Ele estava a arrastá-la pelo cabelo no meio do salão de gala. O vestido azul safira que ela própria desenhara rasgava-se contra os estilhaços de vidro. O público tinha parado de respirar. Julian Ayes, o CEO da AES Global, humilhava a própria esposa diante de toda a elite de Nova Iorque.

Evely Red sentiu a dor no couro cabeludo, a humilhação a queimar mais fundo que qualquer ferida. Do chão, viu Chloe Bance, a amante, a sorrir por cima do copo de vinho entornado no próprio vestido. A armadilha perfeita. — Desculpa-te — rosnou Julian, os dedos cravados nos cabelos dela.
Ela não conseguiu falar. A dignidade esvaía-se como o sangue que sentia na boca. Foi então que uma voz cortou o silêncio, fria e precisa como uma lâmina. — Sr.
Ayes, pôr as mãos numa mulher. Que coragem. Julian virou-se, furioso. Alexander Sterling, presidente da Sterling Enterprises, avançava pelo salão como se fosse dono do lugar.
Não olhou para mais ninguém. Os olhos dele estavam fixos nela. Ele não disse nada. Apenas despiu o casaco, ajoelhou-se e colocou-o sobre os ombros de Evely com um cuidado que desarmava.
Depois, com uma calma que gelou a sala, começou a soltar os dedos de Julian, um a um. — Agora és minha — murmurou junto ao ouvido dela, a voz grave e protetora. — Trata disto como quiseres. Se o céu cair, eu seguro-o por ti.
E levantou-a nos braços. Evely desmaiou antes de chegar à saída. Acordou numa cama desconhecida, com um aroma a cedro e a roupa de um homem. A camisa de seda que vestia era grande demais.
A joelheira latejava. Sentou-se e viu Alexander Sterling sentado ao lado, com um kit de primeiros socorros. — Já acordaste — disse ele, como se fosse normal. — O que…?
Ele não respondeu. Ajoelhou-se junto da cama, pegou no tornozelo dela e começou a limpar a ferida com uma delicadeza que a fez tremer. Ninguém a tratava assim há dois anos. Nem nunca.
— Não precisas de agradecer — disse ele quando ela tentou falar. — Entre nós, não é preciso. — Mas nós nem nos conhecemos. Ele ergueu os olhos.
Havia uma sombra de tristeza ali. — Já nos vimos antes. Tu é que te esqueceste. Na manhã seguinte, quando desceu para o pequeno-almoço, ele já estava à mesa, a ler o jornal financeiro.
Ela sentou-se, respirou fundo e tomou uma decisão. — Vou pedir o divórcio. Alexander largou o jornal. — É a decisão certa.
— Mas vou fazê-lo sozinha. Ele concordou com um aceno. De regresso à mansão Ayes, o ar era gelado. Julian esperava-a no sofá, com os olhos vermelhos e o cinzeiro transbordante.
— Então apareces, hein? Já pensei que te tinhas mudado para a casa do Sterling. Ela ignorou o sarcasmo. — Vim buscar as minhas coisas.
— Quem te deu licença para ires a algum lado? — Julian levantou-se, bloqueando-lhe o caminho. — A empresa da tua família ainda depende de mim. Se te atreves a desafiar-me, arruíno-os da noite para o dia.
— Faz o que quiseres. Já paguei a minha dívida. Ela abriu o bolso, tirou os papéis do divórcio e atirou-lhos ao peito. Ele olhou para as folhas brancas, incrédulo.
— Não concordo. — Não interessa. Vou apresentá-lo em tribunal. E virou costas.
Julian gritou o nome dela enquanto ela subia as escadas, mas ela não parou. Quinze minutos depois, desceu com uma mala pequena. Toda a sua vida em dois anos cabia ali. — Evely Red, volta aqui!
Ela não olhou para trás. A luz do sol bateu-lhe na cara. Estava livre. No dia seguinte, começou a procurar trabalho.
Curriculum impecável, formação em Londres, prémios. Mas as entrevistas desfaziam-se uma a uma. O posto estava ocupado. A entrevista cancelada.
O candidato não era adequado. Alguém estava a mover os fios. Julian. Ela sentou-se no chão do pequeno apartamento que Alexander lhe tinha emprestado, a olhar para o horizonte iluminado da cidade.
A solidão apertou-lhe o peito. Depois, o olhar caiu sobre um caderno velho na mala. Os seus bocetos de joias. Reabriu o caderno.
A paixão que julgava morta acordou. Naquela noite, desenhou sem parar. Uma peça que chamou de Renascer. Dias depois, Alexander apareceu.
Olhou para os desenhos sobre a mesa. — O teu talento não se pode perder — disse ele, e abriu o maletim. — Vou investir em ti. Capital, espaço, equipa.
Tu desenhas. As tuas peças têm alma. — Porquê? — perguntou ela, desconfiada.
— É por causa do Julian? — Para enfrentar o Julian tenho cem métodos. Tu és o meu investimento. Acredito no talento de Evely Red.
Ela assinou o contrato. Nasceu a marca Evely Red. O lançamento foi um sucesso. As peças únicas encantaram o público.
Mas a meio do desfile, as portas do salão abriram-se com estrondo. Julian e Chloe entraram. — Vim buscar justiça — disse ele, e Chloe avançou com lágrimas ensaiadas. — Ela roubou o meu design!
— Chloe mostrou um boceto no tablet. — Mostrei-lhe este desenho em confiança e ela apresentou-o como seu. O murmúrio varreu a sala. Acusação de plágio.
O pior pesadelo de qualquer designer. Evely respirou fundo. Não era a mesma mulher de antes. — Sra.
Bance — disse, com a voz firme. — Diz que trabalhou neste design durante seis meses? — Sim. — Que pena.
Evely ligou o portátil ao projetor. As imagens apareceram: páginas do seu caderno de universidade, com datas. Esboços do mesmo colar. Uma fotografia dela a receber um prémio cinco anos antes, com a peça ao pescoço.
— Acontece que este design nasceu há cinco anos. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Depois, as câmaras viraram-se todas para Chloe. Julian ficou pálido.
A humilhação foi pública e total. Ele agarrou em Chloe e arrastou-a para fora do salão. A notícia do escândalo correu a cidade. A marca disparou.
Pedidos de boutiques, celebridades, elogios da crítica. Evely trabalhava sem parar, mas agora sorria de verdade. Julian não suportou vê-la brilhar. Começou a segui-la.
Rosas azuis, presentes de luxo, aparições constantes. Ela recusou tudo. — Isto é assédio — disse-lhe um dia, parando na rua. — O teu arrependimento chega tarde e é patético.
Alexander, que a esperava no carro, não interveio. Respeitou a decisão dela. Mas Julian não desistiu. Numa noite, bêbado, bateu com o carro contra uma árvore em frente ao prédio dela.
Foi parar ao hospital com uma concussão. Evely foi vê-lo pela última vez. Ele estava pálido, ligado a um soro. — Evely… vieste.
— Não vim visitar-te. Vim acabar com isto. Ele tentou falar, mas ela não deixou. — O que sentes agora não chega perto do que eu vivi durante dois anos.
Não me deves lágrimas. Deves-me uma coisa: desaparece da minha vida. Ele ficou em silêncio. Uma lágrima escorreu-lhe pela face.
Ela virou costas e saiu. Lá fora, Alexander esperava-a de braços abertos. Ela refugiou-se no peito dele, a tremer. A porta da mansão fechou-se para sempre.
A verdade, porém, ainda estava por contar. Alexander sabia que a rivalidade entre as famílias Ayes e Red não passava de uma mentira fabricada pela Blackwood Corporation. Julian tinha odiado a família de Evely durante anos por algo que ela nunca fez. Tinha-a destruído por um engano.
Evely ouviu a gravação. O chão tremeu-lhe debaixo dos pés. O sacrifício, o casamento, o sofrimento. Tudo baseado numa mentira.
— Agora já sabes — disse Alexander. — Podemos limpar o nome da tua família. Ela olhou para ele, os olhos cheios de lágrimas que não eram de tristeza. — Não.
Não vale a pena. O que interessa é o futuro. Julian perdeu tudo. A empresa faliu, a mansão foi penhorada, os amigos desapareceram.
No dia em que se declarou a bancarrota, Alexander e Evely saíam de uma reunião. Viram-no do outro lado da rua: magro, desgastado, irreconhecível. Evely parou. — Deixa-me.
— Atravessou a rua. Julian olhou para ela. Já não havia ódio. Só cansaço.
— Perdi tudo — disse. — E mereço. Mas preciso de saber uma coisa. Naqueles dois anos… chegaste a gostar de mim?
Evely sustentou-lhe o olhar. — Nunca. Ele desviou-se e desapareceu na multidão. Ela voltou para Alexander, que a abraçou sem perguntar nada.
Naquela noite, soube que tinha chegado a casa. A relação deles cresceu, lenta e segura. Ele apresentou-a aos pais, que a receberam com carinho. A mãe dele disse-lhe: — O que importa é como te levantas.
E tu levantaste-te. Alexander pediu-a em casamento em Santorini, com um anel que ela própria desenhara anos antes. Um pequeno broto a emergir da terra. — Novo começo — disse ele, ajoelhado.
— Evely Red, queres casar comigo? Ela não conseguiu falar. Apenas acenou. A boda foi na catedral histórica de Nova Iorque.
Ela desenhou o próprio vestido. Quando caminhou pelo altar, já não era a mulher que um dia fora arrastada pelo cabelo. Era livre. Alexander esperava-a, com o olhar fixo, cheio de amor.
— Sim, aceito — disseram ambos. No mesmo instante, noutro lado da cidade, Julian Ayes via a cerimónia na televisão de um bar escuro, rodeado de garrafas vazias. Viu Evely sorrir. E soube que a perdera para sempre.
Naquela noite, Alexander levou Evely ao colo para dentro de casa. Deitou-a na cama coberta de pétalas de rosa. — Sr. ª Sterling — murmurou, encostando a testa à dela.
— Espero as suas ordens. Ela riu-se baixinho e passou-lhe os braços à volta do pescoço. — E eu as suas, Sr. Sterling.
Ele olhou-a nos olhos com uma sinceridade total. — Obrigado por me teres deixado amar-te. O sol que nasce depois da tempestade é sempre o mais quente.
E o mais brilhante.


