Ela aprendeu a esconder a dor desde os cinco anos. No porão escuro, Teresa torceu o joelho da irmã Nina até o osso estalar. A família Clara treinava as filhas como gado para entregar aos…

Ela aprendeu a esconder a dor desde os cinco anos. No porão escuro, Teresa torceu o joelho da irmã Nina até o osso estalar. A família Clara treinava as filhas como gado para entregar aos...

—Você não passa de um idiota e covarde. Vende drogas em Cidade Porto, maltrata garotas, e no fundo tem medo de ser punido. Faz rituais sem sentido para que as suas vítimas sofram no lugar de você. —Cale a boca.

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—Vamos fazer uma aposta. Hoje mesmo alguém vai acabar com você. A agulha brilhou na luz do porão. Teresa segurou o joelho da irmã Nina com força e torceu.

O osso estalou. Nina gritou. Teresa largou a perna e endireitou o vestido. Estava pronta para ocupar o lugar da irmã no gabinete de inspeção do João Lipo.

Era o destino de todas as filhas da família Clara: ser treinadas como gado, entregues aos poderosos para manter uma linhagem secular que só existia no nome. A mãe entrou no quarto sem bater. —O inspetor Lipo ficou muito zangado com a sua ausência ontem. Você decepcionou o seu pai.

—Eu decepcionei. —Governanta Gomes, prepare a punição das agulhas. A senhorita precisa lembrar as regras. Teresa estendeu as mãos.

Conhecia aquela dor. Conhecia cada regra da família Clara desde os cinco anos. A governanta enfiou as agulhas uma a uma, devagar. —Fique tranquila, senhorita.

Eu jamais estragaria a sua pele. Teresa não gemeu. Havia aprendido a esconder a dor. No dia seguinte, o pai a levou ao gabinete de inspeção.

O cheiro de sangue fresco misturado com incenso barato enchia os corredores. O João Lipo esperava, gordo e satisfeito, com os olhos vidrados de quem já tinha visto muita coisa e gostava de tudo. —A sua filha é a mais bonita de todas que já trouxeram aqui. O pai sorriu, aliviado.

—Esta noite a Teresa vai acompanhar o senhor. Pode fazer o que quiser. E sobre o cargo do meu filho na alfândega…

—Pode mandar ele se apresentar amanhã. O pai saiu.

Teresa ficou sozinha com o Lipo. Ele encheu um copo e ofereceu. —Beba. Algo que deixa as mulheres nas nuvens e diminui qualquer dor.

Ela bebeu. O gosto era metálico, estranho. Lipo sentou-se, satisfeito. —De todas as garotas que trouxeram aqui, você é a mais bonita.

Mas não se parece com as outras. Aquelas só gritavam, imploravam por misericórdia. Chatas. Eu guardei as mãos delas, as pernas, os olhos.

Para lembrar. Agora me diga, boa garota: o que você quer deixar para trás? Teresa sentiu o corpo pesar. A droga começava a fazer efeito.

—Você acha que eu tenho medo de morrer? Lipo riu. —Vai começar a implorar daqui a pouco. —Não, inspetor.

Você é quem vai implorar. A porta do gabinete explodiu. Homens armados invadiram o salão. No meio deles, um jovem alto, olhos afiados, casaco militar aberto.

Ele olhou para Teresa, depois para Lipo, e sorriu devagar. —Você se atreve a tocar na minha mulher? Felipe de Nis. O nono filho da família Dinis.

O jovem marechal de Cidade Norte. O homem mais temido e mais imprevisível da região. Lipo empalideceu. Felipe pegou Teresa pela mão e levou-a para o carro.

Ela estava tonta, o corpo não respondia direito. Ele a segurou firme. —O João me deu um sedativo — ela murmurou. —Você vai ficar bem.

Vou levar você para casa. —Para a mansão do Marechal? —Quer saber, vou casar com você. Amanhã vou até a sua casa pedir sua mão.

Você é a minha mulher agora. Teresa riu baixinho. O primeiro homem dela. O homem que salvara a vida dela.

E agora dizia que ia casar. Ela dormiu no banco de trás, exausta. No dia seguinte, a família Clara inteira estava em polvorosa. O pai e a mãe não sabiam o que fazer.

O Lipo caíra em desgraça, preso por contrabando e corrupção. Mas a sorte da família Clara dependia de ter um protetor. E o Felipe, o jovem marechal, tinha convidado todos para o banquete de aniversário dele. —Teresa, você vai se aproximar dele a qualquer custo — disse a mãe.

— Esse apoio a gente precisa conquistar. —Sim, senhora. Teresa sabia que a mãe não se importava com ela. Só queria o poder.

Como sempre. Na noite do banquete, a mansão do Marechal estava cheia. Todos os nomes importantes de Cidade Porto estavam lá. Teresa entrou com a família, o vestido azul escuro apertado na cintura, o cabelo preso com um grampo de madrepérola.

Felipe a viu assim que ela entrou. Abriu caminho entre os convidados e parou na frente dela. —Certa Clara. Faz tempo que não nos vemos.

—Faz tempo, sim. Ele se inclinou. —Você não vai me perguntar por que montei este palco para você? —O palco é seu, jovem comandante.

—Porque estou completamente fascinado por você. Deixe-me ser o seu servo fiel. Teresa sentiu o coração bater mais forte. Mas sabia que não podia confiar.

Era uma armadilha. Tudo era uma armadilha na família Clara. A irmã, Nina, tramava nos bastidores. Ela queria destruir Teresa, expor algum escândalo, jogá-la na lama.

Teresa sabia. Ela mesma tinha armado o jogo. O peixe mordeu a isca. Quando o escândalo estourou, não foi Teresa na cama com um amante.

Foi o irmão, o Dério, nu e bêbado na suíte do segundo andar. Nina gritou. A família Clara chorou. A reputação de cem anos desabou em uma única noite.

Felipe segurou a mão de Teresa e sussurrou:

—Você é uma fera, não é? —Você não sabe metade. —Então me leve para casa. Ela riu.

—Vou levar. Naquela noite, no jardim da mansão, ele pediu em casamento. De joelhos, olhando nos olhos dela, prometeu que a levaria para o Norte, para a casa da família Dinis, onde a mãe dele era uma mulher da nova era, onde não havia concubinas nem regras podres. —Um mês — disse ele.

— No máximo um mês. Vou escrever para os meus pais, preparar a carruagem, e vou buscar você. Teresa acreditou. Uma a uma, as peças do xadrez caíram.

Teresa arrancou o cassino da família Clara na mesa de jogo. Denunciou os crimes do pai. Expôs a mãe como cúmplice. Libertou as irmãs aprisionadas.

A governanta Gomes foi levada para a masmorra. O terceiro irmão foi exilado. Nina ficou manca para sempre, arrastando a perna quebrada pelo porão da antiga mansão. —Você venceu — disse Nina, cuspindo.

— Mas eu vou passar a minha vida apodrecendo nesta família, ouvindo os gritos delas todas as noites, e você vai ser livre? —Você escolheu isso, irmã. —Você não é filha da família Clara. Você é uma órfã.

Eles te compraram, como compraram todas nós. Teresa ouviu a verdade sem surpresa. Sempre soube, no fundo. Agora era livre.

Mas o ex-inspetor Lipo escapou da prisão. Com a ajuda de Nina, juntou forças estrangeiras e tomou Cidade Porto. Enquanto Felipe lutava na guerra no Norte, Lipo invadiu a mansão, prendeu os criados, e forçou Teresa a se preparar para um casamento. —Vai ser minha concubina — disse ele, o sorriso torto no rosto inchado.

— Vou humilhar a sua família e o Felipe junto. —Três dias — respondeu Teresa. — Me dê três dias. Lipo concordou.

A vaidade dele era o ponto fraco. Teresa chamou a amiga Joana, a dona do Paramount. —No dia do casamento, quando eu quebrar um copo, você explode o arsenal subterrâneo da mansão do Marechal. Leve todo mundo com a gente.

—Teresa, você vai morrer. —Eu sei. No dia do casamento, Teresa vestiu o vestido que Felipe desenhara para ela. O cetim branco, os bordados finos.

A multidão se apertava no salão. Oficiais estrangeiros, políticos corruptos, a velha guarda da família Clara. Lipo esperava no altar, triunfante. —Senhores — disse ele.

— Esta é a mulher que o Felipe mais amou em toda a sua vida. Agora é minha concubina. Teresa segurou o copo. Do lado de fora, alguém gritou.

—O jornal! O jornal! O jovem marechal Felipe venceu a guerra! Está voltando para Cidade Porto!

O silêncio caiu. Lipo empalideceu. A porta do salão explodiu. Felipe entrou com a espada na mão, o uniforme sujo de pólvora, os olhos vermelhos de ódio.

—Você se atreve a tocar na minha mulher? Os homens de Lipo correram. Os oficiais estrangeiros fugiram. Felipe avançou, derrubou os guardas, e chegou até Teresa no exato momento em que ela ia quebrar o copo.

—Teresa, você ia se sacrificar. Ela chorou. —Eu não tive escolha. —Você podia ter fugido para o arsenal.

A rota de fuga que deixei para você. Você esqueceu? —Eu não queria esperar. Eu cansei de esperar.

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. —Você nunca mais vai estar sozinha. Você não é da família Clara. Você nunca foi.

A partir de agora, você é da família Dinis. Levo você para o Norte. Vou te dar um lar. Teresa apoiou a cabeça no ombro dele.

—Felipe, eu não sei amar direito. —Não tem problema. Eu sei por nós dois. No pátio, os soldados prendiam Lipo.

Teresa viu a cara desfeita do homem que a humilhara, e não sentiu nada. Só cansaço. Um cansaço de dezoito anos. —Vamos para casa — disse Felipe.

—Vamos. Ela subiu no cavalo na frente dele. O vento soprava forte, vindo do Norte, e Teresa fechou os olhos. Pela primeira vez na vida, não sabia o que ia acontecer no dia seguinte.

E não precisava saber. —Teresa, eu amo você. —Eu sei. —Você não vai dizer de volta?

—Você já sabe. Felipe riu, e o cavalo disparou pela estrada.