A minha própria filha disse-me isso no dia do meu aniversário, com um suspiro de impaciência. Não foi por carta, não foi por mensagem. Foi ao telefone, com um suspiro longo antes da frase, como quem expulsa o ar de uma conversa que já durava mais do que devia. Eu tinha telefonado às dez da manhã, não para cobrar parabéns, não para reclamar de nada, mas porque era o meu aniversário e eu achava que ela ia atender de outra maneira, que ia haver alguma coisa na voz dela, um calor, uma leveza, qualquer coisa que me dissesse que aquele dia também importava para ela.

Bárbara atendeu ao terceiro toque com a voz de reunião interrompida. Aquela cadência seca de quem está no meio de algo mais importante, e eu perguntei se ela estava bem. Ela disse que estava ocupada. Eu disse que tudo bem, que só queria ouvir a voz dela.
E foi aí que veio a frase, com o suspiro antes, aquele suspiro comprido que ela nem tentou disfarçar. — Mãe, para de cobrar carinho. Desliguei sem responder. Fiquei sentada no sofá da sala com o telefone no colo por um tempo que não sei medir.
Lá fora, Goiânia aquecia como aquece sempre em outubro, com aquele sol que não pede licença e não reconhece calendário. Dentro do apartamento estava frio do ar condicionado e quieto do jeito que fica quando se percebe de verdade que se esperou por algo que nunca vai chegar. Não naquele dia, não daquele jeito, não daquela pessoa. Eu tinha sessenta e quatro anos, era o meu aniversário, e a minha filha tinha-me dito para parar de cobrar carinho como quem manda uma criança parar de chorar na fila do mercado.
Mas antes de entenderes o que eu fiz depois, precisas de entender quem é essa filha e quem é o homem que ela escolheu, e o que os dois fizeram com tudo o que eu dei, sem pedir nada em troca. Bárbara tem trinta e nove anos. É gestora de marketing numa incorporadora imobiliária de médio porte no Setor Bueno, aqui em Goiânia. É inteligente, articulada, bonita de um jeito que faz as pessoas confiarem nela antes de ela abrir a boca.
Nas redes sociais, é a filha perfeita. No Dia das Mães, a legenda é sempre emocionante. Tem fotos dela quando era criança, tem textos sobre gratidão, tem comentários de amigas a dizer que ela é um amor de filha. Já li esse texto três vezes em três anos diferentes, com palavras diferentes, mas o mesmo significado vazio.
E cada vez que lia, perguntava-me se era eu que estava a ver mal, se era eu que exigia demais, se era eu que tinha algum problema que não conseguia ver. Não era eu. O Cassiano, marido dela, tem quarenta e quatro anos e é engenheiro civil independente. Se lhe perguntares como construiu a carreira, vai contar-te uma história de esforço, de cliente por cliente, de contrato por contrato.
É uma história bonita. O problema é que é uma história incompleta. O capítulo que ele deixa de fora começa com o apelido que ganhou quando se casou com a Bárbara e com a rede de trinta anos que esse apelido trouxe de brinde. Deixa-me explicar-te.
Eu trabalhei como corretora de imóveis em Goiânia durante trinta anos. Comecei quando a cidade ainda tinha outro ritmo, quando o Setor Marista era mais calmo, quando o mercado imobiliário local funcionava quase inteiramente na base da confiança pessoal, do nome, do aperto de mão. Construí uma rede que levou décadas a existir. Conheço os donos das incorporadoras, os engenheiros que viraram empresários, os advogados que fazem os contratos, os notários que registam as escrituras.
Não porque sou especial, mas porque apareci sempre, cumpri o que prometi e nunca precisei de uma segunda oportunidade para provar que era de confiança. Em trinta anos de mercado, a minha palavra era garantia. O meu nome era referência. Era isso.
O Cassiano entrou nessa rede pelo casamento. Em onze anos, nunca contei as vezes que abri portas para ele. Nunca fiz contas do que cada apresentação valia. Era genro, era família.
Quando ele me ligava a pedir que o apresentasse a um incorporador, eu ligava. Quando um contrato dele estava travado e eu conhecia alguém que podia destravar, eu ligava. Quando ele precisava que o meu nome entrasse numa conversa para que a porta se abrisse, eu dava o nome, sem pensar, sem cobrar, sem esperar nada além do que qualquer sogra esperaria: que tratasse a minha filha bem, que aparecessem no meu aniversário, que me incluíssem na vida deles de alguma forma que não fosse só quando precisavam de algo. Em cinco anos consecutivos, o meu aniversário passou sem visita, sem jantar combinado, sem ligação que não fosse eu a iniciar.
No ano anterior ao que te estou a contar agora, a Bárbara tinha publicado uma foto das férias dela e do Cassiano em Caldas Novas no próprio dia do meu aniversário. Soube pelo Instagram, como toda a gente. Dei um coração na foto porque sou a mãe dela e não sabia o que mais fazer com o que estava a sentir. E então, naquele outubro, ela disse-me para parar de cobrar carinho.
Algo dentro de mim terminou naquele momento. Não foi raiva, não foi mágoa, foi uma espécie de clareza fria que chegou de vez, como quando se olha para uma conta que nos está a cobrar há anos e finalmente se entende que não vai ser paga de boa vontade. Naquele mesmo fim de tarde, liguei para a Neusa. A Neusa tem sessenta e sete anos, é corretora sénior, foi minha sócia durante vinte e três anos.
Se existe alguém nesta cidade que conhece cada contrato que passou pelo meu nome, cada cliente que indiquei, cada porta que abri, essa pessoa é a Neusa. Liguei e contei o que tinha acontecido. Ela ficou em silêncio por um segundo, só um segundo, e disse:
— Iolanda, a gente precisava de ter esta conversa há muito tempo. Conversei com ela durante quarenta minutos.
Depois liguei para o meu advogado de confiança, o Dr. Valmir, e pedi horário para o dia seguinte. Antes de dormir, liguei para o Rodrigo, o meu sobrinho de vinte e sete anos, que mora em Brasília, e que naquele dia, às zero horas em ponto, me tinha enviado um áudio de dois minutos a cantar parabéns fora do tom, com tanto carinho que eu tinha ouvido três vezes antes de guardar o telemóvel. Ele atendeu na segunda chamada e ficou na linha comigo durante quase uma hora.
Não falou muito, só ouviu, como sempre faz. Quando desliguei, senti-me menos sozinha do que me tinha sentido o dia inteiro. Antes de dormir, escrevi duas cartas. Uma para a Bárbara, uma para o Cassiano.
Redigidas com cuidado, sem ameaça, sem acusação, com linguagem notarial, direta, registada. Enviei por correio registado com aviso de receção, com carimbo do notário que eu mesma escolhi. Registadas, como se registra qualquer documento que se sabe que vai importar um dia. Quando abriram os envelopes, não me ligaram para dar os parabéns atrasados.
Ligaram-me apavorados. E foi aí que a história começou de verdade. Porque em trinta anos de mercado imobiliário em Goiânia, eu aprendi uma coisa que nenhuma escola de negócios ensina. O maior ativo que uma pessoa pode ter não é dinheiro, não é propriedade, não é cargo, é reputação.
E eu tinha passado onze anos a emprestar a minha de graça a alguém que nunca teve a elegância de reconhecer o empréstimo. Estava na hora de fazer a cobrança. Mas antes de te contar o que fiz com aquelas duas cartas, preciso de te perguntar uma coisa. Se fosses tu, depois de cinco anos a ser ignorada pela própria filha, depois de sustentar a carreira do genro durante onze anos sem receber nenhum obrigado, terias esperado mais ou terias feito exatamente o que eu fiz?
Na manhã seguinte ao meu aniversário, acordei às sete. O Setor Marista estava com aquele silêncio de manhã cedo de semana que eu gosto, antes de o trânsito da Avenida T-2 começar a engrossar. Tomei café com o seu Décio na varanda do corredor, como faço todas as semanas desde que ele ficou viúvo há três anos. O seu Décio tem setenta e um anos, é síndico do condomínio A-6 e, em quinze anos de vizinhança de andar, tornou-se uma das pessoas mais constantes da minha vida, sem que nunca tivéssemos precisado de dar nome a isso.
Contei-lhe o que tinha acontecido. Contei-lhe o que tinha decidido. Ele ouviu-me com as mãos à volta do copo de café, sem interromper, sem o tipo de conselho precipitado que as pessoas dão quando estão desconfortáveis com o silêncio. Quando terminei, ele ficou um instante a olhar para o corredor e disse apenas:
— Já era tempo, Iolanda.
Às nove da manhã estava no escritório do Dr. Valmir. O Dr. Valmir tem cinquenta e oito anos, é especializado em contratos civis e direito empresarial e acompanha-me há vinte e um anos.
Conhece a minha história profissional melhor do que eu mesma em alguns aspetos, porque passou anos a rever os meus contratos de corretagem, as minhas sociedades, as minhas rescisões. Quando cheguei ao escritório dele naquela manhã, sentei-me na cadeira de couro que conheço desde os anos 2000 e disse que queria listar tudo. Tudo o que eu tinha feito pelo Cassiano, tudo o que eu tinha dado sem cobrar. O Dr.
Valmir pegou no bloco de notas, cruzou as mãos e disse:
— Pode começar. Listei de memória. As primeiras indicações que vieram logo depois do casamento deles, quando o Cassiano ainda estava a construir a carteira de clientes próprios e o apelido novo ainda cheirava a tinta fresca. As apresentações que fiz pessoalmente em almoços do setor, em eventos de incorporadoras, em reuniões onde eu entrava como Iolanda, a corretora, e saía com o nome do Cassiano instalado na conversa como se ele fosse extensão natural do meu trabalho.
Os telefonemas que fiz para cartórios, para engenheiros de incorporadoras, para diretores comerciais que me deviam favores e me respeitavam o suficiente para atender o genro sem fazer muitas perguntas. O Dr. Valmir anotou tudo sem comentário até eu terminar. Então disse:
— Agora precisamos de prova documental.
Foi aí que chamei a Neusa. Ela chegou ao escritório do Dr. Valmir naquela mesma tarde com uma pasta de plástico verde que eu nunca tinha visto antes e que se revelou uma das coisas mais importantes da minha vida. A Neusa é desse tipo de pessoa: organizada por natureza, desconfiada por experiência e com o hábito de guardar cópia de tudo desde o começo da carreira, nos anos oitenta.
Abriu a pasta em cima da mesa do Dr. Valmir e começou a mostrar registos de indicação, contratos fechados, histórico de clientes. O nome do Cassiano aparecia em onze contratos fechados entre 2015 e 2023. Em sete desses onze contratos, a origem da indicação era diretamente rastreável até mim ou até a Neusa, por meu intermédio.
Nome do cliente, data de contacto inicial, origem da indicação, valor do contrato, comissão recebida. Tudo com data, tudo com nome, tudo com número. O Dr. Valmir passou vinte minutos com os documentos antes de falar.
Quando falou, foi direto. — O valor total das comissões que o Cassiano recebeu nesses contratos soma mais de duzentos e trinta mil reais em oito anos. Ele nunca pagou comissão de indicação, nunca foi cobrado. Era genro, era família.
Fiquei a olhar para aquele número por um momento. Duzentos e trinta mil reais. Não era o dinheiro que doía, porque eu nunca tinha cobrado esperando receber. O que doía era a dimensão de tudo o que eu tinha dado, sem que nenhuma das duas pessoas que mais deviam reconhecer isso tivessem dito, em algum momento, nem uma única vez, obrigado.
O Dr. Valmir explicou-me o que era possível fazer. Não havia contrato formal de indicação, portanto uma ação de cobrança simples teria dificuldades. Mas havia algo muito mais eficiente do que qualquer processo.
A reputação no mercado imobiliário de Goiânia é construída por relacionamento, e relacionamento sustenta-se por reciprocidade. O que eu tinha feito durante anos era sustentar a carreira do Cassiano com o meu capital social, sem nenhuma contrapartida. O que eu podia fazer agora era simplesmente parar. E formalizar essa paragem de maneira que ficasse registada.
Para a Bárbara, havia um instrumento mais direto ainda. Em 2018, ela tinha precisado de setenta e dois mil reais para reformar o apartamento onde mora com o Cassiano, no Setor Bueno. Veio até mim porque não queria aparecer no banco com esse pedido. Não queria parcelamento, não queria juros.
Eu tinha a reserva. Transferi em três vezes, ao longo de dois meses, porque ela foi pedindo conforme as etapas da obra avançavam. Eu tinha todos os comprovantes de transferência bancária guardados. O Dr.
Valmir na época tinha-me recomendado formalizar o empréstimo em contrato. Eu recusei. Disse-lhe que era a minha filha, que papel entre mãe e filha era falta de confiança, que eu não precisava disso. Ele registou a recomendação por escrito, não insistiu e arquivou.
Agora, sentada à frente dele com os comprovantes na bolsa, fui eu que trouxe esse arquivo de volta. Os recibos de transferência, combinados com a ausência de qualquer registo de devolução, eram suficientes para sustentar o reconhecimento da dívida. O Dr. Valmir foi claro: não era garantia absoluta, mas era um conjunto de evidências que dificilmente seria ignorado numa conversa séria.
As cartas foram redigidas com precisão cirúrgica. A carta para o Cassiano comunicava formalmente, com linguagem notarial, que a partir daquela data eu rescindia qualquer relação de indicação informal com ele, que não me responsabilizaria por contratos em andamento que usassem o meu nome como referência e que solicitava que o meu nome fosse removido de qualquer apresentação profissional junto de clientes ou parceiros. A carta para a Bárbara comunicava que eu estava a rever as condições do empréstimo de setenta e dois mil reais realizado em 2018 e que solicitava o início de uma conversa para formalizar um plano de devolução. Simples, diretas, sem ameaça, sem acusação, sem uma palavra a mais do que o necessário.
Foram enviadas por correio registado com aviso de receção na quinta-feira. Eles receberam em casa. Eu não precisei de imaginar as expressões deles quando abriram os envelopes. A ligação da Bárbara às dezoito horas daquela quinta-feira descreveu tudo.
A voz tinha uma textura que eu nunca tinha ouvido nela antes. Não era a cadência de reunião interrompida, não era o suspiro de impaciência. Era medo. Medo de verdade, com um tremor nas bordas das palavras que ela tentava controlar e não conseguia completamente.
Disse que eu não podia fazer aquilo, que era uma crueldade, que ela tinha uma vida, que o Cassiano dependia dessas ligações para trabalhar. Eu disse:
— Eu sei, Bárbara. Eu sei disso melhor do que ninguém. E desliguei.
O Cassiano não me ligou. Mandou-me mensagem às vinte e duas horas, dizendo que eu estava a ser injusta e que íamos resolver aquilo como adultos. Li a mensagem, guardei o telemóvel na mesa de cabeceira e dormi bem pela primeira vez em muito tempo. Não o sono inquieto de quem remói algo, mas o sono fundo de quem tomou uma decisão que estava atrasada há anos e finalmente parou de a carregar no peito.
Três semanas depois das cartas, o primeiro efeito chegou sem barulho, do jeito que as coisas importantes costumam chegar. Um incorporador com quem o Cassiano estava a negociar um contrato de supervisão de obra ligou para a Neusa, como sempre fazia antes de fechar qualquer coisa com alguém novo, para confirmar a referência. Era prática no setor. A Neusa fez o que qualquer pessoa honesta faria.
Disse a verdade: que não podia mais avaliar o trabalho do Cassiano porque a relação profissional com ele tinha sido encerrada. Sem má palavra, sem acusação, só a ausência da confirmação que o incorporador esperava ouvir. O contrato não foi assinado. Foi esse contrato perdido que trouxe a Bárbara até à minha porta.
Ela trabalha em incorporadora, conhece o setor, sabia exatamente o que significava o Cassiano perder a referência principal num mercado tão baseado em confiança pessoal como o de Goiânia. Na tarde do sábado seguinte, sem aviso, apareceu no meu interfone. Eu deixei-a entrar. Sentou-se na cadeira da cozinha, a mesma cadeira onde se sentava quando era adolescente e eu fazia almoço de domingo com frango com pequi.
Tentou a versão madura da conversa. Que eu tinha de entender que os adultos têm vida, que não é possível estar presente em tudo, que ela me amava, mas o relacionamento deles era diferente do que eu esperava, que eu precisava de respeitar os limites dela. Cada frase era construída com cuidado para não assumir nada, não reconhecer nada, não ceder nada. Eu ouvi tudo, servi água.
E quando ela terminou, perguntei em que ano ela se tinha lembrado do meu aniversário por iniciativa própria pela última vez. Não como cobrança, como pergunta, com voz tranquila, olhando para ela da cadeira da frente. Ela não respondeu. O silêncio que ficou entre nós naquele momento dizia mais do que qualquer argumento que ela pudesse ter formulado.
Mas o que veio depois eu não esperava. Dois dias depois da visita dela, recebi uma ligação da mãe do Cassiano. Uma senhora que eu mal conhecia, a chamar-me de ressentida, de mulher amargurada, que não aceitava que a filha tivesse a própria vida, que eu estava a destruir o casamento da Bárbara por ciúme. A palavra ciúme ficou no ar depois que ela desligou, como alguma coisa suja que alguém atira e vai embora sem olhar para trás.
Fiquei um momento em silêncio com o telefone ainda na mão. Então liguei para o Dr. Valmir e disse que queria acelerar a formalização da cobrança do empréstimo. Ele orientou-me que o caminho correto era notificar a Bárbara formalmente, concedendo prazo de trinta dias para manifestação sobre o plano de pagamento antes de qualquer medida judicial.
A notificação foi emitida e entregue. Mas enquanto eu preparava o próximo passo, eles já estavam a preparar o deles. E o que veio em seguida foi o movimento mais baixo de toda esta história. O tipo de coisa que só se faz quando se perderam os argumentos e se decide tentar sujar o chão para que a outra pessoa escorregue.
A Bárbara foi até à minha médica de família. Disse que estava preocupada com a minha saúde emocional. Disse que eu estava a tomar decisões erráticas, que o meu divórcio de dezoito anos atrás me tinha deixado com sequelas que nunca foram tratadas. Estava a tentar construir uma narrativa de instabilidade à minha volta.
Uma narrativa que, se fosse aceite, poderia lançar dúvida sobre cada decisão que eu tinha tomado, cada documento que eu tinha assinado, cada ação que eu estava prestes a executar. Quando a minha médica me ligou para perguntar se eu queria marcar uma consulta de rotina, entendi imediatamente o que estava a acontecer. Não foi raiva, foi uma frieza que se instalou no centro do meu peito como gelo seco. A minha filha, a menina que eu criei, que eu vesti, a quem eu paguei a faculdade, estava a tentar tirar-me de campo usando um laudo médico como arma.
Fui à consulta voluntariamente, com agenda marcada, sem pressa, com a bolsa arrumada e o cabelo feito. A minha médica conhece-me há doze anos. Conversámos durante uma hora sobre os factos, sobre as decisões, sobre os meses anteriores. No final, ela disse o que eu sabia: que eu estava lúcida, coerente dentro de todos os parâmetros e que as decisões que eu estava a tomar eram legítimas e racionais.
Saí do consultório com o relatório de saúde na bolsa. Guardei esse relatório ao lado dos comprovantes de transferência e dos registos de indicação da Neusa. A pasta estava a ficar mais grossa. E eu ainda não tinha chegado à parte mais importante.
Liguei para a dona Perpétua naquela noite. A dona Perpétua tem setenta anos. Foi minha cliente durante duas décadas. Primeiro como compradora de um apartamento no Setor Bueno que eu vendi em 2002, depois como investidora em outros dois imóveis ao longo dos anos.
Com o tempo, a relação de cliente e corretora foi virando outra coisa, com a lentidão das amizades que duram porque são construídas sobre coisas reais. Ela conhece pessoalmente os principais incorporadores de Goiânia, frequenta os mesmos círculos que os sócios da empresa onde a Bárbara trabalha e tem uma credibilidade construída em décadas de presença discreta e confiável no setor imobiliário da cidade. Contei-lhe tudo, do aniversário ao relatório médico. Ela ouviu sem interromper e, quando terminei, ficou em silêncio por um momento antes de perguntar:
— Iolanda, disseste-me que o Cassiano usa o teu nome nas apresentações dele até hoje?
Disse que sim, que mesmo depois da notificação formal, pelo que tinha chegado aos meus ouvidos, ele continuava a mencionar-me como referência ativa. Ela disse:
— Então vou fazer algumas perguntas discretas. A dona Perpétua não faz as coisas pela metade. Em duas semanas, tinha resultados que eu não esperava que fossem tão documentados.
O que ela descobriu foi simples na descrição e devastador na implicação. O Cassiano continuava a usar o meu nome como referência ativa em apresentações para novos clientes, mesmo depois de ter recebido a notificação formal de rescisão. Em pelo menos duas reuniões recentes com incorporadores da cidade, tinha-me citado como parceira de longa data, dando a entender que a indicação ainda estava vigente, que eu ainda estava por trás dele, que o meu nome ainda era garantia do trabalho dele. Mas o que a dona Perpétua trouxe, que transformou tudo, foi um documento.
Um dos incorporadores que ela contactou discretamente, uma pessoa que me conhecia desde os anos noventa e que tinha recebido uma proposta formal do Cassiano semanas antes, entregou-lhe o documento completo. Era uma apresentação do escritório do Cassiano, com layout profissional, identificação do serviço, histórico de projetos e, ali, no meio do documento, o meu nome grafado como parceira estratégica, com descrição de projetos que tínhamos supostamente desenvolvido juntos. Era mentira. Era uma distorção deliberada, documentada em papel timbrado, com o objetivo de capturar contratos usando uma credencial que já não era dele.
E mais do que isso: era uma credencial que nunca tinha sido formalmente dele para começar. Tinha sido emprestada, e o empréstimo tinha sido encerrado por notificação notarial. Quando a dona Perpétua me entregou o documento, fiquei a olhar para o meu nome impresso naquele papel por um longo momento. Sentei no sofá do meu apartamento com o documento nas mãos e senti algo que era mais profundo do que raiva.
Era a confirmação final de tudo o que eu tinha estado a tentar não acreditar durante anos: que o Cassiano não era apenas alguém que usava o que eu dava sem agradecer. Era alguém que, quando o acesso foi encerrado, simplesmente continuou a usar, agora de forma clandestina, como se a minha reputação fosse um bem que ele tinha adquirido pelo casamento e que nenhuma notificação podia recuperar. Liguei para o Dr. Valmir no mesmo dia.
Ele ouviu com atenção e depois pediu que eu enviasse o documento por foto imediatamente. Analisou-o ao longo da tarde e ligou-me antes das seis com o enquadramento. Uso indevido de nome para fins comerciais, sem autorização, com possibilidade de responsabilização civil. Não era processo penal, mas era uma exposição jurídica real que poderia resultar em ação de indenização por parte dos clientes que se sentissem induzidos em erro, além de ação de indenização movida diretamente por mim pelos danos à minha reputação.
A Neusa começou a compilar as evidências naquela mesma semana. O documento formal da proposta do Cassiano, com o meu nome grafado como parceira estratégica. Dois e-mails de incorporadores enviados com data, confirmando que ele se tinha referido a mim como referência ativa em reuniões recentes. Os onze contratos rastreados com as origens de indicação documentadas.
Os comprovantes bancários do empréstimo de setenta e dois mil reais, sem registo de devolução. O relatório médico que atestava a minha plena lucidez. A notificação notarial que comprovava que ele tinha sido formalmente informado da rescisão antes de continuar a usar o meu nome. Cada peça reforçava as outras.
Era um conjunto probatório que o Dr. Valmir descreveu, na reunião que tivemos na semana seguinte, como sólido o suficiente para avançar. O prazo de quinze dias que constava na notificação extrajudicial ao Cassiano venceu sem resposta. Sem uma palavra, sem uma proposta de composição, sem um contacto do advogado dele, sem nada.
O Dr. Valmir disse-me que essa inércia era, para fins jurídicos, a melhor coisa que podia ter acontecido. Deu-lhe o argumento para avançar sem que eu parecesse a parte agressora. Foi então que o Dr.
Valmir enviou a segunda notificação. Esta era diferente da primeira. Comunicava a existência das evidências documentais, descrevia o enquadramento jurídico do uso indevido de nome, informava formalmente a abertura de prazo para composição antes do ajuizamento de ação civil. Era uma notificação que qualquer advogado sabe que precede uma ação real.
Não era bluff. Desta vez, o Cassiano respondeu em quarenta e oito horas. Não foi ele quem respondeu, foi o advogado que contratou às pressas. A resposta era fria, técnica.
Tentava minimizar a extensão do que os documentos mostravam. O Dr. Valmir leu, arquivou a resposta e ligou-me para dizer que o caminho estava aberto para a reunião final. Mas antes da reunião final, aconteceu algo que ninguém esperava.
O Cassiano, que tinha ficado em silêncio durante semanas, aparentemente convencido pelo advogado de que poderia minimizar, decidiu dar um passo que revelou o quanto ainda não entendia com o que estava a lidar. Entrou em contacto com dois dos incorporadores que estavam na lista de indicações da Neusa, aqueles que ele sabia que tinham um histórico de relacionamento comigo, e tentou uma versão da história em que eu era a parte irrazoável, a sogra ressentida, a mulher que estava a tentar destruir a carreira do genro por motivos pessoais. O que ele não sabia era que a dona Perpétua frequentava o almoço mensal com um dos sócios da empresa onde a Bárbara trabalha, e que o mercado imobiliário de Goiânia, apesar de grande em número de transações, é pequeno em termos de quem conhece quem e quem fala com quem. A versão do Cassiano chegou de volta para mim em quarenta e oito horas.
E chegou junto com algo que ele não tinha calculado: a reação dos incorporadores. Dois deles ligaram-me pessoalmente. Não para tomar partido, mas para confirmar que a relação com ele estava encerrada da minha parte antes de tomar qualquer decisão de parceria com ele. O simples facto de terem ligado para mim primeiro, antes de responder ao Cassiano, dizia tudo o que precisava de ser dito sobre onde a credibilidade estava.
Liguei para o Rodrigo naquela noite. Ele atendeu à primeira chamada. Como sempre, contei o que estava a acontecer, do documento da dona Perpétua à tentativa do Cassiano de reescrever a narrativa no mercado. O Rodrigo ouviu com atenção, fez duas perguntas objetivas e então disse:
— Tia, eu vou estar lá para a reunião, se quiseres.
Eu queria. A reunião foi marcada para uma tarde de quarta-feira no escritório do Dr. Valmir, no Setor Oeste. Sala de reunião com mesa oval, quatro cadeiras de cada lado, uma janela voltada para o corredor de árvores do bairro.
O Cassiano chegou com o advogado dele, um homem de fato cinzento, que entrou já com a expressão de quem vai tentar reduzir o tamanho do que está na mesa. A Bárbara veio junto, desta vez sem o guião decorado que tinha usado na cozinha da minha casa. O Rodrigo ficou na cadeira ao lado da minha, com as mãos fechadas sobre a mesa, em silêncio. O Dr.
Valmir não perdeu tempo. Abriu a pasta e começou a ler os documentos em ordem. Primeiro, o documento de apresentação do escritório do Cassiano com o meu nome grafado como parceira estratégica. Colocou-o na mesa, virado para o lado deles para que lessem.
O advogado do Cassiano tentou dizer que era material desatualizado. O Dr. Valmir virou para a página seguinte. Os dois e-mails datados dos incorporadores, confirmando que o Cassiano me tinha citado como referência ativa em reuniões realizadas depois da notificação notarial de rescisão.
Datas, nomes, confirmações por escrito. O advogado do Cassiano ficou em silêncio. O Dr. Valmir continuou.
Os comprovantes bancários das três transferências do empréstimo de setenta e dois mil reais, realizadas entre fevereiro e abril de 2018. Cada transferência com data, valor, identificação. A ausência de qualquer registo de devolução em seis anos. A notificação formal enviada à Bárbara com prazo de trinta dias para manifestação, sem resposta.
O reconhecimento em lei de que transferências documentadas sem contrapartida registada estabelecem presunção de dívida. A Bárbara olhou para a mesa quando o Dr. Valmir chegou a essa parte. Não para mim, para a mesa.
Os dedos entrelaçados sobre o colo, a expressão controlada. Mas as mãos contavam outra história. O Dr. Valmir foi para a página seguinte.
A compilação da Neusa. Onze contratos. 2015 a 2023. Sete com origem de indicação rastreável diretamente até mim.
Valor total das comissões recebidas: duzentos e trinta e quatro mil reais. Registo da notificação de rescisão de indicação enviada ao Cassiano. Registo da ausência de resposta dentro do prazo. O advogado do Cassiano pediu uma pausa.
O Dr. Valmir disse que podia conceder cinco minutos. Foram dez. Quando voltaram, o advogado tinha um argumento: que as indicações eram atos voluntários meus, que nunca houve acordo formal de comissão, que, portanto, não havia obrigação de pagamento.
O Dr. Valmir disse que concordava com o enquadramento estrito da cobrança de comissão. E então virou para a última folha da pasta. A ação de uso indevido de nome, que não dependia de nenhum acordo prévio, que dependia apenas de provar que o meu nome foi usado comercialmente, sem a minha autorização, depois de notificação formal de rescisão, e que essa prova estava na mesa na forma de documento físico com o meu nome impresso e dois e-mails datados de incorporadores.
O advogado do Cassiano não respondeu ao argumento. Então o Dr. Valmir disse, com a tranquilidade de quem está a ler o placar de um jogo que já acabou:
— O que a minha cliente propõe é a composição. Assinatura hoje de dois instrumentos.
Primeiro, termo de compromisso do Cassiano Ferreira de cessar imediatamente o uso do nome de Iolanda em qualquer apresentação profissional, com cláusula de indenização para cada uso posterior comprovado. Segundo, reconhecimento formal por parte de Bárbara da dívida de setenta e dois mil reais, com plano de pagamento em parcelas mensais ao longo de três anos. O advogado do Cassiano pediu para conversar com o cliente em particular. Foram para o corredor.
Ficaram seis minutos. Quando voltaram, o Cassiano sentou com a expressão de quem mastigou algo amargo e decidiu engolir, porque a alternativa era pior. A Bárbara sentou sem olhar para mim. O Dr.
Valmir colocou os dois termos na mesa. O Cassiano pegou na caneta primeiro. Assinou o termo de compromisso sem ler em voz alta. O advogado fez uma anotação no próprio bloco.
A Bárbara pegou na caneta depois e assinou o reconhecimento da dívida com o plano de pagamento em três anos. Não houve grito, não houve choro. Houve papel, caneta e o silêncio de quem entende que perdeu. O Dr.
Valmir recolheu os documentos assinados, fechou a pasta e disse que os instrumentos seriam registados em cartório no dia seguinte. Depois olhou para os dois do outro lado da mesa e disse, com a neutralidade de quem não precisa de dizer mais nada:
— A reunião está encerrada. O Cassiano saiu primeiro com o advogado. A Bárbara saiu logo atrás, sem olhar para a cadeira onde eu estava sentada.
O Rodrigo esperou que o elevador fechasse antes de falar. Quando falou, disse apenas:
— Acabou, tia. Mas ainda não tinha acabado de verdade. Porque quem perde dessa forma nem sempre aceita que perdeu.
Passaram dez dias depois da reunião. Eu estava a recomeçar a respirar. As conversas com a Neusa sobre o projeto de orientação para jovens corretoras estavam a avançar. A dona Perpétua tinha-me chamado para um almoço do setor que eu não frequentava há anos.
O seu Décio tinha-me convidado para a festa junina do condomínio. As coisas estavam a reorganizar-se com a calma de quem saiu de uma crise e está a reconhecer o território ao redor. Foi nesse momento que o Cassiano decidiu que não tinha perdido o suficiente. Recebi uma ligação do Rodrigo na tarde de uma sexta-feira.
Ele estava em Brasília, com a voz diferente, com aquela contenção de quem está a contar algo difícil e a tentar calibrar a dose certa de urgência para não assustar. Disse que tinha recebido uma mensagem de um conhecido em Goiânia, alguém que frequentava os mesmos círculos que o Cassiano, dizendo que havia uma narrativa a circular de forma deliberada: que eu estava com problemas de saúde que afetavam o meu julgamento, que as decisões que eu tinha tomado eram produto de um estado emocional instável e que os documentos que eu tinha apresentado na reunião tinham sido manipulados pela Neusa por interesse pessoal dela. Parei. Ouvi até ao fim.
Fiquei em silêncio por um momento e disse:
— Rodrigo, obrigada por me contares. Desliguei e liguei imediatamente para o Dr. Valmir. A situação era a seguinte.
O Cassiano tinha assinado um termo de compromisso. Havia um instrumento legal em vigor. A campanha que ele estava a conduzir nas bordas do mercado não configurava, em si mesma, descumprimento do termo assinado, porque o termo tratava especificamente do uso do meu nome em apresentações profissionais formais. Mas o que ele estava a fazer causava dano à minha reputação de outra forma.
Mais difusa, mais difícil de documentar e mais perigosa. Justamente por isso. O Dr. Valmir pediu-me tempo para pensar no melhor instrumento.
Mas naquela noite, antes de o Dr. Valmir me ligar de volta, a Bárbara ligou-me. Era a voz de sempre, a cadência de reunião interrompida, mas com uma camada por baixo que reconheci imediatamente como medo. Disse que eu estava a exagerar, que o Cassiano estava destruído profissionalmente e que eu tinha de entender que ele estava desesperado, que pessoas desesperadas fazem coisas que não fariam noutros momentos e que eu precisava de ter compaixão.
Fiquei em silêncio até ela terminar. Então disse:
— Bárbara, quando me disseste para parar de cobrar carinho no meu aniversário, tu estavas desesperada? Ela ficou em silêncio. — Porque às dez da manhã de um dia que era meu, depois de cinco anos sem apareceres, sem ligares por iniciativa própria, sem um jantar, disseste-me isso com um suspiro.
Sem desespero nenhum. Com muita calma. Ela disse que não era a mesma coisa. Eu disse que sabia.
E desliguei. Mas não dormi bem naquela noite. Não dormi bem porque sabia que a narrativa que o Cassiano estava a pôr em circulação, por mais infundada que fosse, tinha o potencial de contaminar relacionamentos que eu tinha construído em décadas. Em Goiânia, no mercado imobiliário, reputação não é só o que está nos documentos.
É o que circula nos corredores, nos almoços, nas mensagens de WhatsApp, entre pessoas que se conhecem há trinta anos. E o Cassiano sabia disso. Estava a usar exatamente o instrumento que eu não conseguia processar judicialmente com facilidade: o boato. Na segunda-feira seguinte, marquei reunião com o Dr.
Valmir e com a Neusa ao mesmo tempo. Foi nessa reunião que a Neusa colocou na mesa algo que eu não sabia que ela tinha. Ela tinha guardada desde 2016 uma gravação em áudio de uma reunião de alinhamento que fizemos com o Cassiano quando ele estava a fechar o maior contrato da carreira dele na época: uma supervisão de obra no Jardim Goiás que valia uma comissão próxima de quarenta mil reais. Nessa reunião, que aconteceu na corretora da Neusa, com ela, comigo e com o Cassiano, ele tinha dito explicitamente, com aquela clareza de quem ainda não tinha a carteira de clientes para fingir independência, que sem o nome de Iolanda na conversa, esse contrato não existia.
Que o cliente só tinha aceitado a reunião por causa da referência minha. E que ele sabia que devia essa oportunidade a mim. Palavras dele, voz dele. Data documentada.
A Neusa tinha guardado porque, como ela mesma disse naquela reunião, era desse tipo de pessoa. O Dr. Valmir ouviu o áudio duas vezes. Depois ficou em silêncio por um momento e disse:
— Isto muda a análise.
Com o áudio, havia um elemento novo na equação. Não era apenas documentação de indicações. Era o próprio Cassiano a reconhecer, em palavras, a dependência que ele passara anos a negar em público e que agora estava a tentar reescrever na narrativa que circulava no mercado. Se esse áudio fosse usado no instrumento certo, no momento certo, encerrava qualquer argumento que ele ainda tentasse apresentar.
O Dr. Valmir explicou-me o instrumento. Uma notificação extrajudicial adicional. Direcionada não ao Cassiano, mas aos incorporadores que faziam parte da rede.
Informando formalmente o encerramento da parceria e, de forma resumida, a existência de documentação que sustentava essa posição. Não era uma ação judicial. Era uma notificação de posicionamento legal e precisa, que chegaria às mesmas pessoas que o Cassiano estava a tentar alcançar com o boato antes de o boato fazer mais estragos. Era a opção nuclear que eu tinha guardado sem saber que guardava.
Autorizei o envio. A notificação extrajudicial foi um documento de duas páginas, redigido pelo Dr. Valmir, com a precisão de quem sabe que cada palavra vai ser lida por pessoas que entendem de contratos. Ia para doze incorporadores, todos com histórico de relacionamento comigo, todos com histórico de algum contacto com o Cassiano ao longo dos anos.
Informava o encerramento formal da parceria, a existência de instrumento assinado em reunião com data e a disponibilidade para confirmar a posição diretamente caso houvesse dúvidas. Sem acusação, sem narrativa. Só a formalidade fria de quem tem documentos e não precisa de versão colorida. A Neusa enviou junto uma nota pessoal curta para cada um dos doze.
Não era parte do instrumento jurídico. Era simplesmente ela, corretora de sessenta e sete anos, que eles todos conheciam, a dizer que confirmava as informações e estava disponível para a conversa. A nota pessoal da Neusa valeu mais do que metade de um advogado. Dois dias depois do envio, o advogado do Cassiano ligou para o Dr.
Valmir. A conversa foi breve, do jeito que as conversas são quando a parte que liga sabe que está a ligar de uma posição fraca. O advogado disse que o Cassiano estava disposto a encerrar qualquer comunicação informal sobre o caso e a cumprir integralmente o termo assinado, em troca de que a notificação extrajudicial fosse a última ação da minha parte, fora do âmbito da cobrança do empréstimo já formalizada. O Dr.
Valmir consultou-me. Respondi que aceitava com uma condição: que o compromisso fosse formalizado em adendo ao instrumento já assinado, com cláusula de indenização para cada descumprimento comprovado. O advogado do Cassiano levou vinte e quatro horas para confirmar. Confirmou.
Nos dias seguintes, o Dr. Valmir preparou o adendo. Era um documento enxuto, sem retórica, que simplesmente adicionava ao compromisso original a cláusula de silêncio e o valor de indenização por descumprimento. O Cassiano assinou sem pedir reunião.
Mandou pelo advogado via protocolo, sem uma palavra além do necessário. Mas ainda havia uma peça a faltar. Bárbara tinha assinado o reconhecimento da dívida. As parcelas começariam no mês seguinte.
Mas havia algo que o instrumento não cobria. Algo que não era jurídico e não podia ser resolvido com documentos. A tentativa dela de construir uma narrativa de instabilidade à minha volta. De ir à minha médica.
De tentar usar a minha saúde como argumento contra mim. Esse capítulo precisava de um encerramento diferente. Chamei o Rodrigo para uma conversa. Ele veio de Brasília numa sexta, chegou no início da tarde e ficámos sentados na varanda do meu apartamento durante duas horas.
Contei tudo na sequência, sem saltar, sem suavizar. Ele ouviu com a atenção que sempre teve, fazendo perguntas pontuais quando precisava de clareza, sem opinar sobre o que eu devia sentir. Quando terminei, ele disse:
— Queres que eu fale com ela? Disse que não.
Disse que essa conversa era minha. Na tarde de quinta-feira da semana seguinte, liguei para a Bárbara e pedi que ela viesse ver-me no sábado de manhã, sem explicação. Ela disse que ia tentar. Eu disse que não era tentativa, era pedido.
Ela disse que ia. Ela veio. Bateu à porta às dez da manhã com um bolo de laranja que era a minha receita, que ela aprendeu comigo quando tinha doze anos. Eu abri a porta, olhei para ela e para o bolo e deixei-a entrar.
Ficámos na varanda. Eu servi café. O bolo estava bom. Mas antes da conversa que eu precisava de ter com ela, havia a segunda reunião formal que o Dr.
Valmir convocou para a tarde da segunda-feira seguinte. Essa reunião era diferente da primeira. Não havia advogado do outro lado da mesa. Desta vez era eu, o Dr.
Valmir, a Neusa e o representante de um dos incorporadores que tinha recebido a proposta formal do Cassiano, com o meu nome grafado como parceira estratégica. Esse incorporador, uma empresa de médio porte com sede no Setor Marcelino, tinha decidido, de forma independente, mover ação de ressarcimento contra o Cassiano pelo uso de documento que induzia erro na avaliação de credencial. Era um processo que corria separado de tudo o que eu tinha iniciado, mas que usava como fundamento os mesmos documentos que a Neusa tinha compilado e que o Dr. Valmir tinha formalizado.
O Dr. Valmir explicou-me que a minha participação nessa reunião era como depoente e confirmadora de documentação, não como parte do processo do incorporador. Mas que a minha presença e o meu depoimento eram cruciais para a solidez do caso deles. Fui.
Sentei diante do representante jurídico da incorporadora e do Dr. Valmir, com a Neusa ao lado, e respondi a cada pergunta com precisão. Cada data, cada contrato, cada indicação, cada notificação enviada. O depoimento durou cinquenta minutos.
Ao final, o representante jurídico da incorporadora agradeceu-me e disse que o processo seguiria no Juízo Cível de Goiânia. Quando saí da sala, a Neusa pegou-me no braço e disse:
— Agora acabou, Iolanda. Saímos do escritório na tarde de setembro, com o sol de Goiânia a queimar o asfalto do Setor Oeste, e eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que o chão debaixo dos meus pés era inteiramente meu. O que aconteceu com o Cassiano nos meses seguintes não foi rápido.
Foi metódico. Primeiro veio o contrato que não foi renovado. Uma supervisão de obra no Jardim América, que estava quase fechada quando a notificação extrajudicial chegou ao incorporador responsável. Sem a confirmação de referência que o Cassiano esperava que eu desse em silêncio, como sempre dera, o incorporador decidiu por outro profissional.
O contrato valia cento e vinte mil reais. Foi o primeiro rombo real, o tipo de rombo que muda o fluxo do mês. Depois vieram os cortes. O escritório informal que ele mantinha no Jardim Goiás, numa sala que ele chamava de sede, mas que era basicamente uma mesa e uma impressora, e o prestígio de poder dizer que tinha endereço comercial, foi encerrado.
O carro, um SUV que ele trocava a cada três anos e que era a primeira coisa que as pessoas viam quando ele chegava a uma reunião, foi devolvido à financeira. Não foi reposto. A Bárbara fez silêncio sobre isso nas conversas que começámos a ter, mas a ausência do carro disse o que ela não disse. A ação do incorporador chegou à justiça.
O processo foi distribuído ao Juízo Cível de Goiânia em outubro, menos de dois meses depois da reunião. O Cassiano foi notificado. O advogado dele apresentou contestação, mas a documentação que a Neusa tinha compilado e que constava do processo do incorporador era precisa demais para ser contestada com argumentos genéricos. O valor pedido na ação não era absurdo.
Era proporcional ao dano que o incorporador tinha documentado. Mas era suficiente para travar os recursos do Cassiano por tempo indeterminado. E então a Bárbara pediu a separação. Não me contou diretamente.
Soube pelo Rodrigo, que soube por um familiar distante, que cruzou com ela num evento em Goiânia. A separação não foi dramática. Não havia como ser, porque os dois já viviam em registos paralelos há anos. Foi a dissolução formal de algo que já estava dissolvido há muito tempo.
Os detalhes da divisão de bens foram negociados por advogados, e eu deliberadamente não perguntei os detalhes porque não eram da minha conta. O apartamento no Setor Bueno ficou com a Bárbara, ao custo de assumir o financiamento restante. O Cassiano foi morar num apartamento alugado no Setor Pedro Ludovico. Três quartos a menos e dois bairros de distância de onde tinha acostumado a apresentar-se.
As reuniões do setor que ele frequentava antes, os almoços onde o nome dele circulava com o peso emprestado do meu apelido, foram rareando à medida que o mercado foi calculando o custo de se associar a alguém com processo em andamento e referência principal encerrada. O mercado imobiliário de Goiânia é pequeno em termos de quem fala com quem. Isso que durante anos tinha beneficiado o Cassiano virou o instrumento da sua queda. E as parcelas da Bárbara chegavam todos os meses, pontuais, no valor combinado, sem comentário e sem atraso.
Era um tipo de silêncio que eu tinha aprendido a respeitar. A minha vida, entretanto, foi-se reorganizando com a calma de quem não precisa de gastar mais energia a carregar o peso dos outros. O projeto que a Neusa tinha proposto, de orientar jovens corretoras gratuitamente uma vez por semana, começou numa sala de reunião emprestada por uma incorporadora no Setor Marista que eu conhecia dos anos noventa. Na primeira sessão apareceram seis mulheres.
Na quinta sessão eram quinze. Eu falava de contrato, de reputação, de como construir rede sem se perder no processo. Falava de erros que eu mesma tinha cometido, sem suavizar. As mulheres ouviam com uma atenção que me dizia que estavam a ouvir coisas que ninguém lhes tinha dito ainda.
A dona Perpétua levou-me a dois almoços do setor onde eu não aparecia há anos. Não entrei a pedir favor, nem a querer nada. Entrei como Iolanda, corretora de trinta anos, que estava de volta nos seus próprios termos. As conversas foram diferentes das que eu lembrava.
Mais leves. Mais minhas. O seu Décio organizou a festa junina do condomínio em julho, como faz todos os anos, com bandeirinhas no corredor do quinto andar e canjica no salão de festas. Fui de vestido florido, sem pensar duas vezes.
Comi canjica até não poder mais. Dancei quadrilha com uma vizinha de setenta e dois anos que ria mais alto do que qualquer um na sala. Dormi naquela noite com o rosto cansado de tanto sorrir. O Rodrigo veio visitar-me em agosto com a namorada, uma moça de Brasília com olhos claros e jeito tranquilo que me agradou desde o primeiro cumprimento.
Ficaram o fim de semana inteiro. Eu fiz frango com pequi na sexta à noite, com o arroz de brócolos que é receita da minha mãe. E a mesa ficou pequena do jeito que fica quando há gente de quem se gosta à volta. O Rodrigo acordou no sábado antes de mim e fez café antes de eu chegar à cozinha.
Na manhã de domingo, quando foram embora, abraçou-me à porta do apartamento por um tempo que nenhum dos dois mediu. Antes de entrar no elevador, olhou para mim com aquela atenção que sempre teve desde criança e disse:
— Você parece diferente, tia. — Diferente como? Ele pensou um segundo e disse:
— Mais leve.
Guardei isso. A Bárbara apareceu na minha porta seis meses depois da reunião. Era um domingo de manhã com aquele sol que Goiânia tem em março, antes de o calor fechar. Estava sozinha, com o bolo de laranja debaixo do braço e, na expressão dela, havia algo que eu não via há muito tempo.
Nenhum guião. Ficámos na varanda durante duas horas. Ela falou, eu ouvi. Depois eu falei, ela ouviu.
Não resolvemos tudo, porque algumas coisas não se resolvem numa tarde. Mas foi a primeira conversa em muitos anos em que nenhuma de nós precisou de fingir. Foi a primeira vez que ela disse, sem que eu pedisse, que sabia que tinha errado. Não elaborou.
Não contextualizou. Disse que sabia e ficou em silêncio depois. Antes de ir embora, quando já estava de pé e eu a acompanhava até à porta, disse com a calma de quem não precisa de provar mais nada:
— Bárbara, eu não estou a fechar a porta. Mas a porta que vai abrir agora é diferente da que existia antes.
Tu vais ter de aprender a bater nela de outro jeito. Ela desceu no elevador com o prato vazio do bolo debaixo do braço. Do Cassiano, não recebi contacto. Não espero receber.
Há coisas que a gente encerra, não com um gesto dramático, mas simplesmente parando de deixar espaço para elas. O espaço que o Cassiano ocupou na minha vida, pelo peso do que eu lhe dei, foi fechado com documentos, com testemunhas e com a assinatura dele no papel. É o encerramento possível. É suficiente.
Aprendi que carinho não se cobra, porque carinho não é dívida. Mas respeito, sim. Respeito é o mínimo que qualquer pessoa deve a quem a sustentou sem pedir nada em troca. E quando o respeito falta por tempo demais, não é amargura que faz a gente agir.
É consciência. É a clareza de quem finalmente entende que amor próprio não é egoísmo. É a única herança que ninguém pode tirar de ti.


