A primeira vez que o vi, estava sentado no meu beliche, a comer um sanduíche como se fosse a única coisa viva naquela prisão cinzenta. Lembro-me porque foi o único som que soou a normalidade em tanto metal, grades e olhares duros. O estalar do pão, as migalhas a escaparem-lhe pela comissura dos lábios, a forma como as limpava com a língua, como se tivesse todo o tempo do mundo. Depois levantei os olhos e percebi que ele me estava a observar.

“És tu o novo? “, perguntou com a boca cheia, sem a menor vergonha. “É o que dizem”, respondi, agarrando-me ao colchão como se pudesse afundar-me nele e desaparecer. “Pois bem-vindo ao hotel Vista das Grades”, disse ele, erguendo o sanduíche como quem brinda.
“Sou o Dani, mas aqui toda a gente me chama Morango. ”
Não soube se havia de rir ou preocupar-me. Levava apenas duas horas dentro daquela cela e já sentia o ar a pesar. O corredor cheirava a lixívia e cansaço, e cada som amplificava-se.
Os passos do guarda, o rangido da porta, as vozes distantes. E no meio de tudo aquilo, ele, com o seu sanduíche e o seu sorriso descarado, como se a prisão fosse um parque onde se tinha metido sem querer. “Morango? “, repeti, incapaz de não perguntar.
“Sim”, mordeu outra vez, como se assim marcasse o ritmo da conversa. “Porque sou doce, mas se me apertam, salto. ” E piscou o olho. “E porque tenho sempre fome”, acrescentou.
“De tudo. De tudo. ” Não quis explorar demasiado aquela frase, mas ficou-me a ecoar na cabeça. Chamo-me Marcos e, por mais estranho que pareça, nunca tinha partilhado quarto com ninguém.
Filho único, quarto próprio, silêncios longos. Estar subitamente fechado com um completo desconhecido já era inquietante. Que esse desconhecido fosse atrevido, guloso e me olhasse como se eu fosse um menu, isso já era território novo. “Quanto te deram?
“, perguntou, apontando-me com o queixo, como se a minha sentença fosse outra coisa qualquer para arquivar. “Três anos”, respondi, ainda desconfortável com a palavra anos quando ligada a aqui dentro. “Va, três anos”, deu uma dentada enorme, quase cómica. “Se não os levares muito a sério, passam rápido.
” Quis perguntar-lhe como é que se supostamente não levava uma sentença a sério, mas calei-me. Ele observou-me uns segundos, a mastigar o pão. “Tens cara de nunca ter pisado um sítio assim na vida”, comentou, quase divertido. “Não é coisa que as pessoas costumem praticar”, ripostei.
“Pronto, sim, mas há caras que parecem curtidas e a tua está como nova. ” Senti o sangue subir-me às faces. Não sabia porquê. Não era um elogio explícito, mas a forma como o disse, a calma com que o largou, fez-me sentir mais nu do que se tivesse apontado diretamente os meus defeitos.
“Tranquilo”, acrescentou. “Aqui ninguém te come. ” Fez uma pausa. “Bem, se tu não quiseres.
” Lancei-lhe um olhar de aviso, mas ele apenas sorriu, como se fosse um jogo. Na primeira noite quase não dormi. Tinha medo de fechar os olhos e acordar noutro sítio, como se tudo aquilo fosse um pesadelo demasiado longo. Sempre que me virava, ouvia o rangido do beliche de cima.
“Deixa-te de te mexeres tanto, homem”, sussurrou o Dani na escuridão. “Vais fazer a cama pensar que está num barco. ” “Não consigo dormir. ” “Já reparei.
” Silêncio. Ouvia-se um murmúrio de vozes distantes, gritos abafados de outros módulos, um portão a bater ao longe. “Sabes um truque? “, disse ele.
“Para dormir na prisão. ” “Isso é que quero ouvir. ” “Não penses em amanhã. Pensa só no próximo passo que vais dar.
Não na sentença inteira. ” Fez uma pausa. “Por exemplo, agora mesmo o teu próximo passo é parares de morder o lábio. ” Fiquei parado.
“Como é que sabes isso? ” “Porque te estou a ver”, respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Senti o peso do olhar dele na escuridão. Eu continuava de lado, de costas para ele, mas a imagem formou-se sozinha na minha cabeça.
Ele, de barriga para cima, com as mãos atrás da nuca, a olhar para mim. “Fazes sempre isso”, acrescentou. “Desde que entraste. ” Apenas tinha passado umas horas e ele já tinha reparado nesse detalhe.
“É um hábito”, murmurei, “quando estou nervoso. ” “Nota-se”, respondeu. “Mas fica-te bem. ”
A cela encolheu uns centímetros.
Senti um formigueiro absurdo no estômago, algo entre vergonha e surpresa. “Ficas a reparar assim em todos os novos? “, perguntei, tentando soar irónico. “Só nos que mordem os lábios como se estivessem a provar algo que não deviam”, respondeu com um sorriso que quase pude ouvir.
“E tu fazes muito isso, de uma forma muito divertida. ” Não soube o que dizer. De repente, era demasiado consciente da minha boca, de como a apertava, de como a língua roçava o interior por hábito. Forcei-me a parar.
Segundos depois, sem querer, voltei a morder o lábio. O Dani soltou uma risadinha baixa. “Está a ver? ”
Os dias seguintes foram-se organizando numa rotina estranha, mas rotina.
Pequeno-almoço, pátio, oficina, almoço, contagens, duche, noite. E sempre o Dani no pátio. Ele era uma espécie de íman. Mesmo não sendo o mais forte nem o mais imponente, tinha algo no olhar e na forma de se mover que fazia as pessoas virarem a cabeça.
Sabia falar com cada um. Com uns era brincalhão, com outros sério, com os guardas meio respeitoso, meio irreverente. “Dani, baixa o tom”, dizia um guarda, tentando manter a autoridade. “Se baixar o tom, adormeço, chefe”, respondia ele com as mãos nos bolsos.
“E depois, quem anima o pátio? ” E safava-se sempre dos problemas maiores, como se tivesse um acordo secreto com o destino. Comigo era diferente. Não sei se diga mais suave ou mais intenso, mas estava muito atento.
“Não olhes para o chão quando andares”, sussurrou-me uma vez, enquanto dávamos voltas no pátio. “Porquê? ” “Porque aqui cheira a medo e, se passares o dia a olhar para o chão, vão pensar que é teu. ” “Não tenho medo”, menti.
“Claro que tens, mas não precisas de o anunciar. ” Dizia-o sem gozo. Era um conselho sério, embrulhado no seu tom de sempre. Depois, sem aviso, roubou-me um pedaço de pão do prato no refeitório.
“Ei”, protestei. “Regra número um: se partilhas cela comigo, partilhas pão”, respondeu de boca cheia, a sorrir. “Sou guloso, já te disse. ” Ria-se, mas havia algo nos olhos dele quando me olhava que não era só brincadeira.
Algo que se detinha um segundo a mais na minha cara e, de novo, na minha boca. Uma tarde na oficina, apanhou-me distraído. Estávamos a dobrar sacos, um trabalho mecânico, quase hipnótico. Eu perdi o ritmo e fiquei em silêncio, com a mente noutro lado.
“Estás a ir-te”, disse o Dani baixinho, sem me olhar. “O quê? ” “A cabeça. Está a ir-se.
E quando se vai, mordes o lábio. ” Fiquei a olhar para ele. “Estás sempre a olhar para mim. ” “Nem sempre”, sorriu.
“Às vezes pestanejo. ” Soltei uma espécie de riso nervoso. Não queria que ele notasse que aquela frase me tinha atravessado mais do que o normal. “Em que pensavas?
“, perguntou, voltando a dobrar os sacos rapidamente, como se a conversa não tivesse importância. “No que havia lá fora. ” “Lá fora continua lá”, respondeu. “Não se mexeu.
Mas eu mexi-me. E tu também vais mexer-te para voltar”, disse com uma confiança que eu não tinha. Olhei-o de soslaio. Tinha os braços fortes, as mãos ágeis, o cabelo ligeiramente despenteado.
Não tinha cara de filme, mas havia nele uma espécie de encanto impossível de ignorar, uma mistura de miúdo traquina e homem que já viu demais. “E tu? “, atrevi-me a perguntar. “Em que pensas quando não estás a comer o meu pão?
” “Na merenda”, respondeu sem hesitar. Rolei os olhos. “E em ti”, acrescentou, como se fosse a coisa mais normal do mundo. O saco que tinha na mão escorregou-me.
“Mas nessa ordem, hein”, continuou. “Senão depois cresces. ”
Naquela noite, enquanto o módulo se ia apagando, apercebi-me de que esperava pelos comentários dele, pela voz, pelas parvoíces, pelas frases a meio caminho entre a brincadeira e a sério. Deitei-me no beliche de baixo, a olhar para o teto.
Ouvi-o subir, o som do estrado a ranger sob o peso dele. Silêncio, passos distantes, uma tosse noutra cela. “Ei, Marcos”, sussurrou o Dani, quando já parecia que toda a gente estava deitada. “O quê?
” “O que é que mais sentes falta de lá fora? ” Fiquei a pensar. Podia ter dito a rua, a família, o trabalho, a liberdade em geral, mas a primeira coisa que me veio à cabeça foi algo muito mais parvo. “Comer sem pressa”, respondi.
“Sentar-me numa esplanada, pedir qualquer coisa e comer devagar, a ver as pessoas passar sem grades, sem horários. ” Fez-se um silêncio curto, como se ele estivesse a processar a resposta. “Isso soa bem”, disse. “Eu sinto falta de poder repetir a sobremesa sem que me olhem de lado.
” “Tu aqui já repetes tudo”, respondi. “Pão. Pratos dos outros. O que apanhares.
” “Mas não é a mesma coisa”, objetou. “Aqui falta sempre qualquer coisa. Sabes? Ainda.
Enquanto isso. ” A frase atingiu-me. Aquela sensação de provisório, de vida em pausa, tinha-me perseguido desde que me fecharam a porta da cela pela primeira vez. “E tu”, continuou, “sempre mordeste o lábio assim, ou é um talento que desenvolveste aqui?
” Rolei os olhos, embora ele não pudesse ver-me. “Sempre o fiz. ” “Pois devias cobrar por isso”, disse meio a rir. “O quê?
” “É hipnótico”, confessou. E, pela primeira vez, a voz dele soou menos gozona, mais sincera. “Às vezes estou a falar contigo e perco-me a olhar para a tua boca. É como ver alguém a imaginar algo que não se atreve a dizer.
”
Senti o calor subir pelo pescoço. Engoli em seco, tentando ignorar o pulso acelerado. “Não sejas ridículo. ” “Não sou ridículo”, disse.
“Sou observador. E, pá, tens uns lábios muito expressivos. ” Fiquei calado. Não sabia o que se esperava que respondesse àquilo.
Em qualquer outro sítio, teria desviado a conversa com uma piada, ter-me-ia levantado, mudado de assunto. Ali dentro, não havia onde fugir. Estávamos os dois presos nos mesmos poucos metros. “Devias deixar de me olhar tanto”, murmurei por fim.
“Devias deixar de morder o lábio”, replicou ele. Silêncio. “Não digo isto por nada de mau”, acrescentou, mais suave. “Gosto de como o fazes.
Demasiado. ” A palavra demasiado ficou a flutuar entre o beliche de cima e o de baixo. Passaram algumas semanas, suficientes para os dias deixarem de parecer um bloco e começarem a ter matizes. Havia manhãs em que o Dani se levantava a cantar, inventando letras absurdas para canções conhecidas.
Outras, ficava um tempo em silêncio a olhar para as paredes, como se lhe tivessem roubado a piada do dia. Eu tinha deixado de ser o novo e passara a ser o companheiro de cela do Dani. Isso, curiosamente, protegia-me. Parecia que toda a gente o conhecia e mais de um preferia não se meter com ele.
Não por medo, mas porque tinha uma rede feita de favores, piadas e pequenos gestos. Com o tempo, eu também comecei a notar que ele me olhava de forma diferente. Não com a suspeita com que alguns olham para o recém-chegado, mas com uma mistura estranha de curiosidade e paciência. E, sim, havia momentos em que o olhar dele se ia diretamente para a minha boca.
Um dia, no refeitório, apanhou-me a limpar com a língua uma gota de molho que me tinha ficado no lábio. Não pude evitar. Foi um gesto automático. Ouvi-o pigarrear.
“Pá”, murmurou baixinho. “Faz-me um favor. ” “O quê? ” “Não faças isso à minha frente quando eu tenho fome.
” “Tens sempre fome. ” “Exato”, disse ele, sustentando-me o olhar. Não era o que dizia. Era como o dizia e como os olhos se lhe escureciam um pouco ao fazê-lo.
Uma tarde de chuva, o pátio foi suspenso. Deixaram-nos mais tempo na cela, o que soava melhor do que era. Quando se partilham poucos metros quadrados, o tempo extra torna-se uma espécie de lupa. Amplifica tudo.
O Dani estava deitado no beliche de cima, de barriga para baixo, com a cabeça pendurada para mim. “Estou aborrecido”, anunciou. “Lê alguma coisa”, respondi, apontando para uns livros gastos. “Já os li três vezes.
Sei até os agradecimentos. ” “Então dorme. ” “Não posso. Se dormir agora, depois à noite fico com os olhos como faróis.
” Suspirei. Estava sentado no beliche, a fazer girar um lápis. “Faz algo útil e canta menos. ” “Tento ser útil.
Como quê? ” Sorriu. “Pôr-te nervoso conta como trabalho manual. ” Rolei os olhos, mas não pude evitar sorrir um pouco.
“Ei, Marcos. ” “O quê? ” “Quando saíres daqui, o que é que vais fazer primeiro? Mas mesmo a sério, não o politicamente correto.
” Fiquei a pensar. Visualizei a porta, a rua, a luz diferente, e veio-me a imagem de um café, uma tarde qualquer, uma mesa de madeira. “Pedir um café e uma tarte de queijo”, confessei. “Sentar-me sozinho ou com alguém e comer devagar, sem bandejas de metal nem vozes a gritar números.
” Ele ficou calado por um momento. “Bem, temos sonhos muito compatíveis”, disse por fim. “Porquê? ” “Porque eu também quero tarte de queijo.
E, se estiver contigo, tenho desculpa para a comer inteira. Digo que guardo a tua por via das dúvidas. ” “Rói, a sério”, ri-me, de forma mais limpa do que me ria desde que ali tinha entrado. “Pensas sempre em comida.
” “Quase sempre”, assentiu. “E ultimamente também em que não masques tanto os lábios quando estás distraído. É perigoso para a minha concentração. ” “És muito chato com isso”, queixei-me, embora já sentisse os dentes a procurar, por hábito, o bordo do lábio.
“É que gosto”, admitiu. “Gosto de como a boca fica depois. Como se tivesses estado a brigar contigo mesmo. ” Riu-se para si.
“E apetece-me dizer-te para parares ou para continuares. ”
Senti um formigueiro a percorrer-me as costas. Não era medo, também não era algo que quisesse afastar de todo. Sentei-me um pouco, a olhar para ele.
Ele continuava de barriga para baixo, com o cabelo a cair-lhe para a cara, os olhos fixos em mim. A cela pareceu ficar mais pequena. “O que estás a fazer, Dani? “, perguntei, numa voz mais baixa do que pretendia.
“Nada que não queiras”, respondeu, sem deixar de me olhar. As palavras atingiram-me com força. Nenhuma parede do mundo podia amortecê-las. Naquela noite, o módulo estava estranhamente tranquilo.
Havia menos barulho, menos gritos, como se a chuva tivesse lavado um pouco da agressividade do ambiente. Eu estava deitado de barriga para cima, a olhar para a sombra que o bordo do beliche dele fazia no teto. Quando ouvi o movimento, o estrado de cima rangeu e, de repente, vi a mão dele a aparecer, depois a cabeça, depois meio corpo. Inclinou-se para um lado, a olhar para baixo.
“O que estás a fazer? “, sussurrei, sentando-me. “Baixar o volume dos pensamentos estranhos”, respondeu. “Os meus e os teus.
” Não sabia se havia de rir ou de lhe dizer para subir outra vez. “Relaxa, não vou fazer nada que saia num relatório disciplinar”, brincou, mas havia algo no olhar dele que não era só piada. Deixou-se cair com cuidado e ficou sentado no bordo do meu beliche, a muito pouca distância de mim. Conseguia cheirar o sabonete barato do duche misturado com algo que já reconhecia como dele, uma mistura de cozinha do refeitório, fumo velho e um fundo quente difícil de descrever.
“A ver”, disse, inclinando a cabeça. “Faz. ” “O quê? ” “Aquilo do lábio.
” Senti o pulso a disparar. “Não vou fazer isso de propósito”, defendi-me. “Fazes sempre sem dar por isso”, replicou. “Hoje peço-te eu.
Voluntário, sem nervos, sem nada. Só faz. ” Engoli em seco. Havia algo de absurdo naquilo.
Era só um gesto, um hábito, uma coisa minha. Mas sob o olhar dele, aquele gesto parecia outra coisa. “Estás doido? “, murmurei.
“Um pouco”, aceitou, sorrindo. “Mas isso aqui vem quase no uniforme. ” Respirei fundo. Deixei os dentes roçarem suavemente o lábio inferior, como sempre fazia.
Agarrei-o um segundo, soltei-o. Nada de especial. Mas o Dani olhava para mim como se eu tivesse acabado de acender uma luz diferente na cela. “Estás a ver?
“, disse em voz baixa. “Aí está. ” Humedeceu os lábios quase sem querer. “Juro que, se um dia abrirem um curso de coisas pequenas que te mudam o dia, o teu vai para o programa.
” Quis rir, mas o riso ficou preso na garganta. O joelho dele roçava o meu. Não era um contacto evidente, mas estava ali, constante, quente. “Não devias dizer-me essas coisas”, sussurrei.
“Porquê? ” “Porque estamos numa cela, porque não há espaço. Porquê? ” Procurei palavras que não soassem nem demasiado dramáticas nem demasiado vulneráveis.
“Porque aqui dentro é fácil confundir-se. ” Ele olhou-me uns segundos. Sério. Pela primeira vez desde que o conhecia, os olhos dele não tinham qualquer traço de gozo.
“Eu aqui dentro confundo-me com muitas coisas”, admitiu. “Com o horário, com os dias, com se faz sol ou está nublado. ” Fez uma pausa. “Mas não me confundo com o facto de gostares de mim.
” Senti o coração dar um salto. A boca secou-me. Paradoxalmente, abri a boca para dizer algo e fechei-a. “Marcos, tranquilo”, disse ele, levantando as mãos como quem se rende.
“Não precisas de dizer nada agora. Não te conto isto para me responderes nem para te apressar. ” Encolheu os ombros. “Digo-te porque é a única coisa clara que tenho neste sítio e preciso de pelo menos uma.
” A sinceridade desarmou-me. Não havia drama, não havia exigência, só uma verdade. Em pleno sítio que funcionava à base de regras, horários e mentiras piedosas, aquilo era raro. “Não tens porquê…
“, tentei. “Tenho, sim”, interrompeu-me. “Porque, se não o disser, fico a guardá-lo, e já como bastante pão para, além disso, tomar o pequeno-almoço com sentimentos. ” Soltei uma gargalhada nervosa.
Ele sorriu, como se aquela risada fosse o seu pequeno prémio. “Só te peço uma coisa”, acrescentou com suavidade. “Não te obrigues a sentir nada, mas também não te obrigues a não sentir. ” A frase ficou-me presa algures entre a mente e o peito.
Os dias seguintes foram um equilíbrio estranho entre o que havia antes e algo novo. O Dani continuava a ser o mesmo Morango, atrevido, com piadas a todas as horas, mas havia pequenas mudanças. Às vezes, quando cruzávamos o corredor para ir ao refeitório, os dedos dele roçavam os meus. Só um segundo, um toque pequeno, aparentemente casual, que me deixava um rasto elétrico na pele.
No duche, tinha o cuidado de não invadir o meu espaço. Ao contrário do que se poderia esperar de alguém como ele, nunca aproveitava aquele sítio para nenhuma brincadeira desconfortável. Pelo contrário, era aí que ficava mais sério, vigiando com discrição, como se soubesse que aquele era o lugar onde eu me podia sentir mais vulnerável. “Aqui vem-se tomar banho, não ser o idiota”, largou uma vez, quando viu dois outros a empurrarem-se e a gritar.
“O circo está noutro lado. ” E ninguém se atreveu a responder-lhe. À noite, as conversas alongavam-se. Falávamos de coisas de fora, de séries, de música, de parvoíces de que sentíamos falta.
E, de vez em quando, escapava-se alguma confissão. “Eu pensava que, se alguma vez acabasse aqui, seria por qualquer coisa menos pelo que foi”, contou-me um dia, em sussurros. “Pelo que foi? “, perguntei com cuidado.
“Por confiar em quem não devia”, respondeu, sem dar detalhes. “Não te preocupes. Não matei ninguém nem nada disso. Não te vou estrangular a meio da noite”, tentou brincar, mas eu vi a sombra nos olhos dele.
“O que aprendi é que há sítios onde as promessas se partem mais depressa do que o pão do refeitório. ” E, ainda assim, olhou para mim, prolongando a frase. “Ainda assim, apanhame a pensar em promessas novas. ”
Aquelas palavras, promessas novas, caíram-me no colo como um objeto que não sabia onde guardar.
Uma noite, depois de um dia especialmente tenso no módulo por causa de uma briga entre outros internos, o Dani estava mais calado do que o normal. Já nos tínhamos deitado, cada um no seu beliche. A luz do corredor filtrava-se pela fresta da porta, desenhando uma risca amarela no chão. “Marcos”, sussurrou.
“Diz. ” “Tu achas que, se nos tivéssemos conhecido lá fora, me terias olhado da mesma maneira? ” A pergunta apanhou-me desprevenido. Imaginei-o sem uniforme de interno, sem número, sem cela.
Numa esplanada, talvez, a roubar batatas fritas do prato de alguém numa festa, a rir-se alto. Numa cozinha, a comer algo que não lhe pertencia. E, sim, teria chamado à mesma a minha atenção. “Acho que sim”, respondi, sincero.
“Não sei em que contexto, mas sim. ” “E achas que te teria apanhado a morder o lábio à minha frente? ” Soltei um sorriso. “Provavelmente teria tido mais vergonha.
” “Aqui também tens. ” Riu-se baixinho. “Mas permites-te mais. ” Fez uma pausa.
“Suponho que, quando já estás encerrado, perdes alguns filtros. ”
Pensei em todas as coisas que tinha reprimido lá fora sem dar conta, em como ali dentro algumas emoções pareciam mais honestas precisamente porque não tinham para onde ir. “Talvez”, disse. “Ou talvez seja porque aqui te olhas de forma diferente.
” “Eu? “, perguntou. “Tu. Eu.
Todos. De repente ouves-te mais, e isso assusta. ” O Dani demorou a responder. “A mim assusta-me menos ouvir-te a ti”, confessou.
“Fico. Eu já conheço o meu. O teu ainda me surpreende. ” A cela encheu-se de um silêncio denso, mas não desconfortável.
Eu respirava, tentando não denunciar o que aquelas palavras me provocavam. Sem pensar muito, apanhei-me a fazer o de sempre, a morder o lábio. Notei tarde demais. “Já estás nisso outra vez”, sussurrou ele, quase com ternura.
Na noite seguinte, tudo mudou. Não por um grande escândalo, nem por uma briga épica, nem por uma transferência. Mudou por algo muito mais subtil, um gesto a que se seguiu outro gesto e uma dúvida que começou a pesar como se fosse de ferro. Estávamos na cela.
Depois do jantar, o Dani tinha arranjado, não sei como, um pacote de bolachas de chocolate. “Tesouro nacional”, anunciou, mostrando-mas. “Hoje somos ricos. ” “Onde é que arranjaste isso?
” “De um universo paralelo onde ainda confiam em mim”, sorriu. “Partilhas? ” Sentámo-nos os dois no beliche de baixo, ombro com ombro. Partiu uma bolacha ao meio.
Deu-me uma. Quando a mordi, apercebi-me de que fazia semanas que não provava algo tão doce. Escapou-me um suspiro satisfeito. “Vês?
“, disse ele. “Era isto. Essa cara. Há dias que queria vê-la.
” “És muito chato”, queixei-me, mas a sorrir. “Sou constante”, corrigiu. “É diferente. ” Continuámos a comer em silêncio por um tempo.
As mãos roçavam-se de vez em quando, ao procurar outra bolacha. Nenhum de nós retirava a sua de golpe. Num determinado momento, ficou a olhar para mim fixamente. “Marcos.
” “Sim? ” “Posso pedir-te algo um bocado estranho? ” O coração acelerou. “Depende do quão estranho.
” “Para ti, pode ser muito estranho. Para mim, é terça-feira. ” Sustive o olhar. “Pede.
” Engoliu em seco e, pela primeira vez desde que o conhecia, pareceu duvidar de verdade. “Não fujas”, disse antes de explicar. “Não vou cruzar nenhuma linha sem ti. ” Respirei fundo.
“Pronto. ” Ele aproximou um pouco mais o corpo. Eu conseguia sentir o calor que desprendia. “Só”, murmurou.
“Só quero ver uma coisa. ” Levantou uma mão devagar e ficou a meio caminho entre a minha cara e a dele. “Faz”, sussurrou. “Aquilo do lábio.
Mais uma vez. ”
Senti a pele arrepia-se. Era uma parvoíce, um gesto pequeno, mas naquele momento era muito mais do que isso. “Dani, se não quiseres, não faz mal”, apressou-se ele a dizer.
“A sério, não te vou cobrar isso. Só gostava de o ver de perto. Uma vez. ” A voz tremia-lhe quase impercetivelmente.
Olámo-nos uns segundos que se tornaram eternos e, então, fi-lo. Mordi suavemente o lábio inferior, deixando-o preso um segundo entre os dentes, soltando-o depois devagar. Os olhos dele seguiram cada milímetro do movimento. A mão que tinha deixado a meio caminho avançou um pouco mais até roçar apenas o bordo da minha mandíbula.
Não era um aperto nem uma carícia descarada. Era um toque mínimo, trémulo, quase reverente. “Já está”, sussurrou, como se tivesse estado a conter o ar. “Obrigado.
”
Eu sentia o coração a bater tão forte que custava ouvir qualquer outra coisa. “Tanto gostavas de ver isso? “, perguntei, com a voz estranha. “Não é só ver”, admitiu.
“É o que me faz imaginar. ” Riu-se nervoso, a olhar-me nos olhos. “E isso já são demasiadas bolachas para a minha cabeça. ” Olhei-o fixamente.
Naquele segundo, entendi algo. Não era apenas que ele se sentisse atraído por mim. Era que, de uma forma que eu não tinha querido nomear, eu também começava a esperar por aquilo. A procurar os comentários dele, os roços, a forma como me sustentava o olhar um pouco mais do que o normal.
Apanhei-me, pela primeira vez, a desejar que a mão dele não se afastasse. “Dani”, disse devagar. “Diz. ” “Tenho medo.
” Ele assentiu, sem se mexer. “Eu também. ” A sinceridade partilhada fez tudo vibrar de outra forma. “Não sei o que é isto, exatamente”, tentei explicar.
“Não precisas de o saber hoje”, interrompeu-me com uma doçura inesperada. “Só não o mates antes de nascer”, sorriu, inclinando a cabeça. “Deixa-o respirar um pouco, mesmo que seja aqui dentro. ” Ficámos assim por um tempo.
A mão dele ainda perto da minha cara, a minha respiração descompassada, as bolachas esquecidas no colchão. De repente, o som seco de umas chaves a bater do outro lado da porta sobressaltou-nos. O guarda passou pelo corredor, batendo nas portas com a porra. “Luzes fora em 5 minutos.
” O Dani retirou a mão devagar, como se lhe custasse afastá-la. Engoliu em seco e levantou-se do beliche, subindo para o de cima sem dizer mais nada. Eu fiquei sentado, com as mãos abertas sobre as pernas, a tentar entender em que ponto exato algo que até então jurava controlar tinha mudado. Quando a luz se apagou, o módulo ficou mergulhado num silêncio estranho.
Não era o silêncio de sempre, era um novo, cheio de coisas que ainda não tinham sido ditas. Na escuridão, ouvi a voz dele. “Marcos. ” “Sim.
” “Juro que não vou obrigar-te a nada. ” Fez uma pausa. “Mas também juro que não vou fazer de conta que não sinto o que sinto. ” A frase atravessou-me por inteiro e, sem o conseguir evitar, enquanto procurava uma resposta que não encontrava, os meus dentes voltaram a prender o lábio.
Não sabia ainda que aquele gesto, tão pequeno e tão meu, ia ser o detonador de algo muito maior do que as grades da nossa cela podiam imaginar. Na manhã seguinte ao assunto das bolachas, a cela tinha outro ar. Não tinham mudado as grades, nem o colchão, nem o barulho do corredor, mas algo entre o Dani e eu já não estava no mesmo sítio. Acordei antes dele.
Ouvia-o a respirar em cima, tranquilo, como se tivesse dormido descansado, mas já conhecia bem os gestos dele para saber que, quando ficava demasiado quieto, na verdade a cabeça ia a mil à hora. Levantei-me, lavei a cara, tentei concentrar-me em gestos simples. Água fria, toalha áspera, respirar, não morder o lábio. Quando me virei, ele já estava dependurado no beliche, despenteado, com os olhos semicerrados.
“Pareces um anúncio de sabonete triste”, bocejou. “Dormiste alguma coisa? ” “O suficiente”, respondi. Ficou a observar-me uns segundos.
Não estava ainda em modo palhaço. Estava a medir. “Tranquilo”, disse por fim, numa voz mais baixa. “Não vou repetir o interrogatório por causa de ontem à noite.
” “Não foi um interrogatório”, protestei, tentando tirar peso. “Para ti, igual, sim”, sorriu suave. “Para mim foi respirar um pouco. ” A frase dele picou-me num sítio que não tinha nome.
Mesmo assim, o pudor venceu. “Temos de ir à contagem”, murmurei, como se falar da rotina pudesse esconder todo o resto. Durante uns dias, jogámos a um equilíbrio estranho. Por um lado, tudo continuava como sempre.
Piadas no pátio, o Dani a roubar-me pedaços de pão, comentários sobre como a carne do refeitório era má. Por outro lado, cada coisa tinha um segundo sentido. Quando me roçava a mão na fila, eu já não podia fingir que era casual. Quando me olhava para a boca, não podia dizer que não sabia porquê.
Às vezes, aquela nova honestidade assustava-me. Outras, dava-me uma calma estranha, como se, pelo menos, uma parte da minha vida estivesse finalmente a dizer em voz alta o que sentia. Uma tarde no pátio, apanhei-me a procurá-lo entre as pessoas. Encontrei-o, claro.
Saltava sempre à vista, mesmo sem querer. Estava a falar com outro interno, a gesticular, a rir. A certa altura, como se sentisse o meu olhar, virou-se. Os nossos olhos encontraram-se à distância.
Não fez nenhum gesto grandioso. Não me chamou, não me piscou o olho. Apenas passou a língua pelo lábio inferior, de forma muito suave, uma vez, e sorriu apenas. Foi suficiente para o estômago me dar um nó daqueles estranhos, uma mistura de vertigem e vontade de rir.
A tensão rebentou de outra forma, com algo que nada tinha a ver connosco. Uns dias depois, no refeitório, houve uma zaragata a duas mesas da nossa. Um prato voou, uma bandeja caiu no chão. Os guardas começaram a gritar.
Eu fiquei rígido. O barulho, os movimentos bruscos, a sensação de que a qualquer segundo alguém podia empurrar outro. Faziam-me lembrar demasiadas coisas da entrada. Senti então a mão do Dani, por baixo da mesa, a roçar a minha.
Não me agarrou, só roçou. O polegar dele, muito devagar, passou uma vez pelo dorso da minha mão, como se desenhasse um círculo pequeno. “Olha só para a tua bandeja”, disse em voz muito baixa. “Não se passa nada.
Isto aqui é quase a programação habitual. ” Engoli em seco, apertei o garfo. “Não gosto disto”, admiti. “A ninguém”, respondeu.
“Mas acaba. Acaba sempre. ” Continuámos a comer em silêncio enquanto o alvoroço se apagava. A mão dele continuou ali, sem invadir, mas sem ir embora.
Quando por fim nos levantámos, notei que as batidas do coração se tinham acalmado mais depressa do que o normal. Apanhei-me a pensar que uma parte daquela calma vinha precisamente daquela mão. Naquela noite, fui eu quem quebrou o silêncio. “Dani”, chamei, quando já estávamos deitados.
“Mande”, respondeu de cima. “No outro dia disseste que eu não me devia obrigar a sentir nada nem a não sentir. ” “Sim”, respondeu. “E tu?
“, perguntei. “Tu já te obrigaste alguma vez? ” Houve uma pausa. Ouvi-o mudar de posição.
O beliche rangeu. “Durante muitos anos, obriguei-me a não olhar para certos sítios”, disse por fim. “A não pensar em certas coisas. A não reconhecer que alguns olhares me importavam mais do que outros.
” Fez uma pausa, respirou fundo. “Depois, acabei aqui dentro”, continuou, “e apercebi-me de que, no fim, tudo o que não te atreves a sentir lá fora rebenta-te cá dentro. Seja de prisão ou de cabeça. ” Fiquei calado a ouvi-lo, e ele continuou.
“Podia obrigar-me a não te olhar assim. ” Largou uma risada curta. “Mas a verdade é que já não quero. ”
Senti algo entre medo e alívio.
“Eu nunca… “, comecei, mas trava-me a procurar palavras. “Não sei como é suposto isto funcionar. ” “Nem eu”, disse ele, com uma honestidade que me desconcertou.
“A única coisa que sei é que gosto de ti. Não como gosto do pão, que como e já está”, riu-se um pouco. “Gosto de ti daquele modo em que estás a pensar no que o outro terá jantado, se dormiu bem, se hoje tem um mau dia. Gosto de ti daquele modo em que, se te vejo a morder o lábio porque estás nervoso, quero tirar-te o nervosismo, não o lábio.
” A frase fez-me rir, embora tivesse vontade de chorar ao mesmo tempo. “E se tudo isto ficar aqui? “, perguntei, numa voz mais baixa. “E se sairmos e isto evaporar-se?
” O Dani demorou uns segundos a responder. “Então, foi real aqui”, disse. “E isso ninguém pode tirar. ” Fez uma pausa.
“Mas, se depois lá fora se puder fazer algo com isso, também não vou dizer que não à possibilidade. ” As palavras fora e possibilidade ficaram a flutuar por um tempo. Não era uma promessa dramática, era uma porta entreaberta. A vida no módulo continuou com a sua mistura de rotina e pequenos sobressaltos.
Numa revisão médica, disseram-me que estava bem. Numa conversa com o educador, falaram-me de cursos. No pátio, o céu parecia cada dia um pouco mais próximo e um pouco mais distante ao mesmo tempo. Uma tarde, chamaram-nos aos dois pelo altifalante.
“Marcos Pérez, Dani Ortega. Gabinete do educador. ” Olámo-nos. “Que terás feito, companheiro?
“, brincou ele. “Se nos ralharem, diz que foste tu. ” “De certeza que és tu”, ripostei. “Tu é que tens sempre qualquer coisa escondida.
” “Não tenho nada escondido”, disse com meio sorriso. “Bem, quase nada. ”
Descemos juntos. O educador mandou-nos entrar um a um.
Calhou-me a mim primeiro. Sentei-me em frente à secretária, a tentar não imaginar mil cenários. “Marcos”, disse o educador, a rever uns papéis. “Há uma novidade sobre o teu caso.
” Senti um nó no estômago. “Boa ou má? “, perguntei. “Depende de como a olhares”, respondeu.
“Foram parcialmente deferidos o teu recurso. Com o trabalho, os cursos e o comportamento que tens tido, decidiram reduzir-te a pena. ” Ergueu o olhar. “Se tudo continuar assim, podes sair em seis meses.
”
Seis meses. A palavra ecoou-me na cabeça. Tinha entrado a pensar em três anos, um número que me tinha pesado como um bloco. De repente, o horizonte mexia-se.
Assenti, aturdido. “Estás bem? “, perguntou o educador. “Sim”, menti e disse a verdade ao mesmo tempo.
Falou-me de relatórios, de continuar na mesma linha, de não arranjar problemas. Eu assentia, mas quase não ouvia. Seis meses. Ao sair, encontrei o Dani encostado à parede, à minha espera.
“O que te disseram? “, perguntou. “Conto-te já a seguir”, respondi, ainda a processar. Ele entrou.
Demorou menos. Quando saiu, sorria. Mas havia algo estranho no olhar dele. “O quê?
“, perguntei. “O de sempre”, encolheu os ombros. “Bom comportamento, mas o meu processo vai mais devagar. Ainda falta.
” Caminhámos em silêncio uns metros, de volta ao módulo. Eu levava a frase seis meses colada na língua. Pesava, queimava. Ao cruzar um corredor mais vazio, ele parou.
“Pronto”, disse, a olhar para mim. “O que te disseram a ti? ” Respirei fundo. “O quê?
” “Se tudo correr bem”, engoli em seco. “Daqui a seis meses posso estar lá fora. ” Ele ficou parado, muito parado. Os olhos procuraram-me, como se verificassem se eu estava a dizer a verdade.
“Seis meses”, repetiu devagar. Assenti. Ele não disse nada durante uns segundos eternos. Depois, por fim, falou.
“Isso é uma boa notícia”, disse, e a voz soou sincera e partida ao mesmo tempo. “Para mim, sim”, respondi. “Para nós, não sei o que significa. ” Ficámos os dois no meio do corredor, com passos e vozes a ecoar ao longe.
“Significa”, disse ele por fim, a olhar-me fixo, “que vou ter de aprender a mastigar menos pão e mais momentos. ” Tentou sorrir. “E que tu tens seis meses para descobrir o que queres fazer com a boca quando não for só morderes os lábios. ” A frase fez-me soltar um riso que se partiu ao meio.
Ele também riu, mas os olhos brilhavam de forma diferente. Naquela noite, a cela foi outra coisa. Não falámos muito no início. Ele estava deitado em cima, eu em baixo, os dois com o olhar perdido.
“Vou sentir falta disto”, disse. “Da cela, claro”, brinquei, a tentar tirar o peso. “Não”, respondeu baixinho. “De ti.
Aqui. ” Fiquei calado. “Não te estou a dizer que lá fora não vá ser melhor”, acrescentou logo. “Só digo que aqui contigo consegui esquecer durante uns tempos onde estava, e isso não me tinha acontecido.
” O coração apertou-se-me. “Sabes uma coisa? “, comecei, com a voz um pouco trémula. “Eu também não quero ir-me embora, como se isto tivesse sido uma distração.
” Ouvi-o mexer-se, inclinar-se um pouco pelo bordo do beliche. “Marcos”, disse suave. “Se fores embora e decidires fazer a tua vida e não quiseres saber mais deste lugar, nunca mais o vou entender. ” Engoliu em seco.
“Não vou gostar, mas vou entender. ” Sentei-me, a olhar para cima, embora mal visse a silhueta dele. “E se eu não quiser esquecer-te? “, perguntei.
“Também entendes isso? ” A respiração dele cortou-se por um segundo. “Isso precisava de um manual de instruções”, riu-se nervoso. “Mas, sim, também entendia.
” Houve uma pausa longa. Senti um impulso. Um daqueles que, lá fora, teria afogado em mil desculpas. Aqui dentro, não tinha tantas.
“Desce”, disse em voz baixa. “O quê? “, perguntou. “Desce”, repeti.
“Por favor. ” O beliche rangeu. Ouvi-o deslizar, os pés a tocarem o chão. Aproximou-se da minha cama e ficou ali de pé, a olhar para mim.
“O que se passa? “, sussurrou. Custava-me engolir. “Há semanas”, confessei, “que me pergunto como seria parar de morder os lábios só por nervosismo.
” Ele olhou-me sem perceber por completo. “E por que mais seria? “, perguntou. Inspirei fundo.
O medo estava ali. Sim. Mas também uma certeza nova, uma que tinha vindo a crescer entre bandejas de metal, passos de guarda e noites em silêncio. Lentamente, levantei a mão e aproximei-a do pescoço dele.
Não para o atrair à força, mas como se pedisse permissão. O Dani ficou muito quieto. A respiração acelerou-lhe, apenas. “Estou-te a avisar”, murmurei.
“Para depois não dizeres que te apanhei de surpresa. ” Riu-se baixinho. “Marcos”, sussurrou. “Há semanas que estás a demorar.
” Sorri sem querer. Encurtei a distância devagar. A minha testa roçou a dele primeiro. Depois, as pontas dos nossos narizes tocaram-se.
Sentia o hálito rápido dele misturado com o meu. E, pela primeira vez, os meus lábios não se morderam a si próprios. Procuraram os dele. Foi um contacto mínimo, apenas um roçar.
Não houve pressa nem urgência descontrolada, só uma carícia suave, um encontro tímido e decidido ao mesmo tempo, como se duas pessoas que há muito vinham a pensar em algo finalmente se atrevessem a dizê-lo sem palavras. O Dani não fez nenhum gesto brusco, apenas acompanhou o movimento, inclinando-se um pouco, deixando-se levar. A mão trémula apoiou-se no meu ombro. O tempo encolheu.
Durou um segundo ou um ano, não sei. Só sei que, quando nos afastámos um pouco, eu tinha a sensação de que uma parte de mim tinha encontrado o sítio exato para onde apontava há semanas sem acertar. Ficámos tão perto que quase continuávamos a respirar o mesmo ar. “Ai”, sussurrou ele, com um sorriso que não lhe cabia na cara.
“Agora sim, estou perdido. ” “Bem-vindo ao clube”, respondi em fio de voz. Sentou-se ao meu lado, ainda com a mão no meu ombro. “Isto”, murmurou.
“Isto também quero lembrar-me quando sair daqui. ” Olhou para mim. “E, se um dia estiveres numa esplanada com a tua tarte de queijo e o teu café e sentires algo estranho na boca, como se faltasse qualquer coisa, espero que te lembres deste momento. ” “E tu?
“, perguntei. Sorriu, triste e alegre ao mesmo tempo. “Eu estarei provavelmente a lutar com o pão do refeitório, mas vou pensar: algures há um tipo que morde os lábios menos por nervosismo e mais pelo que quer. ” Rir-me, com os olhos húmidos.
Ficámos assim por um tempo, ombro com ombro, em silêncio. Não precisávamos de mais. Não houve promessas dramáticas. Não fizemos planos impossíveis.
Só aquela certeza estranha de que, pela primeira vez em muito tempo, as grades não tinham conseguido impedir que algo bom nascesse. Os meses seguintes encheram-se de pequenos rituais. Olhares no pátio que diziam está tudo bem. Roços breves nos corredores.
Conversas noturnas em voz baixa, em que falávamos de coisas tão simples como como seria ver um filme juntos sem que nos interrompessem a meio para a contagem. Às vezes, quando o dia tinha sido especialmente duro, o Dani sentava-se no meu beliche e apoiava a testa no meu ombro por uns segundos. Não era preciso mais. Era a maneira dele de dizer hoje preciso de me apoiar um pouco em ti.
E, de vez em quando, quando o silêncio era suficientemente grande e a noite o permitia, os nossos lábios voltavam a encontrar-se. Sempre com cuidado, sem barulho, sem alardes, como se o mundo inteiro se tivesse reduzido àqueles centímetros de pele. Continuávamos a ser dois internos, continuávamos a ter regras, horários, limites. Mas também éramos duas pessoas que tinham encontrado, num lugar onde quase ninguém espera encontrar algo de bom, uma forma de se sentirem vivos.
O dia em que me anunciaram a data exata de saída, o coração deu-me um salto. “Marcos”, disse o guarda, a ler o papel. “Se tudo continuar assim, daqui a 30 dias estás fora. ” Trinta dias.
Um mês. A notícia correu depressa. No módulo, as pessoas davam-me palmadinhas nas costas, diziam-me parabéns, pediam-me para não voltar. O Dani, pelo contrário, passou o resto do dia mais calado do que o habitual.
Não triste de todo, mas contido. Só quando estivemos já na cela, com a porta fechada, é que deixou cair a máscara. “30 dias”, repetiu, sentado no meu beliche. “Isso é nada.
” “É muito comparado com ontem”, tentei brincar. “Ontem eram seis meses. ” Sorriu um pouco. “Tens razão.
Não serei eu a dizer-te que é uma má notícia. ” Passou a mão pelo cabelo. “Só que não sei muito bem o que fazer com tudo o que me passa por dentro. ” Inclinei-me para ele.
“Podemos fazer uma coisa”, disse. “Qual? “, perguntou. “Viver estes 30 dias”, procurei as palavras, “como o que são.
Dias que temos. Não como uma contagem decrescente para perder algo, mas como tempo que nos estão a dar. ” Ele olhou-me como se tentasse medir até que ponto eu acreditava nas minhas próprias palavras. “E depois”, acrescentei, “quando estiver lá fora, deixo-te a minha morada, por se te apetecer escrever.
” Sorri. “E tu decides se o fazes. ” O Dani engoliu em seco. “Vou-te escrever”, disse sem hesitar.
Fez uma pausa. “Não prometo boa caligrafia, mas prometo boa intenção. ” Rimo-nos, mais solto do que o normal. Depois, baixou o olhar para a minha boca.
“Vou pedir-te algo estranho”, disse. “Outro mais”, gozei suavemente. “És uma coleção. ” “Este é fácil”, respondeu.
“Não quero que, quando saíres, deixes de morder os lábios. ” Inclinou-se um pouco, sério. “Quero pensar que, quando o fizeres, às vezes será porque te estás a lembrar de mim. ” Senti o peito apertar-se.
“Prometo-te”, respondi. Sem hesitar, beijei-o devagar, uma vez. Ele fechou os olhos, como se quisesse guardar o momento num sítio seguro. O último dia chegou mais depressa do que eu tinha imaginado.
Deram-me a roupa de rua, as minhas coisas, um saco ridículo que continha o pouco que tinha ali. A cela, de repente, parecia estranha. O beliche, as marcas na parede, a pequena estante. Tudo se estava a transformar em memória.
O Dani ajudou-me a dobrar umas t-shirts, embora não fosse preciso. “Vais-te rir da cama da tua casa”, disse. “Esta vai-te parecer de pedra em comparação. ” “Vou ter isso em conta”, respondi.
Ficou a olhar para mim. “Estás nervoso? “, perguntou. “Muito”, admiti.
“Mas do bom”, assentiu. Houve um silêncio estranho, denso. Aproximámo-nos um do outro, quase sem darmos por isso. “Não te vou dizer não te esqueças de mim”, murmurou.
“Porque sei que não é assim tão fácil mandar na memória. ” Riu-se baixinho. “Só vou pedir-te uma coisa. ” “Diz”, sussurrei.
“Quando estiveres lá fora, se alguma vez sentires que tudo te ultrapassa, que não te encaixas ou que tens medo do que sentes, lembra-te de que houve um sítio onde estavas fechado e, mesmo assim, te atreveste a abrir-te um pouco. ” Os olhos brilhavam. “Se conseguiste fazê-lo aqui, vais conseguir fazê-lo em qualquer lado. ” A garganta fechou-se-me.
“E tu? “, perguntei. “O que queres que eu lembre de ti? ” Sorriu, inclinando a cabeça.
“Que eu era muito guloso”, brincou. “E que roubava pão. ” Depois, mais sério. “E que, durante uma temporada, encontrei alguém por quem valia a pena portar-me melhor.
” As palavras desbordaram-me. Não pude evitar abraçá-lo. Não um abraço de palmadinhas nas costas, rápido, desconfortável, mas um a sério, forte, com os braços a rodeá-lo como se quisesse ficar com uma parte dele na memória para sempre. Ele retribuiu o abraço com a mesma força.
Senti-lhe a respiração no pescoço, a tremer um pouco. “Se chorares, ralho contigo por carta”, tentou, com a voz quebrada. “Tu também não chores”, ripostei. “Eu não choro”, mentiu.
Afastámo-nos devagar. Não nos beijámos. Havia algo naquele momento que pedia, mais do que tudo, respeito pelo que tínhamos vivido. O abraço, as palavras, os silêncios já eram suficientemente grandes.
Ao fim de um tempo, o guarda apareceu à porta. “Pérez, está na hora. ” Engoli em seco, peguei no saco. Antes de sair, virei-me uma última vez para o Dani.
Ele apontou para os lábios com dois dedos, depois olhou para mim e fez um gesto mínimo com a boca, como se mordesse o ar. Era o nosso código, a nossa língua privada. Eu, sem pensar, passei a língua pelo lábio inferior e mordi-o muito suavemente. Ele sorriu.
E assim, com aquele gesto pequeno, atravessei a porta. Lá fora. O ar cheirava de forma diferente. Havia carros, gente, céu aberto.
A luz não entrava através de grades ou barras, mas diretamente. Caminhei uns metros, sentindo que cada passo era estranho e familiar ao mesmo tempo. O saco pesava pouco. O que mais pesava, curiosamente, era a memória da cela.
Meti a mão no bolso do casaco. Ali estava o papel com uma morada escrita à mão. A minha, para as cartas, e outra que ele me tinha dado, de um bairro onde sonhava viver quando saísse. Respirei fundo.
O coração batia-me forte, mas de uma forma diferente. Sem me aperceber, mordi o lábio. Por um segundo, fechei os olhos e vi-o sentado no beliche com um pedaço de pão na mão, a olhar para mim como se a minha boca fosse o lugar onde começavam todas as perguntas dele. Sorri.
Não sabia quanto tempo levaria até chegar a primeira carta. Não sabia em que momento exato ele sairia, nem como a vida nos encontraria. O que sabia era que, nalgum lugar atrás dos muros, havia um rapaz atrevido, guloso e chamado Morango, que tinha encontrado na minha forma de mastigar os lábios uma espécie de bússola. E que eu, sempre que o voltasse a fazer, ia lembrar-me de que, mesmo no sítio mais fechado do mundo, tínhamos conseguido abrir uma porta que ninguém podia fechar.
A de nos atrevermos a sentir. O resto ficava por escrever.


