a cozinhar. Não bem, mas o suficiente para não queimar ovos. Numa noite, enquanto Perla examinava um prato de massa com suspeita genuína, ele confessou que tinha tido supervisão mínima de um vídeo na internet. Ela prometeu, entre risas, guardar o segredo até o contar à Camila, à Lorena e ao Tomás, que sem dúvida o transformariam em segunda notícia.
——
Um ano depois daquela noite no Palácio Velázquez, o convite dizia em papel creme: “Maximiliano Errazuriz e Perla Solórzano convidam-nos para celebrar o seu casamento. ”
Camila insistiu pela décima vez em organizar algo em Ibiza. Perla insistiu com a mesma firmeza que queriam algo pequeno. Tinham tido espetáculo suficiente para uma vida inteira.
A cerimónia foi nos jardins de uma quinta nos arredores de Madrid. Cinquenta pessoas, flores da época, um pôr do sol que ninguém teria conseguido planear melhor. Camila foi madrinha e chorou durante toda a cerimónia, atribuindo-o a alergias até ao final, quando admitiu que na verdade era alergia a vê-la feliz depois de a ter arrastado para aquela gala há um ano atrás por canapés grátis. Lorena estava lá com o marido.
Paula, convertida em amiga. Tomás, que prometeu não publicar nada naquela noite e cumpriu a palavra. Os votos escreveram-nos eles próprios. — Perla — disse Maximiliano, tomando-lhe as mãos.
— Há um ano pedi-te que fingisses ser minha esposa. Foi a decisão mais inteligente e mais tola que tomei. Inteligente porque me levou a ti. Tola porque pensei que conseguiria mantê-la como estratégia.
Ensinaste-me que o controlo não é tudo. Que querer a sério significa aceitar o caos que vem com a outra pessoa. — Maximiliano — respondeu Perla. — A minha primeira reação foi pensar que estavas completamente maluco.
A segunda foi aceitar, porque aparentemente eu também estou. Mas entre a primeira mentira e a última verdade, apaixonei-me pelo homem que queima os ovos. Que sorri de verdade quando pensa que ninguém está a olhar. Prometo escolher-te todos os dias.
Não por estratégia. Por amor. O beijo depois do “sim” foi melhor do que o primeiro. ——
Durante a festa, Perla afastou-se para observar tudo de longe.
Os jardins iluminados, os convidados a rir, Maximiliano a conversar com Camila. Pensou na gala de um ano atrás. Na mulher sozinha junto à janela, com um vestido emprestado e o coração partido. No sussurro que tinha mudado tudo.
— Em que pensas? — perguntou Maximiliano, aparecendo ao lado dela. — Na estranheza da vida. Há um ano quase vivia em casa da Camila.
Agora estou casada com um milionário que aprendeu a fazer massa e que há três meses teve de provar ao mundo inteiro que não era um burlão. — Isso já passou. — Sei. Mas faz parte da história.
A parte onde deixámos de fingir. Mesmo quando fingir teria sido mais fácil. — Arrependes-te? De ter aceitado naquela noite?
— Nem um segundo. — Eu também. Ele puxou-a para si. As luzes de Madrid atrás deles.
— Amo-te — disse ele. — Sei. Eu também. Mesmo sem o iate.
E ali, debaixo das estrelas de Madrid, Maximiliano e Perla começaram o resto das suas vidas sem fingir.


