Disse-lhe que o amava, como fazia sempre, e ele não respondeu. Estávamos na cama, tínhamos acabado de ser íntimos, e aquele silêncio pesava mais do que qualquer palavra. Pensei que não tivesse ouvido. Segurei-lhe o rosto e repeti:
— Amo-te.

Ele abraçou-me, mas foi só isso. — Eu sei. Ouvi-te. Foste ótima.
Fiquei parada, à espera de mais. Ele não disse nada. — Então porque é que não me dizes de volta? Desviou o olhar.
— Porque já não sei se sinto o mesmo. Depois apagou a luz e adormeceu, como se não me tivesse acabado de partir o coração. Levantei-me, fui à casa de banho limpar-me e fiquei ali, no escuro, a tentar perceber se tinha acabado de perder o amor da minha vida. Não houve aviso, não houve discussão.
Ele nunca me tinha dado sinal de que já não me queria. Como é que alguém muda assim, de um dia para o outro? Na manhã seguinte, saiu cedo para o trabalho sem me dar hipótese de falar. A minha melhor amiga trabalhava no mesmo escritório, por isso pedi-lhe que ficasse de olho nele.
— Sem problema — disse ela. Horas depois, ligou-me. Ele tinha passado a manhã na sala de descanso, sozinho, a beber café. Ninguém se aproximou dele.
De repente, recebeu uma notificação no telemóvel, leu qualquer coisa e desapareceu na casa de banho. A minha amiga encostou o ouvido à porta e ouviu sons baixos. Escutou melhor e percebeu: ele estava a chorar. Soluços profundos, dolorosos.
Chegou a ouvi-lo cair no chão. Fiquei sem perceber nada. Nunca o tinha visto chorar daquela maneira. Decidi ser solidária.
Preparei o meu frango Alfredo e levei-lho ao trabalho com um bilhete: “Tu podes não sentir que me amas agora, mas és o amor da minha vida. Estarei sempre aqui para ti. ” Quando cheguei a casa, estava ele sentado no sofá. Tinha-se demitido.
Perguntei porquê, e recusou responder. Levantou-se, abraçou-me, pediu desculpa, tirou uma mala do armário e saiu. Gritei atrás dele, a perguntar para onde ia, mas ele entrou no carro e desapareceu. Foi a última vez que o vi.
Passou mais de um ano. Fiquei paralisada. Já lhe tinha contado que o meu pai me abandonara em criança, e agora ele tinha feito o mesmo. Todos os dias chorava ao telefone com a minha amiga, a perguntar porque é que ele tinha ido embora.
Ela prometeu ajudar-me a descobrir a verdade, mas primeiro tratou de me tirar da cama. Começámos a ir ao ginásio juntas. Andava na passadeira, levantava pesos, mas não perdia muito peso. Foi ela que sugeriu pílulas para controlar o apetite, combinadas com o exercício.
Perdi peso, ganhei confiança, e postei umas fotos no Instagram na melhor forma da minha vida. Não demorou até alguém comentar: “Ei, há quanto tempo. Todos os homens são iguais. ”
Fiquei a olhar para o ecrã.
Uma parte de mim queria ignorar. A outra estava exausta de chorar e de me questionar. Eu estava em forma, tinha propósito, e ainda assim sentia-me incompleta, a flutuar num vazio à espera que qualquer coisa me puxasse de volta à terra. Dias depois, recebi uma mensagem de um colega da faculdade, alguém com quem tinha perdido contacto.
— Olá. Há quanto tempo. Como estás? Hesitei, mas respondi.
A conversa fluiu, e ele foi direto:
— Vamos jantar esta semana? Senti uma mistura de surpresa e alívio. Um encontro. A chance de dar um passo em frente, de me sentir desejada.
Aceitei na hora. Mal desliguei, só queria contar à minha amiga. Estava tão entusiasmada que não mandei mensagem nem liguei. Peguei na bolsa e fui a casa dela a pé, mesmo sendo noite.
Já imaginava as duas a celebrar com uma garrafa de vinho, a rir da minha sorte. A porta abriu-se, e o sorriso congelou-me na cara. Era ele. O meu ex-namorado.
Em casa dela, vestido como se pertencesse ali. O ar fugiu-me dos pulmões. Tentei falar, mas as palavras não saíam. Ele ficou a olhar para mim com aquela expressão vazia que eu aprendera a odiar.
— O que é que estás a fazer aqui? — consegui finalmente, com a voz a tremer. Ouvi a voz dela ao fundo, antes que ele pudesse responder:
— Quem é, amor? Ela chamou-lhe amor.
O meu estômago revirou. Ela, a minha melhor amiga. Ele, o homem que desapareceu sem explicação. Estavam os dois à minha frente, imóveis, como se pudessem justificar o injustificável.
— Vocês estão juntos? — perguntei, com a raiva a apertar-me a garganta. — Não era para descobrires assim — ela murmurou, a evitar o meu olhar. — Já estavam juntos enquanto ele ainda estava comigo?
— Não é assim tão simples. Ele estava confuso… Dei uma risada amarga. — Confuso.
Foi por isso que ele foi embora sem dizer uma palavra e acabou nos teus braços. Ele olhou para o chão. Eu recuei, com o corpo todo a tremer. — Vocês merecem-se.
Entrei no carro e as lágrimas vieram. Conduzi sem rumo, com as ruas a passarem-me ao lado sem eu as ver. As duas pessoas em quem mais confiava tinham-me apunhalado pelas costas. Mas, entre soluços, percebi uma coisa: não ia deixá-los vencer.
Ia recompor-me. Desta vez, não seria para impressionar ninguém. Seria por mim. Nos dias seguintes, a dor transformou-se em raiva.
Comecei a planear tudo com calma. Para ela, plantei sementes de caos. Criei um perfil anónimo e enviei mensagens enigmáticas a conhecidos dela, com insinuações de que estava envolvida em coisas que não devia. Espalhei boatos subtis no círculo de amigos, pequenos rumores que com o tempo se tornaram um pesadelo.
Os comentários nas redes sociais ficaram mais ácidos, e até o trabalho dela esfriou. Para ele, fui mais pessoal. Ainda conhecia as senhas dele dos tempos em que partilhávamos tudo. Acedi aos e-mails, mudei datas de vencimento, cancelei assinaturas, alterei moradas.
Nada ilegal, apenas o suficiente para o fazer perder prazos e acumular multas. Quando percebeu, já era tarde. Ao longo de semanas, a pressão social dela e os problemas financeiros dele foram destruindo a relação dos dois. Eu sabia que não ia aguentar.
E não aguentou. No meio de tudo, lembrei-me de que tinha deixado o colega da faculdade à espera no restaurante na noite marcada. Envergonhada, mandei-lhe uma mensagem a pedir desculpa mil vezes. Para minha surpresa, respondeu com doçura:
— Não te preocupes.
Eu percebo. Queres tentar de novo no próximo fim de semana? Aceitei no momento. No dia do jantar, arranjei-me com mais cuidado do que nunca.
Estava nervosa, mas também animada. Ele recebeu-me com um sorriso caloroso que, pela primeira vez em meses, me fez esquecer a dor. O restaurante era acolhedor, o vinho excelente, e falámos de tudo: trabalho, hobbies, histórias da faculdade. A conversa fluía tão naturalmente que, por algumas horas, esqueci completamente o caos da minha vida.
Foi no meio do jantar que ele se inclinou na mesa e confessou, com um olhar sincero:
— Eu sempre fui apaixonado por ti na faculdade. Só nunca tive coragem de te dizer. O meu coração acelerou. Depois de tudo o que tinha passado, estava eu pronta?
Mas ele tinha uma leveza que me fazia esquecer as feridas. Quando o jantar acabou, não queria que acabasse. E começámos a ver-nos com frequência. Ele fazia-me rir como ninguém, e aos poucos fui-me permitindo ser feliz outra vez.
Enquanto isso, soube por amigos comuns que a relação do meu ex e da minha ex-melhor amiga tinha desmoronado de vez. As brigas, a pressão social, as dívidas: foi demais. Ele mudou-se da casa dela, e ela ficou sozinha, a tentar desesperadamente salvar a imagem. Não senti pena.
Mas também não quis deixar que aquilo ficasse apenas entre nós. Eles brincaram com a minha confiança, e precisavam de perceber que isso tem consequências. Reuni provas: mensagens antigas, fotos, prints de conversas, testemunhos indiretos de amigos comuns. Organizei tudo até ter a certeza de que ninguém duvidaria da história.
Depois criei um perfil anónimo, escrevi uma longa postagem a revelar a verdade e publiquei as provas no final. Expliquei como eles se envolveram enquanto eu ainda estava com ele, como ela me traiu pelas costas, como ele desapareceu sem explicação para ir viver com ela. A postagem viralizou em horas. Ela perdeu clientes e contratos importantes.
Ele foi despedido, com a justificação de que a imagem pessoal dos funcionários afeta a credibilidade da empresa. Amigos viraram-lhes as costas. A relação deles, que já estava frágil, acabou de vez. Ele mudou-se para um pequeno apartamento alugado.
Ela voltou para casa dos pais, com dívidas a acumularem-se. Eu, entretanto, seguia noutra direção. O rapaz que me tratou bem foi paciente e nunca me pressionou. Mostrou-me que era possível estar com alguém que me respeita.
Com o tempo, percebi que me tinha apaixonado por ele. Não uma paixão desesperada, mas qualquer coisa construída devagar, sobre confiança. Hoje estamos juntos, felizes. Quando olho para trás, vejo tudo aquilo como uma lição difícil, mas necessária.
Não sinto mais raiva. Sinto pena deles, que viveram numa mentira e pagaram caro por isso. Eu encontrei a felicidade a sério.
E essa é a maior vitória que podia ter.


