Uma mensagem do Jake, três anos de namoro, e uma frase que mudou tudo: precisamos de conversar. A minha melhor amiga, a Jena, jurou que era pedido de casamento, que um passarinho verde lhe tinha…

Uma mensagem do Jake, três anos de namoro, e uma frase que mudou tudo: precisamos de conversar. A minha melhor amiga, a Jena, jurou que era pedido de casamento, que um passarinho verde lhe tinha...

O telemóvel vibrou no meio do trabalho. Era o Jake: “Precisamos de conversar com urgência. Pode ser no fim de semana. Encontramo-nos no parque.

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Li três vezes. Três anos de namoro, uma mensagem daquelas e o mesmo parque onde tudo tinha começado. O coração disparou. Saí do trabalho e liguei logo à Jena, a minha melhor amiga.

“O Jake mandou-me dizer que precisa de falar comigo urgentemente. No parque, no fim de semana. ”

Houve silêncio, depois uma risadinha. “Um passarinho verde disse-me que vais ter uma surpresa este fim de semana.

Faz as unhas, compra uma roupa bonita. ”

Não precisava de mais nada. No dia seguinte fomos ao centro comercial. Experimentei quase tudo.

Ela opinava com a sinceridade do costume. Quando saí da cabine com o vestido branco, simples, justo na medida, ela levantou-se da cadeira. “Para aí. É esse, Sara.

Estás linda. ”

Acreditei nela. Marquei a manicure para sábado de manhã. Rosa-claro, discreto, perfeito para fotografia de anel.

Na sexta-feira, o Jake confirmou o banco de sempre, debaixo da amendoeira. Adormeci a sorrir. No sábado fiz as unhas, tomei banho, vesti-me devagar. Fui a pé, doze minutos a imaginar a cena.

Quando dobrei a curva, o Jake estava sentado no banco, de costas para o lago. Aproximei-me por trás e tapei-lhe os olhos. “Adivinha quem é? ”

Ele tirou-me as mãos sem jeito.

“Sara. ”

Seco. Dei a volta e vi a cara dele. Não havia ali nenhum sorriso.

Olhou-me de cima a baixo, o vestido, as unhas, o cabelo, e não vi admiração. Vi desconforto. “Estás bonita”, disse, mas da maneira errada. “Obrigada”, tentei sorrir.

“O que querias falar? ”

“Sara, passámos três anos juntos. Foram anos bons. Mas acho que a melhor solução é terminar.

Esperei pela brincadeira. “Isto é uma brincadeira, Jake? ”

A voz saiu-me pequena. “Não é.

Eu sei o que pensas de mim. É por isso que temos de acabar. ”

“O que é que eu penso de ti? Jake, olha para mim.

Ele levantou-se. “Desculpa, Sara. ”

E foi embora sem olhar para trás. Fiquei no banco, de vestido branco e unhas cor-de-rosa, a chorar à frente de quem passava.

Depois mandei uma mensagem à Jena: “Ele terminou comigo. Qual era o passarinho verde? ”

Não respondeu logo. Uns minutos depois: “Vem cá a casa.

Vamos falar disto. ”

Limpei a cara e fui. Ao virar a esquina, vi o carro do Jake estacionado em frente à casa dela. Parei.

Pela janela, duas silhuetas perto uma da outra, a beijarem-se. A Jena tinha-me mandado vir ali para eu ver aquilo. Toquei à campainha. A porta abriu-se e ela apareceu com um sorriso de quem esperava.

O Jake estava parado no corredor, atrás dela. “O que é que está a acontecer aqui, Jena? ”

“Não é óbvio? ”

“Sabias que ele ia terminar comigo.

Fizeste-me acreditar que era um pedido de casamento. ”

“Não foi engraçado? No lugar de um anel, um pé no rabo. ”

“Porque é que estás a fazer isto?

“Porque cansei. Cansei de te ouvir maltratar o Jake. Reclamavas dele todos os dias. ”

“Eu nunca falei mal dele.

“Já lhe contei tudo. ”

Olhei para o Jake. “Jake, eu nunca disse nada disso. Fui ao parque a achar que ias pedir-me em casamento.

Comprei vestido, fiz as unhas. Achas que uma pessoa que pensa mal de ti faz isso? ”

Ele desviou o olhar. Eu vi que queria acreditar em mim, mas o que a Jena lhe tinha metido na cabeça pesava mais.

Olhei para os dois. “Só uma coisa: o Troy sabe disso? ”

A Jena soltou uma gargalhada. “O Troy?

Aquele perdedor? É a última pessoa que me preocupa. ”

O Troy era o namorado dela há seis meses. Tinha estudado finanças com o Jake, mas trabalhava na oficina do pai.

Conheceram-se numa festa da faculdade do Jake, onde eu levei a Jena. Ela tinha vergonha dele. Queixava-se das mãos cheias de óleo, do macacão, de não ter ambição. Eu costumava dizer-lhe: se não gostas, termina.

Ela respondia: é melhor do que ficar sozinha. Naquele momento, como se o universo tivesse ouvido, um carro estacionou atrás do carro do Jake. Era o Troy, com um saco de comida e um ramo de flores. Vinha arranjado para a ver.

A Jena olhou para as mãos dele e fez uma careta. “Tu e essas mãos imundas de óleo. Acabou, Troy. Nunca vais chegar aos pés do Jake.

Ele tem uma empresa, um futuro. Tu tens uma oficina de esquina. ”

Troy ficou parado com o ramo na mão. “Estás com ele?

“És lerdo até para perceberes isso. ”

Ele assentiu devagar, sem gritar, sem se defender. Depois olhou para mim. “Sara, já comeste?

Comprei comida a mais. ”

Saímos dali juntos. Fomos para o parque, para o lado oposto daquele banco. Ele pôs a comida na mesa, as flores ao lado, sentou-se à minha frente.

“Pelo que percebi, os dois levámos um pé no rabo no mesmo dia. ”

“Eu pensava que o Jake me ia pedir em casamento. ”

“Eu ia ver uma série. ”

Ri, chorei, engasguei-me com o salmão.

“Estás a temperar o salmão com lágrimas. O certo é salgar com sal. ”

Rimos até doer. Conversámos muito.

Primeiro sobre a Jena e o Jake, depois sobre tudo o resto. Era fácil estar naquela mesa. “Devíamos era vingar-nos, não? ”

“Eu conheço o dono da empresa onde o Jake trabalha.

Posso ligar-lhe amanhã e mandá-lo para a rua. ”

Olhei para ele sem saber se estava a brincar. “Imagina a cara do Jake. ”

“E a da Jena.

Ficámos a inventar cenários cada vez mais absurdos. Nenhum dos dois ia fazer nada daquilo, mas o dia ficou mais leve. Nos dias seguintes, chorei o que tinha de chorar. O Troy mandou-me mensagem todos os dias.

Começámos a sair, devagar, sem pressa. Três meses depois, estávamos a namorar. A Jena passou a publicar indiretas sobre sobras e gente sem ambição. Não respondi a nenhuma.

Estava bem demais para me importar. Até que o Troy me convidou para a festa anual da empresa. “É onde o Jake trabalha. O Jake vai estar lá, e provavelmente a Jena também.

Vens comigo? ”

“Claro. Alguém tem de te defender. ”

Na noite da festa vesti-me sem pressa.

Um vestido preto que já tinha no armário. O Troy chegou de camisa social, calça escura, cabelo penteado. “O que foi? ”

“Nada.

É que as tuas mãos estão limpas. ”

“Hoje tomei banho. ”

Rimos. No salão, vi os dois do outro lado.

A Jena de vestido vermelho comprido, pendurada no braço do Jake. Ela viu-me e veio logo na nossa direção. “Olha quem está aqui. Não sabia que mecânicos recebiam convites para estas festas.

“Depende do mecânico”, respondeu o Troy. Ela olhou para mim de cima a baixo. “Vestido preto básico, Sara. É a tua cara.

“Não preciso de um vestido de gala para uma festa de empresa. ”

O Jake e o Troy trocaram um aceno seco. A Jena puxou o Jake. “Vem, não quero que pensem que somos amigos deles.

“Ela está simpática hoje”, disse eu. “É a máscara que usa à noite. ”

Enquanto circulávamos pelo salão, muita gente vinha falar com o Troy sobre a oficina, sobre carros, sobre peças. Depois apareceu um casal mais velho.

A senhora apertou as bochechas do Troy com as duas mãos. “Mãe”, disse ele, sem jeito. Apresentou-me a Margaret e Robert, os pais. Foram simpáticos e sentaram-se connosco.

A cerimónia de entrega de prémios começou. Entre anúncios e palmas, fiquei a acompanhar sem esperar nada. Até que o apresentador disse que ia dar um prémio especial a alguém que estava ali desde o início, sem o qual a empresa não teria saído do papel. E chamou o nome do Troy.

Olhei para o lado. O Troy pousou o copo com uma calma irritante. “Só um instante. ”

Subiu ao palco, agradeceu em três frases e voltou.

Margaret segurava o troféu com os olhos marejados. Robert deu-lhe uma palmada no ombro. “Orgulho de ti, meu rapaz. ”

“Então, sócio fundador?

“Ah, isso. A oficina é o meu hobby. ”

“O quê? ”

“Comprei a oficina do meu pai para ele poder descansar, e gosto de arranjar carros.

Do outro lado do salão, a Jena estava de boca aberta. O Jake imóvel, o copo no ar. A Jena atravessou o salão quase a correr. Parou à frente do Troy.

“Porque é que nunca me contaste isto? ”

“Nunca me perguntaste. ”

“Isto é a tua empresa? Desde quando?

“Sou sócio desde o início. ”

Ela baixou a voz. “Eu errei, Troy. O Jake não é nada.

Sempre te amei. Termina com a Sara e vamos embora. ”

Margaret, que se tinha levantado com dois copos de batida de coco, deu um passo em falso e entornou a batida toda nas costas do vestido vermelho. A Jena gritou.

“Sua velha desastrada! ”

“Desculpa, querida, o salto traiu-me. ”

O Jake veio atrás dela. “Jena, chega.

Ela empurrou-o. “Solta-me, idiota. Eu achava que tinhas mais dinheiro do que o mecânico. Mas tu não és nada.

Eu contei meia dúzia de mentiras sobre a Sara e tu engoliste tudo. Bastou eu dizer que ela estava contigo por dinheiro e correste para o parque. És um pau mandado. ”

O salão inteiro olhava.

“O mecânico é dono da empresa onde trabalhas, Jake. Troquei um sócio por um empregado. ”

Troy fez um aceno. Dois seguranças apareceram e levaram a Jena, ainda a gritar, até à porta.

Ela foi-se ouvindo cada vez mais longe. Ficou um silêncio pesado. O Jake ficou parado, pálido, com lágrimas nos olhos. Aproximou-se de nós.

“Desculpa pelo inconveniente. ”

Troy assentiu. O Jake olhou para mim. “Sara, ela tinha razão.

Eu engoli tudo. Desculpa por tudo o que te fiz passar. ”

E foi embora. Uma mulher vestida com um fato escuro inclinou-se para o Troy.

“Queres que desliguemos o Jake? ”

Troy olhou para mim. Neguei com a cabeça. Ele respondeu:

“Deixa-o estar.

Troy levantou o copo. “A próxima ronda é por minha conta. ”

O salão riu e a festa recomeçou. Mas nos grupos só se falava do vestido vermelho e da batida de coco.

E do mecânico que afinal era dono da empresa. Dois anos depois, Troy e eu casámo-nos. Margaret chorou a cerimónia inteira. Robert, no discurso, disse que sempre soube que o filho ia encontrar alguém que gostasse dele com óleo e tudo.

A Jena ainda publica indiretas, ainda fala mal de mim, ainda se faz de vítima. Há quem acredite. Não me importo. O Jake continua na empresa.

Em todas as festas aparece sozinho, vestido de fato, quieto, com um olhar de quem sabe que perdeu uma coisa boa. Na semana passada descobri que estou grávida. O Troy ficou dois minutos a olhar para o teste sem dizer nada. Quando o achei travado, levantou-me do chão e pôs-se a rodar comigo pela cozinha.

Menino ou menina, não sei. Só quero que saiba arranjar carros como o pai. E o passarinho verde, no fim, cantou para o lado errado.