Ela entrou no restaurante como se estivesse a desfilar numa passerelle. Vestido amarelo neon com transparência, decote até ao umbigo, cabelo curto cacheado tingido de vermelho vivo, lábios inchados de preenchimento, maquilhagem pesada. Parecia o emoji de palhaço do WhatsApp. Só faltava o nariz vermelho.

Vinte pessoas entreolharam-se em silêncio. Mas vamos voltar atrás – esta história precisa de muito contexto. Chamo-me Renata. Quando entrei na faculdade de administração, tinha dezanove anos, um caderno novo e zero noção do que estava para vir.
No primeiro semestre conheci o Marcelo. Não era um daqueles tipos que nos fazem tropeçar na calçada, mas chamava a atenção de outra forma: era gentil, engraçado, ajudava toda a gente. O tipo mais querido da turma, sem esforço nenhum. Na mesma turma conheci a Janaína.
A Jana aproximou-se de mim nas primeiras semanas, sentou-se ao meu lado, puxou conversa, chamou-me para almoçar. Virámos amigas rápido. No princípio achei-a divertida, falante, sempre com opinião sobre tudo. Mas aos poucos comecei a notar coisas estranhas.
Comprei uma mochila nova. Dois dias depois, a Jana apareceu com a mesma mochila, mesma cor, mesmo modelo. Comentei: «Olha, comprámos igual. » Ela encolheu os ombros.
Depois troquei o caderno para aquele modelo inteligente com capa fofinha e colorida. Na semana seguinte, caderno idêntico na mesa dela. Cortei o cabelo – repicado na altura do ombro. Segunda-feira, a Jana apareceu com o cabelo repicado na altura do ombro.
Pensei: «Ela gostou do estilo. » Qualquer pessoa podia comprar a mesma mochila, gostar do mesmo caderno, cortar o cabelo igual. Não tinha exclusividade sobre nada. No segundo semestre, eu e o Marcelo começámos a namorar.
Aconteceu naturalmente, depois de uma saída com o grupo. Quando contei à Jana, a reação foi curiosa. «O Marcelo? A sério, Renata?
Aquele narigão? » Ri, pensei que fosse brincadeira, mas ela não estava a rir. A partir daí, sempre que o Marcelo aparecia no assunto, a Jana arranjava maneira de o diminuir. «Pelo menos é engraçado.
» «É feio, mas enche-te de presentes. »
Nessa época, o André, um colega da turma, interessou-se pela Jana. Convidou-a para sair à frente de toda a gente no intervalo. A Jana olhou-o de cima a baixo e disparou: «Ah, André, olha para ti.
Achas mesmo que tens hipótese comigo? » Ele ficou vermelho até às orelhas, as mãos nos bolsos, a olhar para o chão. Ninguém sabia o que dizer. Alguém mudou de assunto.
Puxei a Jana de lado: «Não precisavas de humilhar o André. » Ela encolheu os ombros: «Fui sincera. Prefiro isto a iludir o coitado. »
A faculdade continuou.
A Jana andava com uns caras, namorou um ou outro, mas sempre que o Marcelo estava perto, o comportamento dela mudava: risada exagerada, toques no braço, queria estar sempre por perto. Se ele contava uma história, ela ria como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. No último ano, consegui um estágio incrível numa empresa grande, com hipóteses de efetivação. A Jana pediu para eu a puxar para lá também.
Não vi problema. Falei com o RH, indiquei-a, e ela entrou. Foi aí que comecei a ver o outro lado dela. Toda a vez que eu conversava com um superior, a Jana aparecia, falava por cima de mim, apresentava ideias que eu lhe tinha contado ao almoço como se fossem dela.
Chamei-a à conversa: «Jana, aquela ideia do relatório era minha. » Ela respondeu com voz de choro: «Ai, Renata, não foi por mal. Também já tinha pensado nisso. » Deixei estar, mas parei de lhe contar as minhas ideias.
Coincidentemente, a Jana nunca mais apresentou nenhuma ideia aos superiores. Na nossa formatura, o Marcelo pediu-me em casamento. Ajoelhou-se à frente de toda a gente. Aceitei a chorar.
A Jana estava lá, de vestido quase idêntico ao meu – mesma cor, mesmo estilo. Deu-me os parabéns e disse ao ouvido: «Nossa, isso foi meio brega, mas estou tão feliz por vocês. »
Depois da formatura, fui efetivada. A Jana não.
«Ainda bem que não fui. Aquela empresa era muito chata e burocrática. »
Nos meses seguintes, eu e o Marcelo trabalhámos a sério. Juntávamos dinheiro para dar entrada num apartamento e para o casamento.
Cada cêntimo contava. Entretanto, a Jana saltava de emprego em emprego. Nenhum era bom suficiente – o chefe era idiota, o salário baixo, as colegas invejosas. Sempre a culpa dos outros.
Oito meses depois de formadas, a Jana ligou-me, desempregada. «Renata, consegues indicar-me para a empresa outra vez? » Falei com a Patrícia do RH, minha amiga. A Patrícia puxou-me de lado: «A Jana não foi efetivada porque não entregava resultados, não seguia regras e deixava o ambiente hostil.
Tivemos muitas reclamações. » Para não magoar a Jana, inventei que não estavam a contratar. Ela ficou em silêncio e mudou de assunto. A energia entre nós mudou.
«Que bom que te estás a dar bem na vida, Renata. Tu és uma sortuda. »
A Jana acabou por conseguir noutro sítio. Foi a partir daí que comecei a perceber que me estava a copiar descaradamente.
As mesmas roupas, mesmos acessórios, mesmas poses nas fotos. Eu postava alguma coisa e no dia seguinte aparecia uma versão idêntica no perfil dela. Era como seguir o meu próprio Instagram em dose dupla. Numa noite, num bar com o pessoal da faculdade, a Jana sentou-se perto do Marcelo, como sempre.
Quando ela se levantou, ele virou-se para mim: «Rê, acho que a Jana está a usar o mesmo perfume que tu. Conheço este cheiro de olhos fechados. » Enquanto ela estava no banheiro, ele sussurrou: «Troca de lugar comigo? Não aguento mais os assuntos dela.
» Trocámos. Quando a Jana voltou e me viu sentada no lugar dele, fez uma cara de chateada. Sentou-se ao meu lado sem disfarçar o bico. E senti o cheiro do perfume.
Era o meu, exatamente o mesmo. Olhei para o batom dela – mesma cor. Lembrei-me de ela me ter perguntado, semanas antes, que perfume usava, que batom era aquele. Respondi sem pensar.
Ela comprou igual. Agora reparava: o corte de cabelo igual ao meu, o perfume, o batom, as mesmas roupas. E não era só isso. Estava a copiar o meu jeito de ser – a maneira como ria com a mão na boca, como penteava o cabelo para o lado com os dedos.
Deu-me um arrepio. O André também estava no bar. Cumprimentou a Jana, que mal respondeu. Depois veio falar comigo e com o Marcelo – tinha passado num concurso público, auditor fiscal.
A Jana, a ouvir, soltou: «Se é que vais ser chamado, não? Isso demora anos. » O André fez um sorriso educado e não respondeu. No dia seguinte, o meu telefone tocou.
Era a Fernanda, outra colega do grupo. «Renata, não queria meter-me nisto, mas não consigo ficar calada. » Contou-me que, no bar, enquanto eu estava distraída, a Jana falou mal de mim: que eu lhe tinha roubado o emprego, que a sabotara de propósito para ser efetivada, que não a ajudei quando pediu para a indicar, que lhe roubei o Marcelo porque ela estava afim dele primeiro. «Ela disse que mais cedo ou mais tarde ias perder tudo o que tiraste dela.
» Desliguei, sentada na cama. Nunca soube que a Jana estava afim do Marcelo. Pelo contrário, ela vivia a dizer que ele era feio demais para mim. Será que quem desdenha quer comprar?
Se ela tinha tanto rancor, porque fingia ser minha amiga? Os sinais estavam todos ali desde o primeiro semestre. Eu é que não quis ver. Naquela madrugada, decidi cortar a Jana da minha vida.
Sem briga, sem explicação. Mas ela não me ia deixar ir em paz. No dia seguinte, a Patrícia do RH chamou-me para um café. Com a cara séria: «Renata, o que vou contar é em off.
Chegou um e-mail sobre ti no RH. Longo e pesado. Dizia que andavas a vazar informações confidenciais para uma concorrente, que roubavas ideias dos colegas e que tinhas um caso com o teu gestor para seres efetivada – apesar de seres noiva. Só que eu sei que és noiva.
Quase ninguém na empresa sabe. Esse e-mail veio da tua amiga Janaína. » Fiquei com as pernas bambas. Ela queria ferrar-me no trabalho e roubar-me o noivo.
Contei tudo ao Marcelo nessa noite. Ele ficou pensativo. «Renata, ela quer ser tu. Percebi desde a faculdade.
Agora quer o teu emprego e o teu noivo – o gostoso, inteligente e cheiroso. » Só ele para me fazer rir. «E eu acho que ela vai tentar conquistar-te. » Ele riu.
«Não, obrigado. » «Estou a falar a sério. E quero dar-lhe uma lição. » Contei o plano.
Marcelo ouviu, achou loucura. «Ela nunca vai fazer isso. Ninguém é assim tão idiota. » «Vamos apostar?
» «O quê? » «Se ela fizer, levas-me a um jantar romântico – restaurante bonito, vinho, sobremesa. Se não fizer, cozinhas para mim durante uma semana. » «Fechado.
»
A partir daí, não me afastei da Jana. Fiz o contrário: fiquei mais próxima. Aceitava convites, respondia rápido, fingia que nada tinha mudado. Ela continuava a fazer perguntas sobre o Marcelo, sobre o noivado.
Eu respondia – mas só mentiras. Num almoço, puxei o assunto de propósito. «Ai, Jana, o Marcelo está a irritar-me estes dias. » Ela arregalou os olhos.
«Porquê? » «Anda com umas ideias. Quer que eu corte o cabelo bem curto, faça permanente e pinte de vermelho. Imagina – nem combina comigo.
E não para aí: quer que eu faça preenchimento labial, lábios carnudos, e que use roupas mais coloridas, neon, com transparência. Mais maquilhagem, mais batom vermelho. » Olhei para ela. Estava com o telemóvel debaixo da mesa, a escrever.
Estava a anotar. Fui para casa do Marcelo. «Ela anotou tudo. » Ele arregalou os olhos.
«A sério? » «Debaixo da mesa, a escrever. » «Sabes que gosto de ti exatamente como és, pois não? »
Nos dias seguintes, a Jana parou de postar selfies.
O Instagram virou um mural de frases motivacionais: «Quem espera sempre alcança. » «A melhor versão de mim está a chegar. » Mostrei ao Marcelo. «Ela está a preparar-se.
»
O pessoal da faculdade começou a organizar um reencontro – um ano de formados. A Jana respondeu no grupo: «Vou sim. Preparem-se para conhecer a nova Jana. » Eu li e olhei para o Marcelo.
«Achas que ela…? » «Tenho a certeza. »
O reencontro foi num sábado à noite, num bar-restaurante bonito, mesa grande. Cerca de vinte pessoas da turma.
Eu e o Marcelo chegámos juntos. O André estava lá, bem vestido, já auditor. Pedimos bebida. A conversa fluía.
Eu olhava para a porta de canto de olho. A Jana chegou por último. Fez questão de fazer uma entrada chamativa: vestido amarelo neon com transparência, decote até ao umbigo, cabelo curto cacheado vermelho vivo, lábios inchados de preenchimento, maquilhagem pesada, batom vermelho. «Olá a todos, cheguei.
» Silêncio. Segundos depois, cochichos, sobrancelhas levantadas. A Fernanda cutucou-me por baixo da mesa. «O que é que lhe aconteceu?
» Tomei um gole da minha caipirinha e disse baixinho: «Acreditou nuns disparates que lhe contei. »
As pessoas fingiam elogiar: «Nossa, Jana, estás diferente. » Ela desfilava, amassava o cabelo fofo, sentou-se entre mim e o Marcelo. «Gostaram do meu visual novo?
» O Marcelo olhou para ela e disse: «Jana, o que é que te aconteceu na boca? Levaste uma picada de abelha? » Risada na mesa. Ela ficou vermelha, mas disfarçou.
«Fiz preenchimento labial. Adoro os meus lábios carnudos. » Virou-se para a mesa: «Estou diferente, não? Resolvi reinventar-me.
»
A noite foi andando. A Jana fazia o que sempre fez – falar de si própria e não largava o Marcelo. Tocava-lhe no braço, ria alto de tudo o que ele dizia. Ele olhava para aqueles lábios inchados com cara de quem tinha medo que estourassem.
Esperei o momento certo. Olhei para ela e disse com a voz mais calma do mundo: «Jana, posso fazer-te uma pergunta? » «Claro, amiga. » «Que coincidência teres mudado exatamente tudo aquilo que eu comentei que o Marcelo queria que eu mudasse em mim.
» O sorriso dela morreu. «O que é que estás a insinuar? » «Não estou a insinuar nada. Estou a confirmar que queres muito o meu noivo.
» Ela riu-se, forçada. «Renata, estás a viajar. Mudei porque quis, já estava a planear há muito tempo. » «Ah, que ótimo.
Então porque é que eu menti sobre tudo? »
A cara dela naquele momento – olhos arregalados, boca a abrir devagar. «Como assim, mentiste? » «Menti para provar um ponto.
Disse ao Marcelo que se te contasse um monte de mentiras sobre o que ele gostava, tu ias fazer tudo. Ele não acreditou. Então fizemos uma aposta. » «Vocês fizeram uma aposta sobre mim?
Que raio de amiga és? » «Que raio de amiga sou eu? E tu, que raio de amiga és? Contaste ao RH da minha empresa que eu estava a vazar informações, a roubar ideias e a ter um caso com o chefe para ser efetivada.
» Ela empalideceu. «Não fui eu que mandei esse e-mail. » «Eu não disse que foi um e-mail. Acabaste de te entregar.
» Silêncio na mesa. Ela gaguejou: «Eu… eu falei em e-mail, mas não sabia que era por e-mail… quis dizer que alguém deve ter contado ao RH. » Quanto mais falava, mais se enrolava. «E sobre andares a dizer por aí que me roubaste tudo?
Que mais cedo ou mais tarde ias pegar no Marcelo? » Ela ficou branca. «Eu e o Marcelo tínhamos um lance bem antes de vocês ficarem. » O Marcelo levantou a mão: «Confirmo.
Nunca existiu nada. » «Como assim, nunca existiu? Tu emprestavas-me as tuas anotações, eras simpático, fazias piadas…» «Emprestava a toda a gente, Jana. Isso chama-se ser gente boa.
» O Ricardo, do outro lado da mesa, gritou: «Se é assim, o Marcelo também era afim de mim – emprestou-me o caderno de contabilidade o semestre inteiro. » Risada geral. A Jana ficou vermelha de raiva. «A Renata sempre me sabotou.
Desde a faculdade. Fez a minha caveira para não conseguir a vaga na empresa. » A Fernanda largou o copo: «Inveja de ti, Jana? Ela puxou-te para o estágio, falou com o RH por ti.
Eu bem que queria ter uma inimiga que me sabotasse assim. » O Ricardo completou: «Na faculdade, tu não fazias nada nos trabalhos de grupo. Carregávamos-te às costas e ainda reclamavas da nota. » A Camila acrescentou: «Achavas que merecias mais do que te esforçavas para ter.
» Outro colega: «Pedias aos outros para fazer as coisas por ti. Quando corria mal, a culpa era de quem tentou ajudar. Ninguém queria fazer trabalho contigo. »
A Jana olhou em volta.
Nenhum rosto a defendia. Tentou inverter: «Vocês não veem o que ela fez? Armou para eu mudar a minha aparência só para ganhar uma aposta! » A Fernanda, sem tirar o copo da boca: «Tu mudaste de visual para roubar o noivo dela.
Acho que a péssima amiga aqui és tu. »
Murmúrios. «É verdade, pesado. » «Sempre desconfiei.
» A Jana precisava de um aliado. Olhou para o André – o único que ainda não tinha falado. Com os olhos marejados: «André, vais deixar que me tratem assim? Vamos sair daqui, vamos para outro lugar.
Não mereço esta humilhação. » O André levantou as sobrancelhas. «Vamos sair daqui? Tu humilhaste-me à frente da sala inteira quando te convidei para sair.
Disseste que eu nunca ia conseguir sair com uma mulher como tu. Nunca me cumprimentaste direito. E agora queres que te defenda? » Ela suavizou a voz: «Isso foi no passado, era imatura.
Agora vejo o homem íntegro que és. Dá-me uma chance. » O André pousou a cerveja devagar. «Sabes, Janaína, tu estavas certa naquele dia.
Eu realmente nunca sairia com uma mulher como tu. Falsa, invejosa, que tenta destruir a vida dos outros e ainda se faz de vítima. Eu mereço coisa muito melhor. » Olhou para o lado e sorriu.
«Inclusive, estou a sair com a Fernanda. » A Fernanda levantou a mão com um sorrisinho tímido. A mesa fez um «ui» coletivo. A Jana agarrou a bolsa e levantou-se.
Apontou o dedo para a mesa: «Vocês são um bando de idiotas invejosos. Podem ficar a rir, não preciso de nenhum de vocês. » Caminhou para a porta, a olhar para trás, a xingar. «Renata, és uma amiga falsa.
Marcelo, és um cobarde. » Estava tão ocupada a xingar que não viu o empregado a vir na direção contrária com uma bandeja cheia de cervejas. Chocou de frente. A bandeja voou, as canecas viraram-se sobre ela – vestido encharcado, cabelo a pingar, salto a escorregar no piso molhado.
Alguém gritou: «Que desperdício de cerveja. » A Jana saiu do restaurante toda melada, vergonha a escorrer pelo chão. A porta fechou-se. A mesa explodiu em risos de alívio.
Um a um, todos contaram histórias. Cada um tinha sido usado, copiado, culpado por algo que ela fez. O André abanou a cabeça: «Pensava que era o único. » O Marcelo levantou o copo: «Pelo visto, ela era democrática – ferrava toda a gente igual.
»
A noite seguiu leve. Na manhã seguinte, a Jana mandou uma única mensagem no grupo: «Perdedores» – e saiu. Ninguém respondeu. No Instagram, dava para ver as mudanças: reverteu o cabelo, deixou crescer, desfez o preenchimento labial.
Agora postava sobre traição de amigos, gente falsa, injustiça. Frases de autoajuda, stories sobre recomeço. Zero comentários, zero gostos – só a mãe. Seis meses depois, eu e o Marcelo casámo-nos.
Cerimónia simples, bonita, só as pessoas que amávamos. A Fernanda e o André foram padrinhos. A Patrícia do RH estava lá. Na festa, o André puxou-me de lado, com a cara séria: «Renata, acreditas que tive de bloquear a Jana?
Começou a aparecer nos mesmos sítios que eu, no restaurante do almoço, no bar. Mandava mensagens a perguntar se queria sair. Eu ignorei. Ela insistiu.
E mais: começou a copiar a Fernanda – mesmo corte de cabelo, mesma cor, mesmo estilo de roupa. Disse que a Fernanda sabia que a gente tinha um lance e me roubou dela. » Olhei para o Marcelo. Não precisámos de falar.
A Fernanda, ao lado, disse: «Sabe o que vou fazer? Vou raspar a cabeça. Quero ver se ela raspa também. » Rimos.
Eu brinquei: «Faz uma foto com inteligência artificial sem cabelo e posta. Aposto que em menos de uma semana ela raspa. »
Uma semana depois, a Fernanda mandou-me um print: «Não acredito. » Era uma selfie da Jana, de cabeça raspada, com a legenda: «Sem medo de ser eu mesma.
» Olhei para o ecrã, olhei para o Marcelo. Rimos até chorar. A Jana nunca aprendeu.
Passou a vida a cobiçar a vida dos outros – a grama do vizinho parece sempre mais verde para quem não rega a sua.


