Eu estava num bar, numa sexta à noite, quando vi a minha irmã mais nova de língua praticamente dentro da orelha do meu namorado. Inclinou-se, sussurrou qualquer coisa e ainda lhe deu uma dentada. Sim, ouviram bem: a minha irmã a morder a orelha do Bruno. Antes que alguém pudesse reagir, um homem furioso levantou-se no meio do bar e gritou o nome completo dela.

Mas calma. Deixem-me recuar e contar como chegámos ali. Chamo-me Carolina, tenho 26 anos, sou engenheira de produção e trabalho em São Paulo. Saí do interior aos 18 anos com uma mala, um sonho e muito medo.
A minha cidade fica a três horas da capital, uma terra pequena onde toda a gente sabe da vida de toda a gente. A minha mãe Márcia separou-se do meu pai e casou com o Marcelo. O Marcelo é daqueles homens que fala como se toda a gente vivesse no quintal dele. Voz alta, volume no máximo, versículo bíblico para tudo.
Ele e a minha mãe são muito religiosos. A casa deles tem mais frases sagradas na parede do que fotografias de família. A Duda, a Maria Eduarda, é minha meia-irmã, oito anos mais nova do que eu. Quando saí de casa, ela tinha dez anos.
Usava tranças, brincava com bonecas e chorava quando o gelado acabava. Eu voltava duas vezes por mês, depois menos. A faculdade, o estágio, o trabalho. A vida adulta engoliu-me.
Não a vi crescer. Quando percebi, ela já não era a menina que eu guardava na memória. Conheci o Bruno no último semestre do curso. Entrou na minha turma para repetir uma disciplina, sentou-se ao meu lado e pediu as minhas anotações.
Devolveu-as no dia seguinte com um bilhete: “A tua letra é bonita. A dona também. ” Ri. Ele sorriu.
E foi ali que tudo começou. O Bruno não é só bonito. É daqueles homens tranquilos, diretos, sem joguinhos. Quando diz que gosta de mim, acredito, porque a voz não treme.
Namorámos três anos sempre com estabilidade, parceria, confiança. Eu confiava nele de olhos fechados. Morava num apartamento pequeno de dois quartos com uma amiga, mas ela ganhou uma bolsa no estrangeiro e saiu antes do contrato acabar. Fiquei com dois meses para arranjar alguém.
Foi quando a minha mãe ligou. “A Duda passou no vestibular. Faculdade de moda em São Paulo. Só que precisa de um sítio para morar.
”
Eu já sabia onde aquilo ia parar. Aceitei. Na minha cabeça, ia ser uma oportunidade para nos aproximarmos. Arrumei o quarto, comprei um criado-mudo, até coloquei um vaso na janela.
Estava genuinamente entusiasmada. A Duda chegou num sábado de manhã. Duas malas gigantes, cabelo escovado, unhas feitas, roupa de quem vinha para uma sessão fotográfica. Entrou, olhou para o apartamento e fez uma cara de quem tinha pedido um bife e recebido um prato de sopa.
“É aqui que moras, Carol? ”
“É pequeno, mas é bem localizado. Fica a dez minutos a pé do metro. ”
“Vou precisar de andar dez minutos a pé?
”
Não era piada. Ela perguntou se eu não a ia levar de carro. Para a faculdade, para o shopping, para todo o lado. A Duda nunca tinha lavado um prato, nunca tinha ligado uma máquina de lavar.
A mãe fazia tudo, a empregada fazia o resto. Ela vivia como uma princesa, e eu, sem querer, tinha-me tornado a criada da princesa. No primeiro fim de semana, apresentei as regras. Cada uma lava a sua roupa, cada uma limpa o que suja, cada uma faz a sua comida.
A Duda olhou para mim como se eu tivesse pedido para ela lavar roupa no rio. “Porque não contratas uma empregada? ”
“Para um apartamento de 35 metros quadrados? ”
“Não sei cozinhar.
”
“Aprendes. Ou pedes comida, como já fazes. ”
No dia seguinte, a minha mãe ligou. A Duda tinha ligado a chorar, a dizer que eu era carrasca, que não lhe fazia comida, que a obrigava a limpar a casa toda.
Eu expliquei a minha versão, mas percebi que aquilo ia ser uma guerra. A Duda pedia delivery todos os dias e deixava os pratos sujos em cima da pia, não dentro. Quando eu ia buscar, lá estavam os restos, como se alguém fosse aparecer magicamente para lavar. Metia a roupa suja na máquina e não a ligava.
Eu tinha de ligar. E, mesmo assim, não estendia. No fim de semana da limpeza, eu esfregava o chão e ela sentava-se no sofá a lixar as unhas. Quando eu olhava, pegava no pano e fingia que limpava.
Passava dois minutos de pé e voltava para o telemóvel. Eu fiz noventa por cento daquela casa sozinha. O problema maior era o Bruno. Ele vinha ao apartamento aos fins de semana.
A Duda, que durante a semana andava de moletom largo e cabelo preso, transformava-se quando ele aparecia. Passava a andar de cueca e camisola curta pela sala. Barriga de fora, pernas de fora, tudo de fora. Uma vez, até se baixou à frente do Bruno, de costas, de propósito, à procura de qualquer coisa no chão.
“Duda, podes vestir uma roupa quando o Bruno está aqui? ”
“Porquê? Tens medo que ele veja outra mulher de cueca? ”
“Não é insegurança.
É respeito. ”
“Esta casa também é minha. Faço o que quero. ”
Ainda assim, o Bruno contava-me tudo.
Ela apertava o braço dele, perguntava se ele ia ao ginásio, cheirava-lhe o pescoço. E ele ficava desconfortável, sem saber como reagir. Era a minha irmã. Não podia ser grosseiro, não podia ser simpático demais.
Um campo minado. Comecei a ir para o apartamento do Bruno aos fins de semana para evitar conflito. A Duda percebeu e disse: “O Bruno não vem mais cá? É, ele deve estar a olhar para mim.
Tens de ter cuidado com esse namorado, Carol. Deve andar a meter-te os cornos. ”
Ela estava a inverter tudo. Mas isso era só o começo.
Um dia, o Bruno mostrou-me as mensagens que ela lhe mandava no Instagram. Começou com “Olá, cunhado, tens saudades? ”. Depois passou para “és muito gato”, “não queres trocar a minha irmã por uma versão mais nova?
”, “brincadeira”. Até uma foto de lingerie transparente com a legenda: “Diz-me se o teu namorado vai gostar. ”
Ele não respondia a nada. Ela continuava.
Na quarta-feira, durante o banho, entrei no quarto dela para procurar uma blusa que ela me tinha roubado. O computador dela estava aberto em cima da cama, com uma conversa no ecrã. Eu sei que não devia ter lido, mas li. “O meu cunhado é muito gostoso.
Nem sei o que ele vê na minha irmã. Já lhe estou a mandar umas fotos bem sexis. Uma hora ele não aguenta. ”
“E o Estevão?
”
“O Estevão é chato e feio, mas dá-me presentes. Eu quero um homem de verdade, tipo o Bruno. ”
Saí antes de ela sair do banho. As mãos tremiam de raiva.
Liguei à minha mãe e contei tudo. Tudo. As roupas, as mensagens, a conversa, os cartões de crédito, a louça suja. A resposta foi um murro no estômago.
“Carolina, a Duda é uma menina. Tem dezoito anos. Tu é que estás com ciúmes dela. Ela é da igreja, nunca faria essas coisas.
”
O Marcelo ainda reforçou: “Não darás falso testemunho. O traidor é o teu namorado. Está claro que queres tirar a tua irmã de casa para viver no pecado com esse rapaz. ”
Eu olhei para o telefone, sem acreditar.
A Duda tinha plantado a versão dela primeiro. Tudo o que eu dissesse só confirmava a história que ela tinha inventado. Desliguei frustrada. Naquela noite, fui a casa do Bruno e disse:
“Quero que comeces a dar corda à Duda.
”
“O quê? Ficaste louca? ”
“Eles não acreditam nas minhas palavras. Vão acreditar nos próprios olhos.
”
No dia seguinte, o Bruno respondeu à Duda. Passou a aceitar os elogios, a puxar conversa, a mandar áudio. Ela ficou em êxtase. Respondia em dez segundos, mandava fotografias, corações.
Achava que estava a vencer. Não percebia que estava a cair numa armadilha. Até que marcou um encontro. Chamou o Bruno para ir com ela ao bar da faculdade numa sexta-feira à noite.
Queria mostrar às colegas que conseguia sair com um homem bonito, mais velho, com emprego de verdade. Escolheu o próprio palco. Eu liguei aos meus pais. “Mãe, preciso que venham a São Paulo na sexta-feira.
”
“Para quê? ”
“Para verem com os próprios olhos o que a vossa filha faz longe de casa. Se eu estiver errada, peço desculpa de joelhos. Mas não avisem a Duda.
”
Eles vieram. Marcelo de cara fechada, minha mãe calada. Fomos para o bar. Encontrámos uma mesa ao fundo, onde se via tudo.
O bar estava cheio de jovens. A música alta, risadas, cerveja. Os meus pais olhavam à volta como se estivessem num planeta diferente. Então, eu apontei.
A Duda estava sentada ao lado do Bruno, com um vestido preto colado, curto ao ponto de ser impróprio. Maquiagem carregada, saltos altíssimos. Estava colada a ele, a tocar-lhe no braço, a rir alto. Na mão, um copo que não era sumo.
Minha mãe levou a mão à boca. Marcelo ficou vermelho, depois branco, depois vermelho outra vez. E foi então que a Duda se inclinou para o Bruno, sussurrou-lhe qualquer coisa e o mordeu na orelha. Eu segurei o braço do Marcelo antes de ele se levantar.
“O Bruno está ali porque eu pedi. Ela convidou-o para sair. Ele só aceitou para vocês a verem com estes olhos. ”
“Podes soltar o meu braço, Carolina.
Eu não vou fazer nada ao Bruno. ”
“Então o que é que vais fazer? ”
“Vou fazer à Duda. ”
Levantou-se e atravessou o bar como um touro.
Parou diante da mesa e gritou, no meio do silêncio que se tinha instalado:
“MARIA EDUARDA CRISTINA DA SILVA! ”
Toda a gente se virou. Até a música pareceu baixar. A Duda ficou branca, depois pálida.
O pai apontou-lhe o dedo. “O que é que estás a fazer aqui? Vestida assim, colada a esse homem, a beber? Eu e a tua mãe pagámos para vires estudar, para virares isto?
”
A Duda começou a gaguejar:
“Pai, não é o que parece… ”
“Eu estou a ver com os meus próprios olhos! Esse homem é namorado da tua irmã! E o Estevão?
Tu tens namorado! ”
Os colegas da faculdade estavam todos a filmar. Alguém gritou: “Ih, o papai chegou! ” Outro: “Duda, vai para casa, está na hora de dormir!
” As amigas que estavam com ela apanharam as malas e desapareceram. O Bruno levantou-se calmamente e veio sentar-se ao meu lado, como se tivesse acabado de chegar. Enquanto isso, a Duda chorava com o rímel a escorrer. O Marcelo tirou a camisa e atirou-lha aos ombros.
“Cobre-te. Vamos embora. ”
Puxou-a pelo braço. Ela tropeçou, tentou segurar as coisas, mas era tarde.
No meio da confusão, o álcool e o choro fizeram o efeito esperado. A Duda parou, curvou-se e vomitou por cima de um grupo de miúdos que estava sentado perto da porta. O bar inteiro explodiu em gargalhadas. Tudo filmado.
Eu ali sentada, com a minha água, o Bruno ao meu lado, e a sensação de que o filme tinha acabado. Não precisei de gritar, nem de brigar, nem de convencer ninguém. Só precisei de trazer as pessoas certas para o momento certo. Quando a confusão terminou, perguntei ao Bruno:
“Então, o que é que ela sussurrou no teu ouvido?
”
Ele riu. “Disse que queria ir para o meu apartamento e que me dava um presentinho. ”
“Que é que ela queria dar-te? ”
“Acho que não era um relógio.
”
Rimo-nos até chorar. A menina da igreja, a filha santa, oferecia-se ao namorado da irmã no primeiro encontro. Se hipocrisia fosse curso, a Duda tinha o doutoramento. No caminho para casa, recebi uma mensagem da minha mãe: “Estamos a ir buscar as coisas dela.
Leva-a hoje para o interior. ”
Quando cheguei ao apartamento, a Duda estava no sofá, com a camisa do pai, maquiagem destruída, olhos inchados. Minha mãe enfiava as roupas nas malas. Marcelo estava de braços cruzados.
A Duda olhou para mim com um ódio puro, daqueles que não precisam de palavras. Eu também não disse nada. Fechei a porta do quarto. Quando saíram, a minha mãe bateu à porta.
Estava com os olhos vermelhos. “Carolina, perdoa-me. Devia ter acreditado em ti. Eu chamei-te ciumenta, e tu só estavas a tentar abrir-me os olhos.
”
Abraçou-me e foi embora. A Duda nunca mais voltou a São Paulo. Ficou no interior, com os pais a controlarem cada passo. O celular era entregue às dez da noite, a mãe levava-a à faculdade, o pai ia buscá-la.
Era tratada como uma criança de doze anos. Talvez tenha sido por bem. Ou talvez tenha sido o castigo mais cruel que lhe podiam dar. O Estevão terminou com ela.
Alguém lhe enviou o vídeo do bar. Naquele dia, a Duda tinha-lhe dito que ia ficar em casa a trabalhar para a faculdade. Ele mandou o link e escreveu apenas: “Acabou. ”
O vídeo viralizou na faculdade.
Chamaram-lhe “a exorcista da moda”, por causa da cena do vómito. A Duda teve de mudar o corte e a cor do cabelo para não ser reconhecida. Um mês depois, ligou-me. Voz mansa, tom arrependido.
“Carol, queria pedir desculpa. Eu errei, aprendi a lição. ”
“Tá bem, Duda. Desculpo-te.
”
Silêncio. Depois:
“Então, já que me desculpaste, podes falar com a mãe para me deixarem sair? Diz que eu mudei, convence-a. Eles tratam-me como uma criança, tiro o telemóvel, não me deixam viver.
”
Aquele pedido de desculpa era falso. Ela não estava arrependida. Estava presa, e eu era a chave da gaiola. “Podia fazer isso, Duda.
Mas não vou. É para o teu bem. ”
A voz dela mudou no segundo seguinte. “Tu és uma feia ridícula.
Quando menos esperares, eu fico com o teu namorado. ”
Ri-me. “Boa sorte com isso, Duda. ”
Desliguei.
A vida continuou. Mudei-me para um estúdio pequeno, perto do trabalho. Mais caro, mas só meu. Sem colegas, sem irmã, sem ninguém a desfilar de cueca pela sala.
Valeu cada cêntimo. Meses depois, o Bruno pediu-me em casamento. Ajoelhou-se no restaurante, anel, tudo. Eu disse que sim, claro.
Vocês estavam à espera que ele fosse um traidor, não estavam? Que tivesse caído na lábia da minha irmã. Lamento desapontar-vos. Ainda há homens que prestam no mundo.
Homens que recebem fotografias de lingerie da cunhada e as mostram à namorada, em vez de as guardar na galeria. A Duda? Continuo a pensar se a devo convidar para o casamento. Talvez sim.
Mas se ela aparecer de vestido curto e tentar sussurrar qualquer coisa ao meu noivo, vai ver-se comigo. Desta vez, não haverá ninguém para a ir buscar.


