Eu estava em direto quando decidi fazer uma experiência que ia mudar tudo: vestir-me de homem e ir pescar para ver se as pessoas me tratavam de forma diferente. A minha mãe mal me reconheceu no…

Eu estava em direto quando decidi fazer uma experiência que ia mudar tudo: vestir-me de homem e ir pescar para ver se as pessoas me tratavam de forma diferente. A minha mãe mal me reconheceu no...

Era suposto ser apenas mais um direto de fim de tarde, mas eu tinha uma missão nova e, sinceramente, estava a sentir-me ridícula. A ideia tinha-me surgido na cabeça como uma daquelas experiências que parecem simples até começarmos a executá-las. Eu queria saber se as pessoas me tratavam de forma diferente quando eu não parecia uma mulher. A experiência era essa: vestir-me de homem, ir pescar como um gajo qualquer, e ver como o mundo reagia.

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O problema? Eu não tinha roupa de homem nenhuma. Ali estava eu, no meio do meu quarto, com o telemóvel a filmar tudo para o direto, completamente perdida. Os meus espectadores, esses, adoravam.

Os comentários não paravam. «Usa uma camisa de flanela. »
«Veste um saco do lixo. »
«Enrosca-te numa fronha de almofada.

»

Risos. Muitos risos. Eu também ria, mas por dentro estava em pânico. Como é que alguém se transforma num homem da noite para o dia com um armário cheio de vestidos e tops?

«Calma, acho que tenho uma flanela algures», disse eu, a revirar o armário. Encontrei-a. Uma flanela velha, larga, que mal me lembrava de ter comprado. Vesti-a por cima da t-shirt e olhei para o espelho.

«Ainda se vê…», murmurei, apertando o tecido à volta do peito. «Dá para ver as curvas. »

Os comentários voltaram. «Curva-te.

»
«Esconde-te na terra. »
«Bebe um café com gravilha. »

Respirei fundo. Isto ia ser mais difícil do que eu pensava.

A flanela ajudava, mas não chegava. Eu tinha o cabelo comprido, a cara limpa, o corpo com formas que não conseguia esconder. Peguei numa camisola, depois noutra. Nada funcionava.

«E se fizer um coque? », perguntei, enquanto tentava prender o cabelo num rabo de cavalo apertado. «Um coque bem apertado e ponho o chapéu por cima. »

Coloquei o chapéu e olhei para o ecrã.

Os comentários começaram a mudar de tom. «Está a funcionar. »
«Pareces mesmo um gajo. »
«Os óculos fazem toda a diferença.

»

Óculos. Claro. Pus uns óculos de sol escuros e olhei-me novamente. Não estava perfeito, mas pela primeira vez, via uma versão de mim que podia enganar alguém à primeira vista.

«Vou ligar à minha mãe», anunciei, num impulso. «Ela vai perceber logo. Ela conhece-me melhor do que ninguém. »

O FaceTime começou a tocar.

Ela atendeu e olhou para mim, com o ecrã a mostrar a minha cara meio escondida pelo chapéu e pelos óculos. «Oh, meu Deus», disse ela, com uma expressão confusa. «O que é, mãe? Achas que pareço um homem?

»

Ela ficou em silêncio por um momento, a processar. «Eu… acho que sim? », respondeu, com uma risada tímida. «Pareces o teu primo.

»

Eu soltei uma gargalhada. Se a minha própria mãe não me reconhecia, então talvez isto tivesse hipótese de resultar. Desliguei a chamada e voltei a concentrar-me no direto. Faltavam os sapatos.

Os meus ténis eram demasiado delicados, as minhas botas tinham salto. Vasculhei o armário até encontrar um par de Vans velhos. «Vamos amarrar os Vans», anunciei, sentando-me no chão da cozinha para os calçar. «Agora é a sério.

Estou comprometida com esta personagem. »

Os comentários apoiavam. «Agora sim. »
«Pareces um gajo a sério.

»
«Vai pescar com um six-pack. »

Ri-me. Um six-pack de cervejas frias. Talvez fosse demais, mas havia qualquer coisa naquilo que me fazia rir.

Decidi que não. Iria apenas com a minha cana, o meu chapéu e esta nova identidade. Levantei-me, ajustei a flanela e olhei para o espelho da sala. «Meu Deus», sussurrei.

«Está a funcionar. »

O chapéu escondia o cabelo. Os óculos escondiam os olhos. A flanela, larga e desbotada, escondia o meu corpo.

Quem olhasse para mim na rua veria apenas mais um gajo a caminho do rio. «Vocês, o que acham? », perguntei aos espectadores. «Pareces o novo gajo da zona», comentou alguém.

«Ninguém vai desconfiar», disse outro. Respirei fundo. Ok. Ok.

Era agora ou nunca. «Pronto, vamos lá», disse eu, pegando na cana e no balde. Saí de casa e o sol bateu-me na cara. Estava quente.

Muito quente. A flanela começou a ficar colada à pele, mas não podia tirá-la. Tive de continuar. Caminhei pela estrada de terra, com o chapéu bem puxado para a frente e os óculos escuros.

Passei por um grupo de pescadores mais velhos, que estavam a arrumar o material num carro. Um deles acenou-me com a cabeça. «Eia, rapaz. Boa tarde.

»

O meu coração disparou. «Boa tarde», respondi, tentando engrossar a voz. Eles continuaram a conversa entre eles, sem olharem duas vezes. Eu continuei a andar, com um nó no estômago.

Cheguei à margem do rio e escolhi um sítio um pouco mais isolado. Assentei o balde, preparei a cana e lancei a linha à água. Tudo o que tinha de fazer era esperar. Uns minutos depois, um homem aproximou-se.

Um gajo com ar de quem pescava ali há anos. «Pescas alguma coisa? », perguntou ele, sentando-se num tronco ao meu lado. «Ainda não», respondi, com a voz presa na garganta.

«Mas o dia ainda agora começou. »

«É isso. Tem paciência. »

Ele olhou para mim por um segundo, depois desviou o olhar, a observar o rio.

Não desconfiou de nada. Ali estava eu, uma mulher escondida atrás de um chapéu e de uma flanela, a pescar lado a lado com um completo estranho, que me tratava exatamente como trataria qualquer outro homem. Sem olhares de lado, sem comentários paternalistas, sem nada. Apenas respeito, ou melhor, uma indiferença simples.

E isso fez-me pensar. Ninguém reparava em mim. Ninguém fazia piadas sobre o meu cabelo ou as minhas roupas. Eu era apenas mais um pescador no rio.

O homem levantou-se passado algum tempo. «Boa sorte aí», disse, acenando. «Obrigado», respondi, desta vez com um pouco mais de confiança. Fiquei sozinha durante mais alguns minutos, a olhar para a linha e a pensar.

No silêncio do rio, senti qualquer coisa que não esperava. Senti liberdade. Mas também senti solidão. Lá no fundo, sabia que estava sempre a ser observada.

Era só uma farsa temporária. O sol começou a descer. A flanela estava encharcada de suor. Tinha tido a minha resposta, tinha provado que, com as roupas certas e um pouco de atitude, podia passar por outra pessoa.

Mas agora, com o fim da tarde a cair sobre o rio, ficava a pergunta que não queria responder: e quando tirasse o chapéu e os óculos e voltasse a ser eu, o que mudava? O peixe mordeu o anzol. Finalmente. «Boa», murmurei, puxando a linha.

Quando o peixe saiu da água, olhei para ele, a brilhar na luz do fim do dia. E, pela primeira vez em horas, esqueci-me de quem era suposto ser. Sorri. Esse era o meu ponto.

Agora só precisava de descobrir o que fazer com ele.