O filho de sete meses arfava nos braços dela, a febre a queimar-lhe a pele, enquanto o marido estava desaparecido há duas semanas sem deixar um centavo para o médico. Quando finalmente pediu ajuda…

O filho de sete meses arfava nos braços dela, a febre a queimar-lhe a pele, enquanto o marido estava desaparecido há duas semanas sem deixar um centavo para o médico. Quando finalmente pediu ajuda...

O ar da manhã estava mais frio que o normal, mas um suor gelado escorria-lhe pelas têmporas. Nos braços, o filho de sete meses arfava, lutando para respirar. As respirações eram curtas, superficiais, e o calor que emanava do corpinho do bebé queimava-lhe a pele. — Está tudo bem, querido, vais ficar bem — sussurrou com a voz partida, quase inaudível.

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A mão direita tateou o espaço vazio ao lado na cama. Os lençóis estavam tão frios e rígidos como o coração dela. Fazia duas semanas que o marido, Ien, se tinha ido embora sem uma palavra. Primeiro pensou que era apenas um desabafo depois de uma discussão por causa do dinheiro do leite, mas um dia tornou-se três, e três dias transformaram-se em catorze dias de silêncio.

Com a mão a tremer, pegou no telemóvel. Pela centésima vez marcou o número de Ien. O resultado foi o mesmo: a pessoa a quem tenta ligar não está disponível. A voz robótica soou como uma troça.

O homem que prometeu ao pai dela ser o seu protetor desaparecera no momento mais crítico, enquanto o filho lutava contra uma febre alta. — Ien, onde estás? — murmurou, os olhos vazios a fixarem-se no ecrã onde uma única marca por entregar permanecia ao lado do seu último pedido de ajuda. Eram seis da manhã.

Não tinha dormido a noite inteira. Quando finalmente conseguiu deitar o bebé que não parava de chorar, uma batida brusca ecoou na porta do quarto. — Toc, toc, levanta-te. Sabes que horas são?

Era Chloe, a irmã mais nova de Ien. Há seis meses que vivia à custa deles. Com vinte e dois anos, Chloe não tinha intenção de trabalhar, convencida de que, como a casa pertencia ao irmão, tinha direito a tudo. Ara cambaleou até à porta e abriu-a.

— Chloe, por favor, fala baixo. O bebé acabou de adormecer. Está com muita febre. — Tenho um brunch com as minhas amigas ao meio-dia — atirou Chloe, atirando-lhe uma blusa amarrotada à cara.

— Quando é que supostamente vou passar isto? Faz agora mesmo. E não viste a pilha de pratos no lava-loiça? Nem sequer tomei o pequeno-almoço.

Ara respirou fundo. — Chloe, não dormi a noite toda. O bebé está doente. O Ien não voltou e não tenho um dólar para o levar ao médico.

Podias ajudar-me? Só vigiar o bebé enquanto tomo um duche e lhe ponho uma compressa fria. Chloe resfolegou. — Oh, Ara, é normal os bebés terem febre, passa.

O meu irmão está lá fora a trabalhar para te sustentar. Deixa de dar desculpas e passa isto. Não quero passar vergonha à frente das minhas amigas. — Chloe, esta terra é da minha mãe.

Eu cuidei desta casa. Tu és uma convidada aqui. Podias mostrar um pouco de empatia? A menção à terra fez o rosto de Chloe endurecer.

— Outra vez com a história da propriedade. O Ien é teu marido. O que é da esposa também é do marido. Se ele soubesse o quão preguiçosa te tornaste, ainda queria voltar menos.

Chloe atirou-lhe a blusa à cara e foi para a cozinha a resmungar. Ara desabou no chão frio da cozinha. As lágrimas que conteve finalmente brotaram. Sentia-se completamente sozinha na sua própria casa.

Aquela casa construída na terra que a mãe lhe deixara, que devia ser o seu refúgio mais seguro, era agora uma prisão cheia de pessoas que não a queriam. Lembrou-se do pai, Frank, que sempre se opusera ao casamento. *Um homem que obedece à mãe sem questionar nunca será um líder para a esposa*, avisara ele. Ara ignorou-o, acreditando que o amor de Ien bastava para a proteger.

Agora tinha vergonha de ligar ao pai e admitir que ele tinha razão. Meteu a mão no bolso do pijama e tirou a carteira. Só tinha duas notas de cinco dólares. O dinheiro que Ien lhe deixara antes de ir já se gastara em coisas para o bebé.

Sentia-se uma tola. Deixara Ien gerir as finanças, acreditando na desculpa de que estava a guardar tudo numa conta poupança para o futuro. Agora não fazia ideia de onde estava essa poupança. O medo começou a transformar-se numa suspeita escura.

Porque é que Chloe estava tão calma? Porque é que a sogra Brenda nunca perguntava pelo filho? Levantou-se e foi ao escritório de Ien, que estava sempre fechado à chave. Sabia que ele escondia uma cópia na parte de cima da moldura da porta.

Abriu a porta com as mãos a tremer. A divisão estava arrumada, demasiado arrumada. Abriu o arquivador onde Ien guardava os documentos importantes. O passaporte não estava.

Os extratos da conta bancária conjunta tinham desaparecido. Mas o que a deixou sem fôlego foi a gaveta de baixo: a mala de viagem que Ien usava para negócios já lá não estava. Ien não se fora por impulso. Planeara a partida.

Fizera as malas enquanto ela estava distraída. Nesse momento, o choro do bebé irrompeu do outro quarto, mais forte e agudo. Ara limpou as lágrimas com força, pegou no telemóvel e fez o que evitara por medo de um conflito maior. Enviou uma mensagem ao grupo da família, onde estavam Brenda e todos os irmãos de Ien.

*O Ien está fora há mais de duas semanas e não atende o telefone. O bebé está muito doente. Se ele não responder dentro de uma hora, vou apresentar queixa por desaparecimento à polícia e falar com um advogado com todas as provas que tenho sobre a disputa desta propriedade. *

Dois minutos depois, o telemóvel vibrou.

Não era Ien. Era uma mensagem breve de um número desconhecido. *Se queres voltar a ver o teu marido, não causes problemas. Fica calada ou perderás tudo.

*

Ara olhou para o ecrã de olhos arregalados. O choro do bebé intensificou-se. A ameaça flutuava no ar, abrindo um novo capítulo naquela pesadelo que mal começava. Mas quando os dedinhos febris do filho se agarraram aos seus, o medo transformou-se numa fúria fria.

Não seria silenciada por um cobarde sem nome. Envolveu o bebé numa manta grossa e, com o último dinheiro que lhe restava, chamou um táxi para casa da sogra. A casa de Brenda era imponente, num bairro de classe média perfeitamente cuidado. Quando a porta se abriu, Brenda apareceu impecável, com um roupão de seda.

— O que é que estás a fazer a fazer escândalo no chat da família? Que vergonha, Ara. — Brenda, sabes onde está o Ien? Por favor, o bebé está doente.

Precisa do pai. Não volta há duas semanas. — Não o culpo por não querer voltar a casa. Olha para ti, desgrenhada, sempre a queixar-te.

Uma esposa devia ser um santuário para o marido, não um fardo. — Só quero que ele esteja ao meu lado quando o nosso filho está doente. Nem sei se ele come ou onde dorme. Brenda resfolegou.

— O Ien é um bom filho. Está a trabalhar noite e dia para pagar a dívida familiar que tu geraste com aquele parto caro no hospital. Em vez de rezares por ele, ameaças chamar a polícia. Queres arruinar o futuro dele?

Ara ficou sem palavras. Dívida familiar? Ien nunca lhe falara de dívida nenhuma. Mas o relato de Brenda começou a minar a sua certeza.

E se fosse verdade? Se Ien se fosse embora por seu bem? Então porque é que o telemóvel dele estava desligado? Porque desapareceram a mala e o passaporte?

— Preciso de se concentrar. Está num sítio remoto com mau sinal. Vai para casa e deixa de fazer cenas. Se continuares assim, digo-lhe eu mesma para se divorciar de ti.

Brenda fechou-lhe a porta na cara. Ara ficou no alpendre, atordoada. As palavras *má esposa* e *arruinar o futuro dele* ecoavam na sua cabeça. Por um momento, duvidou dos seus próprios instintos.

Mas ao atravessar o relvado, viu um sedã de luxo a entrar na casa vizinha. A condutora, uma mulher da igreja de Brenda, baixou o vidro. — Ara, querida, és tu? Pensei que estivesses no evento do Ien em Northway.

O coração dela deu um salto. — Evento? Que evento? A mulher pareceu desconfortável.

— Ouvi a Brenda dizer que o Ien tem uma inauguração da nova oficina ou algo assim. Tem eventos importantes na cidade estes dias. O carro afastou-se, deixando-a num silêncio gelado. Uma inauguração de escritório?

Brenda dissera que ele estava num sítio remoto a pagar dívidas. As histórias contraditórias reavivaram a suspeita. Não voltou para casa. Sentou-se num banco do parque a ver o bebé dormir, exausto de tanto chorar.

Abriu uma mensagem de Jess, a sua melhor amiga, que ignorara dois dias antes. *Não vais acreditar. Estive a ver o calendário e vi uma reserva em nome do Ien para um evento no salão Granatoria. É o teu Ien.

O menu é para uma recepção de casamento. Têm algum evento familiar? *

Faltou-lhe o ar. Escreveu de volta: *Jess, podes mandar-me uma foto dessa reserva?

Tudo, incluindo os nomes dos noivos. *

Ao enviar, soube que não havia volta atrás. O telemóvel vibrou com uma chamada. — Ara, onde estás?

— a voz de Jess estava carregada de emoção. — Estou num parque perto de casa. A febre baixou um pouco. Sobre essa reserva…

deve ser outro Ien. Ele está fora a trabalhar para pagar as minhas despesas médicas. — Ara, escuta-me com atenção. Acabei de ver o contrato.

O nome é Ien Davis. A morada de facturação é a antiga oficina dele na Gran Avenue. Não é um pedido simples, é um pacote de casamento de luxo para quinhentos convidados. O depósito foi de cinco mil dólares, pagos há duas semanas em dinheiro.

— Cinco mil? Ele disse que estávamos a poupar. Não me deixou um dólar. Cortaram-nos a luz.

— O nome da noiva é Clara Richmond. O evento é no próximo fim de semana no Granatoria Ballroom. — Jess, manda-me uma foto do contrato, por favor. A chamada terminou.

O céu tingia-se de laranja escuro. Lembrou-se dos sinais ignorados: as mudanças de palavra-passe, os atrasos, as desculpas sobre a poupança insuficiente enquanto as facturas do hospital se acumulavam. Com passos pesados, voltou para casa. Ao entrar, viu Chloe no alpendre a comer um bolo de uma pastelaria cara.

— Por fim voltas. Que passeio agradável enquanto a casa está um caos. Ara fixou o olhar nos sacos de marcas de luxo. — Chloe, de onde tiraste esse dinheiro?

Não há luz em casa. O meu filho está doente e tu compras luxos. — É o meu dinheiro. O Ien deixou-me uma mesada antes de ir.

O meu irmão preocupa-se com a irmã, ao contrário de certa esposa que só se queixa. — O Ien deu-te dinheiro, mas não deixou nada para o leite do filho dele? Chloe limpou as migas. — Escuta bem, Ara.

O meu irmão está a lidar com a dívida que tu criaste. Deverias cuidar melhor dele e certificar-te de que o choro dele não me acorda esta noite. Chloe chocou deliberadamente com o ombro de Ara ao entrar em casa. Ara ficou paralisada no alpendre.

Olhou para a caixa do bolo que Chloe deixara. Tinha um autocolante de uma pastelaria chique a quarenta minutos de distância. O preço daquele bolo equivalia a três dias do seu orçamento para comida. A suspeita já não era uma trepadeira a arrastar-se.

Era um parafuso a apertar-lhe o coração. Entrou na casa escura. Depois de deitar o bebé, foi a um canto onde estava uma tablet antiga, com o ecrã rachado, que Ien quase não usava. Tinha a bateria fraca, mas ligou-a.

Lembrou-se de que Ien sincronizara a conta na nuvem com aquela tablet. Com as mãos a tremer, tentou abrir a pasta de fotos sincronizadas. A pantalha piscou, a carregar lentamente. Momentos depois, apareceu uma pasta chamada *Projecto Nova Vida*.

Dentro não havia documentos de trabalho, mas fotos de Ien com uma mulher bonita. Estavam numa loja de vestidos de noiva. Ien vestia um smoking negro, a sorrir com uma luz que não mostrava há mais de um ano. As lágrimas de Ara caíram sobre o ecrã rachado.

O coração partiu-se de vez. Ien não estava a sofrer num local remoto. Estava a celebrar a sua nova vida. De repente, a bateria morreu e a tablet apagou-se.

Na escuridão absoluta da casa, só se ouvia o som frenético do seu próprio coração. Percebeu uma coisa: já não podia esperar mais. Agarrou numa bolsa pequena, tirou a escritura da terra que herdara da mãe, que escondera debaixo de um monte de roupa. Uma determinação pequena e perigosa começou a formar-se na sua mente.

Se Ien achava que podia usar aquela casa e aquela terra como garantia para a sua nova vida, estava muito enganado. Decidiu que na manhã seguinte iria ao antigo escritório de Ien para descobrir quem era exatamente Clara Richmond. Já não tinha medo de perder Ien.

Agora tinha mais medo de se perder a si mesma se continuasse calada.