Era o aniversário de 30 anos do meu marido, Mark. Festa na piscina. Ele já estava bêbado quando resolveu falar alto, na frente de toda a gente, que o vizinho da frente estava de olho na esposa dele — em mim. Olhei para aquela cena e disse com a voz mais tranquila do mundo:
— Já que queres falar de chifres, o que me dizes da tua coleguinha?

Mas antes de contar como tudo começou, deixa-me recuar um pouco. Chamo-me Rachel, tenho 29 anos, trabalho num banco. Mark e eu éramos casados há quatro anos. Ele era desenvolvedor de software, trabalhava de casa, excepto uma vez por semana em que ia ao escritório.
Morávamos num bairro sossegado no Oregon, com quintais e ruas arborizadas. A vida corria normal até que a nossa vizinha do lado se mudou. Ela chamava-se Brenda, mesma idade que nós, cabelo escuro, jeito simples. Coincidência: trabalhava na mesma empresa que o Mark.
Ele até a ajudou com as mudanças no dia em que ela chegou. Achei estranho por um segundo, mas deixei passar. Cumprimentava-a na calçada, mas ela sorria daquele jeito educado e fechado, como se estivesse a ser polida por obrigação. A vida continuou igual.
Eu saía para o banco às 8h30, voltava às 18h30. Jantávamos juntos, tudo normal. Até que um dia, no meio da tarde, recebo uma mensagem dele: «Estou a ir aí. » Fiquei a olhar para o ecrã.
Ele estava em casa a trabalhar — para onde ia? Antes de responder, a mensagem desapareceu. Ele tinha-a apagado. Mandei: «O que mandaste e depois apagaste?
»
Respondeu rápido: «Foi uma mensagem errada para o meu chefe. »
Disse-lhe: «OK. O que estás a fazer agora? »
Ele: «Estou no escritório, a comer uns petiscos.
»
Pedi uma foto. Dez minutos depois, respondeu: «Já comi tudo, não tenho como tirar foto. »
Sabia que havia algo errado. Voltei para casa à hora normal, encontrei-o no escritório com o portátil aberto.
Perguntou como tinha sido o meu dia. Disse que normal. Ele queixou-se de um erro no código que não conseguia resolver. Sorri, fui para a cozinha.
Nessa noite, olhei pela janela e vi as câmaras de segurança do vizinho da frente. Greg, 35 anos, divorciado, contabilista, dava aulas de pintura nos tempos livres. Era daqueles vizinhos que pegam nas tuas encomendas. Mandei-lhe mensagem no dia seguinte, perguntei se as câmaras cobriam o meu lado da rua.
Ele confirmou. Pedi as imagens do dia anterior, entre as 14h e as 18h30. Enviou-me o ficheiro sem perguntar porquê. Abri no telemóvel.
Às 14h05, vi o Mark a sair de nossa casa e a entrar na casa da Brenda. Avancei. Saiu de lá às 18h30, mesmo antes de eu chegar a casa. Fiquei parada.
Tentei racionalizar: talvez fosse trabalho, mas se era inocente, porque é que ele mentiu? Pedi para sair mais cedo do trabalho no dia seguinte. Cheguei a casa às 17h30. Mark não estava.
Mandei mensagem: «Onde estás? »
Respondeu: «Em casa, onde mais havia de estar? »
Respondi: «Eu estou em casa e não te vejo. »
Demorou uns segundos: «Ah, dei uma saída rápida.
Já estou a voltar. »
Fui para a frente de casa. Minutos depois, vi-o a sair apressado da casa de Brenda. Quando me viu na calçada, parou a meio.
— O que estavas a fazer na casa da vizinha? — A Brenda precisava de ajuda com um código. Entrámos em casa. Perguntei com que frequência ia lá.
— De vez em quando. Ela manda mensagem. — Não gosto nada disso, Mark. — É só uma colega.
Estás com ciúmes sem razão. Ela é feinha, não tens com que te preocupar. Não era ciúmes. Era noção.
Lembrei-me que Greg dava aulas de pintura. Mandei-lhe mensagem e combinei aulas todos os sábados de manhã. No primeiro sábado, disse ao Mark que ia sair. — Aonde vais?
— À casa do Greg, ter aula de pintura. Ele torceu o nariz: «Não me sinto confortável com ires a casa de um homem divorciado. »
— E os vizinhos já comentam que tu vais a casa da vizinha solteira ajudar com código. É trabalho, não é?
Eu também tenho um motivo: aprender a pintar. Ele não teve argumentos, mas desenvolveu um ciúme doentio do Greg. Eu, por outro lado, estava a gostar genuinamente das aulas. Greg era paciente, tranquilo.
A amizade cresceu naturalmente. Até que, numa sexta, o ex-vizinho da casa ao lado, um senhor de 70 anos, apareceu no meu guiché no banco. Perguntou:
— Então, já estás a gostar de ter a sogra por perto? — Sogra?
— Sim, a mãe do Mark. Ele disse que ela estava doente e que ia trazê-la para morar aqui. Até lhe aluguei a casa. Paga o aluguer direitinho todos os meses.
Fiquei gelada. Agradeci, acabei o atendimento. Aproveitei um momento tranquilo e puxei o extrato da conta do Mark no sistema. Todos os meses, um débito automático de 400 dólares para o nosso ex-vizinho.
Mark estava a pagar o aluguer da casa da Brenda há quatro meses, e disse ao senhor que era para a mãe. Não era coincidência. Ele tinha arranjado aquilo. Tudo para ter a amante a menos de dez metros.
Precisava de provas sólidas. Confrontá-lo não adiantava — ele mentia bem. No sábado seguinte, durante a aula de pintura, perguntei ao Greg como tinha descoberto que a ex-mulher o traía. Ele entendeu na hora.
Contei-lhe do aluguer e das suspeitas. Greg ficou quieto. Depois disse:
— Olha, não é da minha conta intrometer-me, mas eu já sabia que eles estavam a ter um caso. Vi várias vezes.
Tenho fotos das câmaras. Mostrou-me: Mark a sair de casa com uma garrafa de vinho, Brenda a abrir a porta, os dois a beijarem-se à janela. Greg tinha guardado tudo, meses de gravações. — Desculpa não ter dito antes.
Devia ter-te falado. — Tens um advogado de confiança? — Sim, o mesmo do meu divórcio. Voltei para casa.
Mark estava no sofá a jogar. — Então, como foi a aulinha com o chifrudo? — perguntou. — Foi maravilhosa.
O Greg tem umas mãos tão firmes. Ele tirou os fones. «Mãos firmes? »
— É para segurar o pincel, dar as pinceladas.
Subi para tomar banho. Pela primeira vez em dias, ri. No dia seguinte, fui ao advogado. Analisou os extratos, as imagens.
— O seu caso é sólido. Posso dar entrada no divórcio hoje. A casa fica consigo. Com estas provas, o aluguer que ele pagou sai da partilha.
Enquanto o advogado tratava da papelada, o aniversário de 30 anos do Mark aproximava-se. Ele estava empolgado como uma criança. Festa na piscina, convidados. Quando vi a lista, reparei que ele não tinha convidado nenhuma mulher da empresa — nem a Brenda, nem a chefe Clarissa, nem uma tal Tina.
Três mulheres, as três de fora. Não ia deixar passar. Entrei no LinkedIn de cada uma, mandei mensagem a dizer que era a esposa e que estava a organizar uma festa surpresa. Em duas horas, todas confirmaram.
Convidei também o Greg. No dia da festa, tudo pronto. Piscina, cerveja, música. Mark radiante.
Mas quando viu a Brenda a entrar pelo portão, o sorriso vacilou. Depois chegou a Clarissa, depois a Tina. Ele veio ter comigo baixinho:
— Rachel, porque é que há aqui gente que não estava na lista? — Amor, não ias convidar só homens?
Ia ficar mal. Chamei todas. Ele engoliu em seco. Depois apareceu o Greg.
Mark ficou com o maxilar travado, não disse nada para não parecer mal. A festa continuou. A cerveja fez efeito. Mark começou a falar alto:
— Aquele infeliz passa os sábados com a minha esposa.
Dá vontade de lhe encher de porrada. Greg fingiu não ouvir. Uns minutos depois, Mark olhou para mim e disse:
— O Greg tomou o chifre da mulher e agora quer roubar a minha para se vingar. A Brenda meteu-se:
— Estás com ciúmes, Mark?
— Não te intrometas na minha vida de casado. Ela encolheu-se, mas via-se que aquilo lhe doeu. Qualquer um percebia que não era uma reação de colega. Olhei para a cena e pensei: já que ele está a abrir portas, vou entrar.
— Mark, parece que a tua namoradinha ficou com ciúmes. — A voz calma. — Rachel, que parvoice. A Brenda é só colega.
— Tens a certeza? Porque colegas não passam a tarde a beber vinho e a trocar beijos. Tirei o telemóvel e mostrei as fotos. Mark de garrafa na mão, Brenda a abrir a porta, os dois a beijarem-se.
Os amigos congelaram. Mas antes de alguém reagir, ouvimos um barulho. A Tina tinha saltado para cima da Brenda dentro da piscina. — Sua falsa!
Eu contava-te tudo, e tu estavas a pegar-lhe pelas minhas costas! A Brenda cuspiu água:
— O caso dele contigo era só diversão. Três vezes no banheiro. Eu gostava dele a sério.
— Ele disse que eras fácil! — gritou a Tina. A Clarissa, a chefe, ficou imóvel com o copo na mão. Os colegas filmavam.
Alguém murmurou: «Se sai ao sol e faz sombra, o Mark pega. »
Esperei que as duas parassem de se afogar e olhei para o Mark. — Está acabado. Vou pedir o divórcio.
— Rachel, eu posso explicar. — Explica, então. Estou a ouvir. Toda a gente está.
Ele olhou em volta, viu que não tinha saída, e fez a pior coisa:
— Vocês mulheres não entendem. Homens têm necessidades. Nenhum homem se contenta com uma só mulher. Pergunta a qualquer um dos rapazes aqui.
O quintal ficou em silêncio. Ninguém abriu a boca. A mãe dele tapou o rosto. O irmão mais velho balançou a cabeça:
— Viste a mãe chorar anos quando o pai fez o mesmo, e fazes igual à tua mulher?
A mãe veio ter comigo:
— Desculpa, Rachel. Ele é igual ao pai. A família foi embora. A Clarissa pousou o copo:
— Tu, a Brenda e a Tina.
Estão todos demitidos. Não apareçam mais. Os amigos saíram um a um. Um deles disse: «Vacilaste.
» Outro passou sem dizer nada. A Tina saiu da piscina a chorar. A Brenda saiu com o cabelo desfeito e o rímel escorrido, passou por Mark sem olhar e foi para casa dela. Ficámos só nós três: eu, Mark e Greg.
Mark virou-se para Greg:
— Preciso falar com a minha mulher a sós. Vai-te embora. Greg olhou para mim. Eu disse: «Fica, Greg.
»
Mark mudou de tom. Olhos cheios de lágrimas. — Perdoa-me. Eu errei.
Foi uma fase. Eu amo-te. Podemos recomeçar. — Não, Mark.
— Quatro anos juntos, vais deitar tudo fora? — Quem deitou fora foste tu. A súplica desapareceu. Veio a raiva:
— Ah, já percebi.
Estás a ter um caso com este idiota. Estás a trocar-me por ele. — Mark, para. — E tu — virou-se para Greg —, estás a vingar-te porque eu peguei na tua ex-mulher?
Agora queres pegar na minha? Greg piscou os olhos, chocado:
— O quê? — Não finjas que não sabias. Greg olhou para mim depois para ele:
— Eu não sabia disso.
— E pelo olhar dele, vi que era verdade. Não tinha ideia. — Sai da minha casa, Mark. Tenho nojo de ti.
Ele fez um sorriso amargo:
— Vou sair mesmo. Vou morar com a Brenda, que é muito melhor na cama do que tu. Enfiou tudo numa mala e atravessou a rua para a casa dela. Mal fechou a porta, ouviram-se gritos.
Brenda não estava nada feliz com a visita surpresa. Greg trocou as fechaduras nessa noite. Ficámos a arrumar o quintal em silêncio. De vez em quando ouviam-se mais berros da casa ao lado.
Na segunda-feira, Mark foi notificado do divórcio em casa da Brenda. Clarissa demitiu os três. Mark levou semanas a arranjar outro emprego, mas o contrato do aluguer continuava — três anos, multa alta. As semanas seguintes foram um espectáculo.
Mark e Brenda brigavam todos os dias. Eu ouvia os gritos: ele a acusá-la de receber outros homens, ela a gritar que ele era um mentiroso. A ironia era tão boa que nem precisava de ligar a televisão. Em menos de dois meses, Brenda foi-se embora.
Vi a camioneta de mudança numa manhã de terça. Mark ficou na porta a vê-la ir. Uma semana depois, a Tina apareceu com uma mala. Estas mulheres não tinham amor próprio.
As aulas de pintura continuaram. Um sábado, o Greg sugeriu um café depois. No outro, um almoço. Depois um jantar.
Não tínhamos pressa. Mark via tudo da janela: eu a atravessar a rua com uma tela debaixo do braço, nós os dois na varanda a tomar café. O incómodo no rosto dele era visível. Aquele ciúme que nunca teve direito de sentir.
Meses depois, parou-me na calçada. Primeira vez que falava desde a festa. — Rachel, estou arrependido. Sempre te amei.
Cancela o divórcio. Dá-me uma chance. — E a Tina? — A Tina não é nada sério.
Olhei para ele — o mesmo homem que dissera que a Brenda era só colega, que a Tina era só diversão, que homem tem necessidades. Agora a Tina não era nada. — Mark, não dá para conversar. Eu e o Greg vamos sair.
O Greg apareceu na porta, de camisa nova, com as chaves do carro na mão. Mark ficou na calçada a ver-nos entrar. O divórcio saiu um ano depois. Pus a casa à venda e vendi rápido.
Na semana seguinte, o Greg apareceu ao jantar com uma caixinha na mão. O coração disparou. Não, não. Casamento outra vez?
Mal tinha assinado os papéis. — Abre — disse ele. Era uma chave. — Queres morar comigo?
Ri de alívio, quase chorei. — Quero, Greg. Mas não quero morar neste bairro. Não quero ver o Mark do outro lado da rua pelo resto da vida.
Ele sorriu como se estivesse à espera. — Tenho um apartamento no centro. Está sem inquilino há dois meses. Queres conhecer?
A vida é estranha. Numa hora confias no chão onde pisas. Na outra, descobres que o caminho certo estava do outro lado da rua este tempo todo. Nunca mais tive notícias do Mark.
Deve andar por aí, a seguir os instintos dele. O Greg era o vizinho perfeito. Como companheiro, é ainda melhor. Mas uma coisa não mudou: ainda pega nas minhas encomendas quando não estou em casa.
Só que agora a encomenda chega ao endereço certo.


