Três anos num hospital psiquiátrico por um crime que não cometeu. Hoje, o carro parou à porta da mansão. Songal respirou fundo, apertando o urso de pelúcia contra o peito. O pai nem a olhou. A mãe…

Três anos num hospital psiquiátrico por um crime que não cometeu. Hoje, o carro parou à porta da mansão. Songal respirou fundo, apertando o urso de pelúcia contra o peito. O pai nem a olhou. A mãe...

O carro parou à porta da mansão. Songal respirou fundo. Três anos. Três anos num hospital psiquiátrico por um crime que não cometeu.

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— Sai. O pai nem a olhou. A mãe desviou o rosto. O irmão, Luche, manteve-se em silêncio.

Tinham-lhe dado sete dias. Sete dias até ao divórcio. Até ele poder casar com a irmã. — Se voltares a maltratar a Giagia, tu e esse urso vão para a rua juntos.

Ele apontou para o peluche que ela apertava contra o peito. O da Mengru. A única amiga que tivera no hospício. — Não vou maltratá-la.

Mentira. Não era ela quem maltratava ninguém. — Faltam cinco dias — murmurou para si mesma — e vou para Xingsheng. Para sempre.

Mas a irmã já estava à sua espera com um sorriso doce e lágrimas nos olhos. — Irmã, finalmente voltou. Senti tanto a sua falta. Está a tremer.

Vou buscar uma blusa. Songal conhecia aquele sorriso. Conhecia aquelas lágrimas. Tinha aprendido a reconhecê-las nos três anos de tortura.

— Guarde as suas intenções — respondeu, baixinho. — Mosquinha morta. A mãe avançou:

— Que coração de cobra! Nem em casa consegue ficar quieta.

— Vai ajoelhar lá fora — ordenou o pai. — Sem castigo não aprende. — Irmão Chunhan — a voz doce de Giagia interrompeu —, talvez fosse melhor deixar passar. Ela está tão mal…

Giagia, sempre bondosa. Giagia, sempre a perdoar. Giagia, que tinha arquitetado tudo. — Escolhe — disse Chunhan, frio.

— Ajoelhas-te sozinha ou mando alguém arrastar-te. Songal ajoelhou-se. O chão estava gelado. O vento cortava-lhe a pele.

Mas já não sentia nada disso. Sentia apenas o ursinho contra o peito e a promessa de que, em cinco dias, estaria livre. — Solta-a. A voz veio das traseiras.

Um homem alto atravessou o jardim. — Não vês que ela está mal? Isso é que é ter humanidade? — O que estás aqui a fazer?

— Chunhan avançou. — Vim ver como tratam uma paciente. O que é que ela fez? Foi trocada quando era bebé.

O que é que ela sabia? Era Fangal. O médico. O único que acreditara nela.

— Vou levá-la para o hospital. — Não precisas — Chunhan agarrou-a pelo braço. — Ela está a fingir. Para não se divorciar.

Songal deixou-se levar. Já não tinha forças para lutar. No hospital, o diagnóstico tombou como uma pá de cal. — Alzheimer.

Fangal segurava os exames com mãos trémulas. — Demência senil. Mas eu só tenho 25 anos. — Jovens também podem ter.

A probabilidade é menor, mas… acontece. — Quanto tempo? — Normalmente cinco a dez anos.

No seu estado… no máximo cinco. Cinco anos. E ela já tinha passado três num hospício.

— Vou juntar dinheiro — disse, baixinho. — Quero ir para Xingsheng. Era o sonho da Mengru. Mas ele apareceu outra vez.

— Yau, não vais a lado nenhum. Chunhan entrou no quarto como se fosse dono do mundo. — Já estamos quase divorciados. Não tens nada a ver com a minha vida.

— Enquanto não assinarmos, és minha esposa. — Rechunan, estás bem? — Fangal empurrou-o. — Vira à esquerda para o psiquiatra.

— Fica quieta — Chunhan ignorou-o. — Espera pelo divórcio. Depois pedes desculpa à Giagia. Deves-lhe isso.

Ela sofreu mais de 20 anos por tua causa. — Quando fui trocada — a voz de Songal saiu trémula — eu era um bebé. O que é que eu sabia? — Sabes o que ela desenvolveu por tua causa?

— Irmã, foi culpa minha — Giagia entrou, chorosa. — Não culpe o irmão Chunhan. — Chega — a mãe apareceu. — Arruma as coisas.

Vais para casa. Ainda não te envergonhaste o suficiente? — Ela não está a fingir — Fangal atirou os exames para cima da mesa. — O corpo dela está pior do que imaginam.

E vocês ainda a chateiam? — Ela merecia morrer quando foi trocada — respondeu a mãe, fria. — Vocês não têm noção do que fizeram — Fangal levantou a voz. — Três anos num hospital psiquiátrico.

E ainda querem mais? — Dr. Kim — Giagia limpou as lágrimas —, eu sei que é amigo dela e por isso está contra mim. Mas nunca a magoei.

Sempre a tratei como família. — Gia — a mãe segurou-lhe a mão —, não chores. A culpa não é tua. — Seu idiota — Fangal cuspiu para Chunhan.

— A tua família Kim não terá lugar em Rexan. Chunhan não respondeu. Apenas olhou para Songal, que tremia no canto. — Arranja alguém para fazer um check-up — ordenou.

— Ainda te preocupas com aquela inútil? — a mãe franziu o nariz. Mas já era tarde demais. No dia seguinte, levaram-na de volta.

— Não, por favor. Eu sei que errei. Abram a porta. A sala de tratamento.

As correias. As agulhas. — Irmão Chunhan — ouviu a voz de Giagia, doce como sempre —, ela está a sofrer muito. Talvez devêssemos deixá-la sair.

— É tudo teatro — respondeu ele. — Três anos sem nos ver e nada melhorou. A atuação é que ficou perfeita. — Gia, és muito bondosa — a mãe disse.

— Ela magoou-te tanto e ainda tens pena. — Para que pena? Songal encolheu-se num canto. — Faltam dois dias — murmurou.

— Dois dias para Xingsheng. Mengru, espera por mim. Mas a porta abriu-se. Mãos agarraram-na.

Arrastaram-na para a sala de electrochoques. — Não, por favor. Eu sei que errei. Por favor…

O urso caiu no chão. Ela esticou o braço. Não chegou. A corrente passou-lhe pelo corpo.

Acordou na cela. Sozinha. O urso tinha desaparecido. Passaram-se mais dois dias.

No dia em que o divórcio ia ser assinado, estava ajoelhada no chão do escritório. — Irmã, desculpe — Giagia ajoelhou-se à sua frente. — A culpa é toda minha. — O que fizeste?

— Chunhan entrou. — Não fui eu — Songal tentou levantar-se. — Eu não fiz nada. — Sombiau, vais longe demais.

— Não fui eu. Eu nunca teria coragem. — Gia — a mãe apareceu —, o que é que ela te fez? — A irmã só está chateada e quer descontar.

— É querer matá-la! — Chunhan agarrou-a pelo braço. — Chamem alguém. Levem-na para o hospício.

— Não, por favor. Me perdoe. Eu não fiz nada. — Ingrata.

Cruel. Arrastaram-na para fora. O certificado de divórcio caiu no chão. — Leve-a — Chunhan nem olhou para trás.

— Na próxima vida. Não quero vê-la nunca mais. — Não podem mandá-la embora. Fangal apareceu na porta, os exames na mão.

— O relatório dela foi trocado. Vejam. Isto é o verdadeiro. — Ela está mesmo doente?

— a mãe empalideceu. — Está moribunda. Precisa de ser internada imediatamente. — Não podemos realmente tirar-lhe a vida — a voz de Luche tremeu.

— Já é tarde — respondeu alguém. Songal fugiu na confusão. Mas eles perseguiram-na. Três carros.

Homens armados. — Está naquele — gritou alguém. O carro bateu na vedação. — Ela não está aqui — Fangal abriu a porta.

— Levaram-na. — Quem? — Não sei. O carro capotou.

O fogo começou. Songal viu as chamas pelo espelho retrovisor enquanto o carro de Fangal se afastava na estrada. — Obrigada — murmurou. — Não me agradeças ainda.

Eles não vão parar. Ela olhou para o céu. Estava a pintá-lo de azul, cor-de-rosa, laranja. Como sempre fizera.

— Quero ver montanhas nevadas — disse. — A Mengru prometeu que um dia me levaria. — A Mengru faleceu — Fangal apertou o volante. — Foi há três anos.

— Eu sei. Mas prometo-lhe que vou cumprir o sonho dela. Três anos depois. A exposição de Shumeng estava lotada.

— Adoro o céu — disse uma rapariga para a artista, enquanto esta lhe autografava o catálogo. — Como consegue pintar coisas tão lindas? Songal sorriu. — O céu nunca é igual, sabes?

Cada dia é uma tela nova. — Sungiau. A voz errou-a por um segundo. Ela ergueu os olhos.

Ele estava ali. Chunhan. Mais velho, mais pálido, os olhos vermelhos de noites sem dormir. — Finalmente encontrei-te.

— O que é que estás aqui a fazer? — uma voz atrás dele. Era irmão Luche. A mãe.

O pai. — Sombial, desapareces três anos e vens para aqui envergonhar a família? Songal olhou para eles. Depois para o homem ao seu lado.

— Quem são? — perguntou, calmamente. — Não finjas amnésia — o pai avançou. — Nós descobrimos tudo.

Fomos injustos contigo. Volta para casa. — Casa? — ela riu, baixinho.

— Isso é que era casa? — Yau — a mãe estendeu a mão —, nós erramos. Mas ainda te criámos 20 anos. — Criaram-me?

— a voz dela tremeu. — Mandaram-me para um hospício. Deram electrochoques. Deixaram-me apodrecer.

— A melhor forma de compensar — Fangal surgiu ao seu lado — é não perturbar a vida dela. — Ela é nossa filha — o pai bateu com o pé. — Tem de voltar. — A vossa filha — uma outra voz, firme, cortou o ar — é a Lugia Gia.

Songal viu o homem aproximar-se. Alto. Elegante. Olhos que pareciam conhecê-la há séculos.

— Finby — murmurou. — Não tenham medo — ele sorriu-lhe. — Estou aqui. — Quem é este?

— Chunhan avançou. — Sou o marido dela. — Ela não pode estar casada — Chunhan empalideceu. — Ela é minha esposa.

— O divórcio saiu — Finby respondeu, frio. — Há três anos. — Isso não interessa — Chunhan agarrou Songal pelo braço. — Vem comigo.

— Solta-a. Finby interpôs-se. O olhar fê-lo recuar. — Ela não quer ir contigo.

— Yau — a voz de Chunhan partiu-se —, lembras-te do urso? Da Mengru? Ela foi tua amiga. Songal parou.

— Mengru — repetiu, baixinho. — A Mengru. — Sim. Vou levar-te a ver a campa dela.

— Não — Finby segurou-a. — Ela não pode. A doença… — Sei da doença — Chunhan cortou.

— Sei que tem Alzheimer. Sei que só lhe restam dois anos. Mas quero estar com ela. Quero compensar.

— Alguns erros — a voz de Songal saiu estranha, distante — não têm conserto. — Yau, por favor. — Não me chames Yau. Ela virou-se para Finby.

— Leva-me daqui. — Yau — a mãe caiu de joelhos —, sou tua mãe. A tua verdadeira mãe. — Não me lembro de ti.

— Ela não se lembra de ninguém — Fangal explicou, a voz baixa. — Só do Finby e da Mengru. A doença é assim. — Mas ela é nossa filha — o pai avançou.

— Tem de… — Não tem de nada — Finby interrompeu. — Durante três anos esteve ao meu lado, a pintar céus. A ser feliz.

A esquecer o que lhe fizeram. E agora vocês aparecem para lhe lembrar a dor? — Quero ir — a voz de Songal era um fio. — Quero ver os girassóis.

— Vou levar-te — Finby pegou-lhe na mão. — A casa está pronta. O jardim está cheio deles. — Não podem levá-la — Chunhan avançou.

— Eu dou tudo. O grupo R. A minha fortuna. — A tua fortuna não vale o que lhe fizeste — Finby respondeu, simples.

— Nunca vai valer. — O que é que queres então? — Nada. Só que a deixem em paz.

E virou costas. Songal seguiu-o sem olhar para trás. Chunhan ficou parado. O pai baixou a cabeça.

A mãe chorava. Luche, o irmão, não disse nada. Foi ele, mais tarde, que recebeu o vídeo. — Recebemos do Dr.

Fangal — disse, sem erguer os olhos. Chunhan pegou no telemóvel. Ela estava num campo. Girassóis.

O sol a pôr-se. E ela, de vestido branco, a rir. — Olha — a voz dela, mas diferente. Como se viesse de muito longe.

— Chumen ganhou um prémio. — Quem é? — a voz de Finby, paciente. — Não sei.

Mas é bonito. — És tu. — Eu? Ela riu, confusa.

— Não me lembro. Chunhan viu as mãos tremerem. — Ela está a piorar — Fangal explicou ao lado dele. — A doença não tem cura.

Dentro de nada, nem do Finby se vai lembrar. — Quanto tempo? — Uns meses. Talvez menos.

— Posso vê-la? — Ela já não te reconhece. — Não importa. Finby recebeu-o no portão da quinta.

— Ela está lá atrás. Pintando. Chunhan atravessou o campo. Ela estava sentada no chão, uma tela no cavalete.

Pincéis na mão. O vestido sujo de tinta. — Yau. Ela ergueu os olhos.

— Quem és tu? — Sou o teu marido. — Já tenho um marido — ela apontou para Finby. — É aquele.

— Sou… fui. — Não me lembro. Ela voltou a pintar.

Chunhan sentou-se ao lado dela. — Podes pintar o céu? — perguntou ela, sem olhar. — Não sei pintar.

— É uma pena. O céu é tão bonito. Ficaram ali um longo tempo. O sol pôs-se.

Ela continuou a pintar. — Chunhan — a voz de Finby veio das traseiras —, está na hora de ir. Chunhan levantou-se. Ela nem reparou.

Ia a sair quando ela disse:

— Obrigada por teres vindo. Ele parou. — Quem quer que sejas. — Eu amo-te.

Ela não respondeu. Apenas continuou a pintar. Quando chegou ao portão, ela já tinha virado a tela. Uma montanha coberta de neve.

E girassóis. — O que é Xingsheng? — Finby perguntou. — O sítio onde ela queria ir.

— Vamos. Amanhã cedo. Enquanto ela ainda se lembrar. Chunhan acenou.

Entrou no carro. Pelo espelho retrovisor, viu-a levantar-se, o vestido branco contra os girassóis. Ela ergueu a mão. Um adeus que talvez nem fosse para ele.

Chunhan segurou o volante. — Vai — Finby disse, baixinho. — Enquanto ainda há tempo. Mas não havia tempo.

Nunca tinha havido. Só o céu. E a memória de um urso. E a promessa de montanhas nevadas.

E ela, a pintar. Até ao fim.