A caixa estava no fundo do guarda-roupa do João. Dentro, uma cartela de preservativos. Eu tomava a pílula todos os dias — aquilo não fazia sentido nenhum. Sou a Celina, da farmácia. O João era o…

A caixa estava no fundo do guarda-roupa do João. Dentro, uma cartela de preservativos. Eu tomava a pílula todos os dias — aquilo não fazia sentido nenhum. Sou a Celina, da farmácia. O João era o...

A caixa estava no fundo do guarda-roupa do João, debaixo de umas camisas dobradas. Dentro, uma cartela de preservativos. O meu coração parou. Estávamos juntos há dois anos, eu tomava a pílula há mais de dois anos, e aquilo não fazia sentido nenhum.

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Fiquei ali com a caixa na mão, a tremer, a tentar arranjar uma explicação. Não encontrei nenhuma. Esperei que ele chegasse. Durante o jantar, perguntei sem rodeios:

— João, porque é que há uma caixa de preservativos no fundo do teu guarda-roupa?

Ele ficou com o garfo no ar. Depois respondeu na hora:

— E porque é que estavas a mexer no meu guarda-roupa? — Procurava uma blusa que deixei aqui. Não desvies o assunto.

— É para o caso de te esqueceres da pílula. Já aconteceu. Sim, já tinha acontecido uma ou duas vezes. Mas há mais de um ano que eu tomava a pílula todos os dias à mesma hora, com alarme no telemóvel.

A explicação parecia boa, mas não batia certo. Para se perceber o que se passava, tenho de recuar um pouco. Chamo-me Celina, tenho 24 anos e trabalho numa farmácia de bairro. Moro com a minha mãe, que me criou sozinha depois de o meu pai ir comprar cigarros e nunca mais voltar.

Nunca tivemos luxo, mas nunca faltou comida. Foi numa festa de anos de uma amiga que conheci o João. Ele tinha 23 anos, era bonito, falou comigo com uma naturalidade impressionante, fez-me rir a noite inteira e pediu-me o número. Eu dei, claro.

Começámos a sair, primeiro uma vez por semana, depois quase todos os dias. Ele era atencioso, mandava mensagens de bom dia e boa noite, levou bolo e flores quando conheceu a minha mãe. Ela quase o adotou ali mesmo. “Este rapaz é educado, Celina.

Não o deixes fugir. ”

Namorámos dois anos. Ele trabalhava como vendedor numa concessionária de carros, eu na farmácia. Num jantar que ele preparou em casa, com velas e pétalas de rosa, pediu-me em casamento.

Eu disse que sim antes de ele acabar a frase. O casamento ia custar dinheiro, e dinheiro era o que não sobrava. Comecei a economizar em tudo, levava marmita, cortava o cabelo em casa, tinha uma folha de cálculo no telemóvel. O João dizia que também estava a juntar, mas continuava a almoçar fora, a sair com os amigos e a não mudar nada.

Eu não cobrava. Ele trabalhava na maior concessionária da cidade. A chefe dele chamava-se Sandra, diretora comercial, quarenta e poucos anos. Queixava-se dela todos os dias.

“Aquela mulher é um dragão, humilha-me na frente de toda a gente. ” Eu ficava com pena. Até que a administração da concessionária me ligou. Iam premiar o João como funcionário revelação do ano e promovê-lo a coordenador de equipa.

Pediram-me para fazer um discurso de homenagem no palco da festa. Aceitei na hora. Escrevi um discurso bonito sobre dedicação, honestidade e o nosso futuro. Ensaiava em frente ao espelho.

O João estava radiante, planeava o apartamento maior, queria antecipar o casamento. Duas semanas antes da festa, tive a ideia de procurar fotografias antigas dele no apartamento para mostrar no telão. Fui lá depois do trabalho, com a chave que ele me tinha dado. Não encontrei fotografias.

Encontrei a caixa de preservativos. A partir daquela noite, comecei a reparar em tudo. O telemóvel, que antes ficava jogado em cima da mesa, passou a andar sempre no bolso das calças. Ele começou a chegar a casa às oito, nove, sempre com a desculpa de que a Sandra lhe exigia relatórios.

Duas vezes chegou com perfume doce, perfume de mulher, e disse que era uma cliente que lhe tinha dado um abraço. Apareceu com roupa nova, camisas e ténis de marca. “Um colega comprou e não serviu. ” “Um amigo ia deitar fora.

” Tudo tinha uma explicação. Tudo junto cheirava mal. Três dias antes da festa, estava no sofá da sala dele. Ele foi tomar banho.

O portátil da empresa estava aberto em cima da mesa, ligado. Não ia mexer, mas chegou uma notificação: “Chefona” — “Pensando em ti. ” E um emoji de diabinho. Sentei-me e abri a conversa.

A Chefona era a Sandra. Li meses de mensagens entre eles. Ele chamava-lhe “chefinha”, ela chamava-lhe “meu subalterno”, e o fetiche passava pela hierarquia: “Vem à minha sala que a tua chefe quer avaliar-te. Vamos ver se mereces um bónus.

” Haviam planos para a festa: “Damos uma escapadinha antes da premiação. Ninguém vai notar. ” Ele: “Tem de ser rápido, a minha noiva vai estar lá. ” Ela: “Ela nem vai notar.

Depois da festa, a promoção é toda tua, meu amor. ”

Havia fotos. Os dois sem roupa dentro dos carros de exposição, na sala de reuniões, no depósito, na mesa de negócios, na casa de banho da direção. Tinham batido o cartão em todos os espaços da concessionária e registado tudo para a posteridade.

A roupa nova, os ténis, os “mimos”, tudo era a Sandra a comprá-lo. A promoção, o prémio, a minha homenagem lacrimejante: uma farsa. Ouvi o chuveiro desligar, fechei tudo e fui para a sala. Quando ele saiu da casa de banho, eu já tinha a mão na maçaneta.

— Onde vais? — A minha mãe pediu-me para chegar cedo. Saí antes de ele ver a minha cara. Chorei o caminho todo de volta para casa.

Na cama, a raiva foi crescendo. Ele olhava-me nos olhos e mentia sem piscar. Terminar não me chegava. Terminar era limpo demais.

Queria que caísse ao chão na frente de toda a gente. Liguei a televisão e apareceu um anúncio de uma festa com pessoas cobertas de tinta fluorescente, a brilhar no escuro. Sentei-me na cama. Comprei um frasco de tinta corporal fosforescente, daquelas que são invisíveis à luz normal e brilham no escuro durante horas.

Escolhi o verde, o mais forte. Quando chegou, passei no braço, apaguei a luz e vi aquilo brilhar. Sorri pela primeira vez desde que tinha lido as mensagens. Um sorriso mau.

No dia anterior à festa, fui ao apartamento dele. A caixa tinha desaparecido do guarda-roupa. Procurei o quarto todo e encontrei-a debaixo da cama. Não só a tinha escondido melhor, como também tinha reposto o stock.

Que dedicado. Com uma seringa da farmácia, piquei a embalagem de cada preservativo e injetei a tinta. Uma a uma, com calma, até deixar tudo exatamente como estava. Na noite da festa, o salão estava cheio, umas duzentas pessoas.

O João veio receber-me à entrada, num fato escuro, cheiroso, lindo. Segurei a vontade de lhe cravar o salto no pé. Fui simpática com os colegas. Vi a Sandra do outro lado, de vestido vermelho apertado, maquilhagem carregada, a dar ordens aos empregados como se o evento fosse dela.

Olhou para mim com um sorrisinho de canto. Aproveita, pensei. Daqui a pouco desaparece. Durante o jantar, o João inclinou-se: “Vou à casa de banho.

” A Sandra levantou-se logo a seguir. Que estranho, os dois tiveram a mesma azia. Voltaram vinte minutos depois, ele com ar de quem não fez nada, ela com o batom retocado. Eu tomei um gole de vinho e esperei.

O mestre de cerimónias começou as premiações. Quando chegou a vez do funcionário revelação, o João subiu ao palco, recebeu o troféu das mãos da Sandra e agradeceu-lhe pela confiança. Quase cuspi o vinho. Depois anunciaram a minha homenagem.

Subi ao palco. Respirei fundo. — Eu ia falar sobre como o João é dedicado, trabalhador, parceiro e honesto. Ia falar disso até descobrir uma coisa que mudou o meu discurso inteiro.

Ele ainda sorria, com o troféu na mão. A Sandra ao lado, postura de primeira-dama. — Descobri que ele é muito mais dedicado depois do expediente. Virei-me para o técnico de som:

— Podem apagar as luzes, por favor?

As luzes apagaram-se. No escuro, a Sandra começou a brilhar em verde neon. O rosto, o decote, as mãos, uma parte do vestido. Ao lado dela, o João brilhava nas mãos, no rosto e na braguilha.

Duzentas pessoas viram. Houve silêncio. Depois, num canto, um terceiro brilho: o vendedor da boca verde. Tinha os lábios e o queixo a brilhar.

Tapou a boca com as mãos, viu as mãos verdes, percebeu tudo, levantou-se, derrubou a taça e vomitou no chão. Alguém gritou: “Eu sabia. ” Outro dizia que tinha apertado a mão ao João e sentido a mão oleosa. Risos, nojo, palmas.

Quando as luzes se acenderam, o João veio na minha direção, furioso, e puxou-me para um canto. Eu ainda tinha o microfone na mão, ligado. — És maluca? Arruinaste a minha carreira!

A voz rebentou nas colunas. — A tua carreira? Não fui eu que transei com a minha chefe em cada canto da empresa. A Sandra arrancou-me o microfone e atirou-o para longe, mas a partir daí perdeu o controlo.

Chamou-lhe burro, incompetente, disse que a promoção tinha sido dada de bandeja. O diretor estava a dois metros, a ouvir tudo. “Sandra, a minha sala, segunda-feira, oito horas. ” Depois olhou para o João: “O senhor também.

” O João tentou culpar a Sandra, disse que ela o tinha ameaçado, que fazia aquilo por nós, pelo nosso futuro. — Fiz isto pela nossa relação, Celina! Tirei a aliança do dedo, coloquei-lhe na palma da mão e fechei-lhe os dedos. — Fica com isso.

Vais precisar de vender para pagar o aluguer. Desci do palco, peguei na mala e saí. Havia funcionários a bater palmas. Saí com a cabeça erguida.

Quando cheguei a casa, contei à minha mãe. Ela ficou a olhar para mim, depois abriu um sorriso enorme. — Minha filha é um génio. Se eu tivesse esta ideia há vinte anos, o teu pai e a mulherada do bairro brilhavam no escuro.

Rimos até chorar. No dia seguinte, o João apareceu à porta de casa. A minha mãe abriu, com uma agulha de tricô na mão. — A Celina não te quer ver.

Se não desapareceres num instante, enfio-te isto onde vais precisar de uma cirurgia. Ele foi-se embora. Dois meses depois, entrou um cliente na farmácia a queixar-se de uma dor de cabeça. Olhou para mim e perguntou:

— Não és tu a Celina da festa da concessionária?

O estômago gelou-me. Ele riu-se. — Tu és uma lenda. Depois daquela noite, a informática pegou nos computadores da Sandra e do João.

O João tinha o WhatsApp pessoal ligado no computador da empresa. Encontraram as conversas, as fotos, tudo. O dono ficou tão enojado que mandou desinfetar a concessionária inteira. Foram despedidos por justa causa, os dois.

E o vendedor da boca verde também. Nunca se percebeu se a boca brilhava por causa da Sandra ou do João. Baixou a voz. — E tem mais.

A Sandra está grávida. O pai é o João. Quando ele saiu, fiquei ali a olhar para o teto. A agulha da seringa.

Essa parte, juro, não estava no plano. Mas também não ia perder o sono por causa disso. Hoje continuo na farmácia, mas comecei a tirar o curso de farmácia. Dizem que os dois estão juntos, sem emprego e com um filho a caminho.

Não sei. Não quero saber. Só deixei uma avaliação de cinco estrelas para a tinta: “Produto bem embalado, faz as pessoas brilharem mais do que deviam. Recomendo.

Comprem sem medo. ”