Eu estava dentro do carro, no estacionamento do prédio onde morava. Ao meu lado, a Fernanda. No ecrã do meu telemóvel, a câmara do quarto transmitia ao vivo. Na cama que eu partilhava com o meu noivo, ele e uma mulher que eu conhecia bem estavam prestes a usar uma coisa que eu tinha deixado para eles com muito carinho.

A Fernanda apertou-me o braço. — Amiga, ele está a abrir. Olhámos uma para a outra e sorrimos. Mas deixem-me recuar uns meses.
Chamo-me Cristiane, mas toda a gente me chama Cris. Tenho 25 anos, sou funcionária pública e trabalho na parte administrativa da Câmara Municipal. O ordenado não era grande coisa, mas entrava a dia cinco e eu não devia nada a ninguém. O meu noivo chamava-se Jurandir.
Tinha 32 anos e era vendedor numa loja de móveis e eletrodomésticos. Tinha lábia, falava macio, sorria fácil. Combinava com a profissão e, como vim a descobrir, combinava também com o caráter dele. Estávamos juntos há 25 meses, noivos há seis, a morar juntos há cinco, num apartamento que era dele.
Ele tinha dado a entrada e financiado o resto. Eu pagava a luz, a água, o gás, a internet e as compras. No início, era um acordo justo. Ele tratava-me bem, jantávamos juntos, perguntava-me pelo dia.
Eu achava que tinha encontrado um homem bom, simples e trabalhador. Estava feliz. Há três meses, o Jurandir decidiu começar a malhar. Inscreveu-se numa academia perto do trabalho e ia quase todas as noites.
Achei ótimo. Até me ofereci para ir com ele. Na primeira vez, teve uma cãibra. Na segunda, a academia ia fechar.
Na terceira, ficou chateado: a academia era o espaço dele e ele precisava do tempo dele. Respeitei, mas ficou a pulga atrás da orelha. Num dia de folga, encontrei a mochila dele no sofá. Abri para ver se havia roupa para lavar.
No bolso interior, escondido, estava um frasco de gel lubrificante com sabor a menta e efeito gelado. Guardei tudo no sítio e saí para trabalhar. Aquilo não me saía da cabeça. Resolvi segui-lo.
No dia seguinte, saí mais cedo, inventei uma dor de cabeça e fiquei à espera à porta da loja. Ele saiu às seis, todo arranjado, com a mochila às costas. Caminhou até à esquina da academia, passou pela porta e seguiu em frente. Entrou num prédio dois quarteirões depois.
Eu conhecia aquele prédio. A Priscila morava ali. Para quem não sabe, Priscila era a talarica. Minha, da Fernanda e dela fomos um trio no colégio, até ela se meter com o Gerson, o noivo da Fernanda.
Elogiou-o, mandou mensagens, levou-o para a cama e depois ainda publicou fotos do novo casal. Cansou-se num mês e deixou-o. O Gerson voltou a pedir perdão, a Fernanda mandou-o pastar e nós cortámos a Priscila da nossa vida. Desde então, aquele título era cargo vitalício.
Liguei para o Jurandir. Ele atendeu no segundo toque. — Onde estás? — Na academia.
Porquê? — Nada. Só queria saber se voltavas cedo. Mentiu-me sem gaguejar, sem hesitar.
Voltei para casa de Uber, com o coração aos bocados. Entrei e fui direta ao computador dele. A palavra-passe estava num post-it colado no monitor. O WhatsApp Web abriu e a última conversa era com um contacto chamado Prisinha.
Era a Priscila. Li coisas que não devia ter lido. Mensagens íntimas, fotografias, planos de encontro. E, pior, o que diziam sobre mim.
Ela chamava-me feiosa, dizia que eu sempre tinha sido uma piada. Ele ria e respondia que tinha perdido tempo comigo. Combinaram que ela se ia mudar para o nosso apartamento quando o contrato dela terminasse. Até lá, eu continuava a pagar as contas sem saber de nada.
Ele ainda ia pedir-me para comprar uma picanha para os dois celebrarem. Fecha o WhatsApp, desliguei o computador. Não tinha raiva. Tinha uma frieza muito pior.
Não ia confrontá-lo ali. Ia fazer com que se lembrassem de mim para sempre. Liguei à Fernanda e contei-lhe tudo. Ela ficou alguns segundos em silêncio e depois disse:
— Não acredito que essa vagabunda quer fazer isto outra vez.
Mas, desta vez, ela não vai sair como saiu comigo. Podes contar comigo. Eu já tinha uma ideia horrivelmente maravilhosa. Quando lha mandei, ela respondeu com um áudio, a rir tanto que mal conseguia falar.
Naquela noite, o Jurandir chegou da academia, supostamente exausto. Sentou-se no sofá e disse:
— Cris, que tal fazermos um churrasco no fim de semana? Compra uma picanha boa, uns vinhos. — Claro, meu amor.
Tu sabes que eu faço tudo por ti. — Já agora, a Fernanda convidou-me para ir com ela para a quinta dos pais no fim de semana. Queres vir? — Ai, não vou poder, vai ter trabalho.
Mas vai, aproveita. Fingiu uma tristeza, mas os olhos brilharam. Era exatamente o que ele queria. Fui dormir.
Esperei pelo ronco e levantei-me. Na mochila dele estava um frasco novo de gel. Esvaziei-o na pia e enchi-o com Salompas em gel. Textura parecida, cheiro a mentol, mesmo aspecto.
Ninguém ia notar a diferença antes de fazer efeito. Voltei a pôr tudo no lugar. Instalei duas mini-câmaras, uma na sala e uma no quarto, liguei-as ao telemóvel e testei. Imagem e som perfeitos.
Deitei-me ao lado do Jurandir e sorri no escuro. Na sexta-feira, peguei na mala, disse adeus e desci. A Fernanda esperava no carro, com dois refrigerantes, um pacote de biscoitos e um saco de pipoca. Abri o aplicativo e vi o Jurandir a arrumar a casa, a passar um pano no chão, a acender uma vela aromática.
Ele nunca tinha feito nada daquilo por mim. Uma hora depois, o telefone do portão tocou. Entrou a Priscila. Vestido curto, saltos altos, cabelo solto.
Olhou à volta e disse:
— Até é ajeitadinho. Vou adorar morar aqui. O Jurandir colou-se a ela. Beijos no pescoço, mãos na cintura.
Sentaram-se no sofá, beberam vinho. Depois ela disse:
— Vamos estrear a cama? Ele foi buscar o gel à mochila. A Fernanda apertou-me o braço.
— Está a abrir. Assim que os vimos a usar o gel, saímos do carro em silêncio, fechámos a água do apartamento e voltámos para o carro. No ecrã, ela começou a queixar-se:
— Não está a gelar. Está a esquentar.
— Deve ser o efeito quente. — Não, Jurandir, está a arder! Empurrou-o. Ele caiu da cama.
Correram para a casa de banho. Não saía água. Correram para a cozinha. Nada.
Ele abriu uma garrafa de água e despejou-lhe em cima. Depois Coca-Cola. Depois leite. Escorregou no chão e caiu de rabo, com as pernas para o ar.
Eu e a Fernanda estávamos dobradas a rir dentro do carro. Os gritos ouviam-se com certeza no bairro inteiro. — A piscina, Jurandir! Saíram pedidos pelo corredor, a bater às portas.
Quando chegámos à zona da piscina, já havia vizinhos nas janelas, alguns a filmar, e os dois lá dentro, pelados, a esfregar as partes em pânico. Aproximei-me da borda com a melhor cara de surpresa:
— Jurandir, Priscila, o que estão a fazer pelados na piscina? O Jurandir ficou branco. — Pensava que estavas na quinta da Fernanda.
— Voltei porque me esqueci de uma coisa. Mas quem me deve explicações são vocês. Foi nesse momento que entraram dois polícias. — Boa noite.
Recebemos uma denúncia de perturbação e atentado ao pudor. Porque estão sem roupa? — Uma longa história, senhor. — Eu tenho tempo.
Estão embriagados? Usaram droga? — Só um copo de vinho. — Então porque é que os moradores dizem que andaram dois drogados pelados no corredor a bater às portas?
O Jurandir tentou explicar-se. O polícia não quis saber. — Não há conversa a sós. Saem da água, vestem-se e vão à esquadra.
O polícia subiu comigo para buscar roupas. A Fernanda ficou para trás e tornou a abrir a água. O apartamento cheirava a Salompas. O polícia tocou numa substância que estava na cómoda e foi lavar bem as mãos.
Entreguei duas toalhas e duas camisolas. Uma cor-de-rosa cheia de corações. Outra com “Deusa do Amor” à frente. O polícia ordenou que vestissem.
O Jurandir ficou com a cor-de-rosa. A Priscila com a Deusa do Amor. As risadas nas janelas ouviam-se de todos os andares. — Não tinha água no apartamento?
— perguntou o polícia ainda na esquadra, enquanto eles estavam a dar as declarações. — Não tinha, senhor. — Eu acabei de usar a torneira lá em cima. Estão a mentir.
Entraram na viatura: ele de camisola cor-de-rosa, ela de Deusa do Amor, descalços, molhados, a cheirar a cloro. Foi a cena mais patética que aquele prédio já viu. Depois da viatura sair, subi. Juntei as minhas coisas, retirei as câmaras e enviei o melhor vídeo do grupo do prédio para todos os grupos do Jurandir: família, amigos, trabalho, futebol.
Depois restaurei o computador para as definições de fábrica, mandei-lhe uma mensagem — “Jurandir, está terminado. Não me procures. ” — e bloqueei o número. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do tapete.
Na primeira noite em casa da Fernanda, voltámos a ver os vídeos todos. Rimos até chorar, até doer a barriga. No dia seguinte, o vídeo dos vizinhos viralizou. Casal pelado pula para a piscina de prédio.
Ninguém sabia a história verdadeira. Só nós. A mãe do Jurandir ligou-me a chorar. Perguntou se ele andava metido em drogas.
Eu disse que sim. Ele negava, mas ninguém acredita num viciado. A loja despediu-o na segunda-feira. A loja da Priscila também.
Ela culpou-o de tudo e deu-lhe um pontapé. Ainda foram a tribunal por ato obsceno. Pagaram cada um cinco cabazes de bens essenciais. O Jurandir, sem emprego e sem conseguir arranjar outro porque o entrevistador o reconhecia do vídeo, teve de vender o apartamento por tuta e meia.
Voltou para casa da mãe com uma mala. E a mãe começou a tratá-lo como uma criança: controlava o telemóvel, o computador, os amigos. Um homem de 32 anos a pedir autorização para usar o Wi-Fi. Eu segui a minha vida.
Solteira, tranquila, com o mesmo emprego estável. A Fernanda, pela primeira vez desde que a Priscila lhe roubou o noivo, viu a justiça ser feita. Ainda tenho os vídeos das câmaras, bem guardados. Sempre que nos apetece rir, fazemos uma pipoca e vemo-los.
O escorregão na cozinha é o melhor momento; passamos em câmara lenta. E ainda hoje, quando passo numa farmácia e vejo um Salompas, dou uma risadinha. Salompas trata mesmo as dores.
Até as de cotovelo.


