Estava na reunião da associação do bairro, a planear a festa junina, quando uma mulher sugeriu montar uma barraca do beijo. O marido dela, sentado ao lado, soltou:
— Boa ideia. Desde que não seja a minha mulher. Todos riram.

Eu, lá do fundo, soltei:
— É melhor que não seja mesmo. Imagina o surto de DST que vai dar na cidade. O silêncio que se fez naquela sala foi tão grande que se ouvia o cri-cri do grilo. Mas antes de continuar, deixa-me voltar atrás e contar como cheguei até ali.
Chamo-me Kellinda. Sim, Kellinda. Os meus pais foram criativos. A minha mãe gostava do nome Kelly, mas achava comum, então inovou.
Tenho 23 anos e trabalho como caixa num mercado da minha cidade, no interior de Minas Gerais, com 30 mil habitantes. Daquelas cidades onde tropeças na calçada e quando chegas a casa a tua mãe já sabe qual joelho ralaste. E eu, como caixa de um dos maiores mercados, estava no epicentro de tudo. O caixa do mercado é o confessionário do povo.
A pessoa chega para comprar uma coisinha e sai a contar que a vizinha está grávida do cunhado. E eu ali, a passar as compras, a ouvir tudo com cara de paisagem. O dono do mercado é o Jefferson. Um chefe tranquilo, sério no trabalho, mas justo.
Sempre me tratou bem. Deixava-me sair mais cedo quando precisava, nunca reclamou quando eu ficava dois minutos a conversar com os clientes. Faço croché desde os 15 anos. Aprendi com a minha avó.
Tapetes, toalhas de mesa, caminhos de mesa. O Jefferson comprava as minhas peças e vendia no mercado. Ajudava a complementar a renda. Moro com os meus pais.
Gente simples de igreja. A minha mãe cozinha todos os dias, o meu pai vê o jornal todas as noites. Rotina de quem é feliz sem precisar de muito. Foram criados na fé, na honestidade, com a convicção de que certas coisas só acontecem depois do casamento.
Agora deixa-me apresentar o Wenzo. O nome dele é Wenzo mesmo. A mãe era fã da Cláudia Raia, mas quis dar um toque especial: pôs W no início e dois E para ser diferente. O Enzo morava na rua de cima.
Eu era apaixonada por ele desde os 12 anos. Escrevia o nome dele no caderno com corações à volta. Ele era um ano mais velho, estudámos na mesma escola. Sabia que eu existia, mas não fazia questão de me cumprimentar.
Até que tirei o aparelho dos dentes, o cabelo colaborou, o corpo tomou forma de mulher. De repente, o Enzo começou a puxar assunto. Dez anos a ignorar-me e de repente queria saber o que eu ia fazer ao fim de semana. Começámos a namorar.
Para mim, foi a realização de um sonho de infância. Os meus pais gostavam dele. A família dele era conhecida do meu pai, gente honesta e trabalhadora. O meu pai dizia que para saber o caráter de um homem bastava olhar para a família.
O Enzo trabalhava como servente de pedreiro. Ganhava pouco, mas era dinheiro honesto. E, como disse, certas coisas só depois do casamento. Eu tinha o sonho de me casar pura.
Era a minha decisão e estava firme nela. No começo, o Enzo tentava uma mão boba aqui, outra ali, mas eu mandava parar e ele respeitava. Nem selinho dávamos. O nosso namoro era na sala de casa, com a minha mãe a passar de 15 em 15 minutos, fingindo que ia buscar água.
Oito meses depois, ele pediu-me em casamento. Aceitei na hora. Comecei a planear o casamento. Nada luxuoso.
Um bolo grande, um vestido bonito, uma festa com família e amigos no salão da igreja. Mas até um casamento simples custa dinheiro. Foi aí que tive a ideia da rifa. Cinco reais cada número.
Prémio: um conjunto de tapetes de croché feito por mim. Todo o bairro já tinha alguma peça minha em casa. Comecei a vender de porta em porta e o Jefferson deixou-me vender no mercado também. Quase todos os clientes que passavam pelo meu caixa levavam uma rifa.
O dinheiro foi entrando aos poucos. E o dinheiro eu entregava ao Wenzo para guardar. Eu não tinha conta no banco, mas ele tinha e dizia que no banco o dinheiro rendia alguma coisa. Ficou responsável por depositar e cuidar do nosso dinheiro.
Eu confiava nele. Um dia, uma cliente pagou a rifa com uma nota de cinco reais que tinha um desenho de um bilau feito com caneta esferográfica azul e, ao lado, escrito: “Para dar sorte”. Olhei para aquela nota e disse:
— Vamos ver se dá sorte mesmo. Rimos.
Guardei-a com as outras e, no fim do dia, entreguei tudo ao Enzo. Uns meses antes, um casal novo tinha chegado ao bairro: o Ubirajara, caminhoneiro, e a mulher dele, Jucislane, mais nova, bonita, simpática. Toda a gente a chamava Juju. Vieram de outra cidade.
Recebemo-los de braços abertos. A vizinha levou bolo, a minha mãe mandou um pote de doce de leite. Numa semana, a Juju já conhecia o bairro inteiro. O Ubirajara vivia a viajar.
Ficava dias, semanas fora. E a Juju ficava em casa sozinha. Um dia, a minha amiga chegou ao mercado e disse-me:
— Kelinda, vi o Enzo a entrar na casa da Juju e do Ubirajara agora à tarde. Peguei no telemóvel e mandei mensagem:
— Amor, o que foste fazer na casa da Juju?
Ele respondeu:
— Estou a fazer uns serviços. Uma parede precisa de reparo. Fez sentido. Era servente de pedreiro, fazia biscates o tempo todo.
Aceitei e segui. Dias depois, na minha folga, fui vender rifa de casa em casa. Toquei à campainha na casa da Juju. Ela abriu a porta com aquele sorrisão.
Mostrei a cartela, ela quis comprar. Foi buscar o dinheiro e voltou com uma nota de cinco reais. Peguei na nota e senti um aperto no peito. Tinha o desenho do bilau, a mensagem “para dar sorte”.
Forcei um sorriso, agradeci, guardei a nota e fui embora. Mas a minha cabeça não parava. Como é que aquela nota foi parar ali? Será que o Wenzo depositou no banco e, por coincidência, a Juju sacou aquela nota?
Quais as chances? Cheguei a casa, tranquei-me no quarto, sentei na cama a olhar para o desenho que agora parecia estar a rir-se de mim. Será que era um sinal divino enviado através de um desenho de bilau numa nota de cinco reais? A partir daquele dia, comecei a prestar atenção.
Não falei nada, não acusei ninguém, mas os meus olhos abriram-se. Percebi que o Wenzo já não insistia para ficarmos sozinhos. A ansiedade de noivo, aquela vontade que ele demonstrava antes, sumiu. Começou a dar desculpas para não ir namorar no sofá lá de casa: estava cansado, tinha acordado cedo, tinha serviço pesado no dia seguinte.
Reparei também que ele estava sempre a fazer serviços na casa da Juju. Toda a semana tinha algo novo. Ao mesmo tempo, vivia a reclamar que o serviço estava fraco, que estava a entrar pouco dinheiro. Um dia resolvi perguntar.
Pedi para ele me mostrar o extrato do banco. Queria ver quanto tínhamos juntado. Ele coçou a cabeça e disse:
— Amor, esqueci a senha do banco e o aplicativo bloqueou. Preciso ir ao banco resolver, mas não tenho tido tempo.
Engoli a justificativa. Quis acreditar. Precisava de acreditar. Porque se o que a minha mente gritava fosse verdade, significava que o homem que eu amava desde os 12 anos me estava a fazer de parva.
E eu não estava pronta para aceitar isso. Um dia, no caixa, apareceu a dona Filomena. Toda a cidade pequena tem uma dona Filomena. A senhora que sabe de tudo, vê tudo e conta tudo.
Morava mesmo em frente da casa da Juju. Ela pôs as compras no caixa e, enquanto eu passava os itens, inclinou-se no balcão e disse baixinho:
— Kelinda, posso contar-te uma coisa que tenho reparado? — Pode, dona Filomena. — Aquela casa da Juju tem movimento demais para uma dona de casa casada.
Parei o código de barras no ar. — Como assim, dona Filomena? — Menina, eu fico na minha janela e vejo tudo. Entram homens naquela casa o dia inteiro.
De manhã, de tarde. Às vezes dois, três homens diferentes no mesmo dia. E sempre quando o Ubirajara está a viajar. Engoli seco.
Continuei a passar as compras como se nada fosse, mas a minha cabeça estava a mil. — E a senhora conhece esses homens? — Alguns sim. O teu noivo já lá apareceu várias vezes.
— Mas dona Filomena, serão homens a fazer obras? O meu noivo está a prestar serviços, umas reformas na casa. Ela fez aquela cara de quem tem pena de explicar o óbvio:
— Minha filha, nenhum desses homens entra com saco de ferramentas naquela casa. Pagou, sorriu, agradeceu e saiu.
Ainda parou na porta para comentar que ia chover de tarde. Eu fiquei ali parada, com o mundo a desmoronar. Na noite seguinte, fui a casa de dona Filomena. Bati à porta.
Ela abriu com aquele sorriso de quem já esperava a visita. — Podia contar-me mais do que vê naquela casa? Ela puxou-me para dentro, fez café, sentou-se na cadeira da cozinha:
— Menina, moro nesta rua há 30 anos. Conheço o barulho de cada carro.
Quando a Juju e o Ubirajara chegaram, achei que era um casal normal. Mas depois de umas semanas, comecei a reparar que sempre que o Ubirajara saía de viagem, apareciam homens. Sempre homens, nunca mulheres. Entram sem mala, sem ferramentas.
Não é visita de serviço, nem de amigo. Não ficam muito tempo. Meia hora, 40 minutos, e vão embora. O meu estômago embrulhou.
— E o meu noivo? — Esse aparece bastante. Duas, três vezes por semana, sempre à tarde. Respirei fundo.
Ela olhou para mim com aqueles olhos de quem já viu muita coisa na vida:
— Minha filha, não quero meter-me na tua vida. Mas vejo-te todos os dias no mercado a vender rifas, toda feliz a planear o teu casamento. Dói-me ver o que vejo naquela casa, sabendo que estás aí iludida. Agradeci o café e ia saindo quando ela me chamou:
— Kelinda, espera.
O meu filho instalou umas câmaras de segurança aqui em casa. Tem uma que apanha a lateral da casa da Juju. Parece que fica tudo gravado no telemóvel. O meu coração disparou.
Ela pegou no telemóvel, entregou-mo e disse:
— Fica à vontade. Não sei mexer nessa porcaria. Abri a aplicação da câmara. Estava tudo lá.
No dia anterior, o Enzo a entrar na casa da Juju. A sair 40 minutos depois, com o cabelo molhado. No mesmo dia, outro homem a entrar e a sair 30 minutos depois, também com o cabelo molhado. Dois dias atrás, dois homens em horários diferentes.
Três dias atrás, o Enzo de novo, todo sorridente, e outros homens que fui reconhecendo. Maridos, pais de família, homens que via todos os dias no mercado com as esposas. A minha mão tremia a segurar o telemóvel. Queria gritar, queria ir lá e derrubar a porta daquela casa.
Mas não ia fazer nada disso. Respirei, engoli o choro e pensei: se fosse lá agora, seria a minha palavra contra a dela. Ela diria que aqueles homens estavam a prestar serviços. O Enzo confirmaria.
Eu ficaria como noiva ciumenta e barraqueira. Antes de ir embora, gravei o ecrã da aplicação. Cada parte que mostrava os homens a entrar e a sair. Voltei ao mercado no dia seguinte com outra cabeça.
Agora não era a Kelinda simpática do caixa. Era a Kelinda investigadora. Comecei a puxar assunto com as esposas dos homens que reconheci nos vídeos. Nada direto, nada acusatório.
Apenas a sondar. — Dona Suélen, o seu marido ainda atende em domicílio? — Ah, não, Kelinda. Agora está a trabalhar numa empresa.
Virou CLT. Para outra perguntei:
— O Genivaldo continua como encanador autónomo? — Não, agora está na obra do shopping. Trabalha o dia inteiro.
Nem tem tempo para almoçar. Fui juntando as peças. Aqueles homens não estavam a fazer serviços na casa da Juju. Escolhi duas esposas com quem tinha mais intimidade.
Chamei cada uma em separado, num canto reservado:
— Preciso de te mostrar uma coisa, mas preciso que fiques calma. Mostrei os vídeos. O marido de uma a entrar na casa da Juju numa quarta-feira às 10 da manhã. O marido da outra a entrar numa sexta às 3 da tarde.
A primeira ficou branca, sentou-se numa cadeira e ficou a olhar para o telemóvel sem falar. Dois minutos a processar. A segunda começou a tremer, os olhos encheram-se de água, tapou a boca com a mão e disse baixinho:
— Eu sabia. Sabia que havia qualquer coisa errada.
Nós três decidimos expor a Juju. Mas como? Bate-boca na rua? Espalhar fofoca?
Uma delas lembrou-se:
— No sábado há a reunião da associação do bairro para organizar a festa junina. Combinámos ficar quietas até lá. Agir normalmente. No sábado, o salão da igreja já estava cheio quando cheguei.
Cadeiras de plástico espalhadas, mesa com jarra de sumo e biscoitos de polvilho, ventilador de teto a fazer aquele barulho. Os meus pais sentaram-se lá na frente. Os pais do Enzo do outro lado. Dona Filomena no cantinho, quieta, com cara de quem veio assistir a uma novela ao vivo.
O Enzo chegou, sentou-se ao meu lado, deu-me um beijo no rosto e disse:
— Oi, amor. Sorri. Disse oi. Por dentro, as minhas mãos estavam geladas.
O combinado era esperar a reunião acabar e confrontar a Juju na hora dos comes e bebes. A reunião começou. O presidente abriu a falar sobre a festa junina. Datas, horários, quem cuidava do quê.
O pessoal dava sugestões, levantava a mão, opinava. Até que a Juju levantou a mão:
— E se a gente fizesse uma barraca do beijo? Algumas pessoas riram, outras acharam boa ideia. O Ubirajara, que estava sentado ao lado dela, soltou com um sorriso:
— Boa ideia, desde que não seja a minha mulher.
Todos riram de novo. A Juju deu um tapinha no braço dele, fingindo vergonha. O casal unido, o caminhoneiro brincalhão e a esposa simpática. Olhei para uma das minhas cúmplices.
Ela olhou para mim com aquela cara de “olha a audácia desta”. Respirei fundo e soltei lá do fundo do salão:
— É melhor que não seja mesmo. Imagina o surto de DST que vai dar na cidade. O silêncio que se fez foi tão grande que se ouvia o grilo.
Cri-cri. O ventilador parecia o único que ainda respirava. O Enzo virou a cabeça tão rápido que quase deslocou o pescoço. Nunca o tinha visto olhar para mim daquele jeito.
Assustado. Branco. — Kelinda, o que estás a fazer? — sussurrou.
Não olhei para ele. Os meus olhos estavam fixos na Juju. Ela levantou-se, caminhou na minha direção, parou à minha frente, apontou o dedo à minha cara:
— O que quiseste dizer com isso? Estás a dizer que eu tenho doenças?
Quem é que pensas que és para me acusar disso? Levantei-me devagar, olhei-a nos olhos e falei firme:
— Sei que recebes vários homens em tua casa enquanto o Ubirajara está a viajar. O salão inteiro prendeu a respiração. O Enzo ficou mais branco.
O meu pai inclinou-se para a minha mãe e sussurrou. Vi a minha mãe arregalar os olhos. A Juju cruzou os braços e deu uma risada forçada:
— De onde tiraste isso? Tens provas?
Porque acusação sem prova é calúnia. Levantei o telemóvel no ar:
— Tenho sim. Queres que mostre a toda a gente? O rosto dela mudou.
A arrogância deu lugar ao desespero. Ela avançou para cima de mim, tentando agarrar o telemóvel. Puxei o braço para trás. A minha cúmplice levantou-se e ficou à frente dela.
O Ubirajara, do outro lado do salão, levantou a voz:
— Juju, se não tens nada a esconder, porque estás a tentar agarrar o telemóvel da menina? Silêncio. Caminhei até o Ubirajara e mostrei os vídeos. Ele pegou no telemóvel e foi assistindo.
A cada vídeo, o rosto dele mudava. Ele reconhecia os homens. Começou a falar em voz alta, apontando:
— Genivaldo! — olhou para o meio do salão.
— O que foste fazer à minha casa? O Genivaldo baixou a cabeça. A esposa olhou para ele à procura de respostas. — Marcos também!
— O Ubirajara passou para o próximo vídeo. — Marcos, emprestei-te dinheiro no mês passado, seu desgraçado. Marcos não levantou os olhos do chão. — Até tu, Melquíades?
O Ubirajara devolveu o telemóvel e esfregou o rosto com as duas mãos. O salão virou um tribunal. Gritos, choro, xingamentos. Mulheres a apontar para os maridos.
Maridos a tentar explicar. A Juju parada perto da parede, sem ter para onde fugir. O Ubirajara virou-se para ela com os olhos vermelhos:
— Juju, o que é que esses homens estavam a fazer na minha casa enquanto eu estava na estrada a trabalhar? Ela ficou calada por uns segundos.
Depois cruzou os braços:
— Foram fazer uns serviços lá em casa. Reformas, consertos, essas coisas. — Que serviços, Juju? A casa está igual.
E o Melquíades é jardineiro. Nós nem temos jardim. Foi lá fazer o quê? Aparar a tua relva?
Ela deu aquele risinho de deboche e depois fez a coisa mais inesperada. Abriu um sorriso e disse:
— Eu estava a trabalhar, meu amor. A ganhar dinheiro. Achas que os 500 reais por mês que me davas eram suficientes?
Queria comprar as minhas roupas, as minhas bolsas. Com 500 reais não compro nenhum sapato decente. Então fui ganhar dinheiro à minha maneira. O salão explodiu.
Mulheres a gritar. Maridos a querer sumir. O Ubirajara a tremer de raiva. — Não mudaste nada — disse ele com a voz quebrada.
— Tirei-te daquela vida. — Tiraste-me daquela vida e puseste-me a viver como dona de casa no meio do nada. Muito obrigada, meu herói. Sempre foste um idiota, Ubirajara.
Achaste que eu ia ficar a limpar a casa e a cozinhar enquanto tu guiavias o camião? O coitado estava destruído. Mas o pior ainda estava para vir. — Sabes que mais?
— continuou ela. — Foda-se o que pensas, seu velho babaca. Já tenho outra pessoa. Vou embora com o Josevaldo.
Todos olharam para o Josevaldo, motorista de autocarro que estava ali no canto, a achar que tinha escapado. A esposa dele, que até agora se ria e cochichava com a vizinha a aproveitar o barraco alheio, parou de rir na hora. O Josevaldo engasgou, ficou vermelho, olhou para a esposa, olhou para a Juju, olhou para a esposa de novo:
— Eu nunca disse isso. É mentira dela.
A esposa do Josevaldo não quis saber de explicações. Levantou-se e encheu-o de bofetadas ali mesmo, à frente de toda a gente. Ele levantou-se, a proteger-se com os braços, a repetir “é mentira”, enquanto ela o empurrava para fora do salão. Ainda se ouviram os gritos e as palmadas do lado de fora.
A Juju ficou parada, a olhar para a porta. O plano B tinha acabado de sair a correr, a levar bofetadas da esposa. O Ubirajara disse:
— Saíste da minha casa hoje. Ela recompôs-se rapidamente:
— Não vou sair.
Tenho direito a metade daquela casa. Ele riu. Uma risada cansada de quem já não aguenta:
— Então fala com o dono. Menti-te.
A casa não é minha. É alugada. A cara dela nessa hora foi a melhor coisa que vi na vida. Toda a arrogância, todo o deboche, toda a pose desmoronaram em dois segundos.
— És um pobre, um desonesto! — gritou ela. As mulheres do bairro começaram a xingá-la. Ela ainda tentou defender-se:
— Não percebo porque estão a xingar a mim e não os vossos maridos.
Eles é que estão errados. O Ubirajara, com a voz pesada, falou para o salão inteiro ouvir:
— Peço desculpas a todos. Tirei esta mulher da zona. Mudei de cidade para ela ter uma vida nova.
Ela continuou a fazer aqui a mesma coisa que fazia lá. Silêncio pesado. — Ela saiu da zona, mas a zona nunca saiu dela — completou. A Juju olhou em volta.
Não havia um rosto amigo naquele salão. Pegou na bolsa, caminhou até à porta e disse antes de sair:
— Esta cidade é um porre. Vou embora desta merda. E foi-se embora.
O Enzo, que até então estava quietinho ao meu lado, puxou-me pelo braço e sussurrou:
— Vamos embora daqui, Kelinda. Olhei para ele. Aquele era o menino cujo nome eu escrevia no caderno com corações à volta. O homem para quem eu guardei o que tinha de mais precioso.
E ele achava que ia sair dali ileso. — Sei que tu também ias lá, Enzo. Estás nos vídeos. O rosto dele desmoronou.
Abriu a boca, fechou, abriu de novo:
— Kelinda, escuta. Eu amo-te. És a mulher que quero como esposa. Mas sou homem.
Tenho necessidades. Não aguentava mais esperar. — Eram apenas alguns meses. Eu estava a juntar dinheiro para o nosso casamento.
— Pois, mas estava a demorar muito. Querias juntar dinheiro para uma festa ridícula que não tinha necessidade. Podíamos casar no cartório e almoçar fora com a família. — E o que fizeste com o meu dinheiro, Enzo?
Cadê o dinheiro que te dei para depositar? Ele ficou quieto, engoliu seco:
— Tive de usar. Umas contas atrasadas, mas ia-te devolver tudo. — Contas atrasadas?
E como pagavas os servicinhos da Juju? Rebocando a parede da casa dela? Não respondeu. Não precisou.
E de repente, um sopapo na cabeça dele. O Enzo levou a mão à nuca e virou-se. Era o pai dele. A mãe do lado, a chorar.
— Seu vagabundo. É assim que te criei? Para roubar dinheiro da noiva e gastar com mulher da vida? A mãe puxou-o pela orelha como se ele tivesse dez anos:
— Tenho vergonha de ti, Wenzo.
Vergonha. Os meus pais chegaram logo atrás. O meu pai sério, calado. A minha mãe com os olhos cheios de água.
O pai do Enzo olhou para o meu pai, tirou o boné:
— Desculpa, Josué. Desculpa. Não criei o meu filho para isto. Vamos devolver cada centavo que ele tirou da tua filha.
O meu pai apertou-lhe a mão:
— Sei que não tens culpa, Cícero. O Enzo olhava para baixo, vermelho de vergonha. Depois levantou os olhos e olhou para mim com aquela cara de cão arrependido. A cara que antes me derretia.
Não dessa vez. Tirei o anel de noivado do dedo e atirei-lho à cara:
— Vai para o inferno, seu idiota. A minha mãe veio até mim. Não disse nada.
Apenas me abraçou. E ali, finalmente, chorei. A reunião acabou ali. Ninguém mais falou de festa junina, de barraca de comida, de correio elegante.
O presidente tentou retomar a pauta, mas desistiu quando viu que metade das cadeiras estava vazia e a outra metade estava de pé a gritar. O salão da igreja virou campo de batalha. Cada casal saiu de um jeito. Esposas a arrastar os maridos pelo braço.
Maridos a jurar que era mentira, que nunca tinham posto os pés naquela casa. Esposas a chorar, a xingar. Maridos a pedir desculpas de mãos juntas ou a andar atrás da esposa como cães que sabem que fizeram asneira. Do lado de fora, o Josevaldo ainda levava raspanete da esposa, encostado ao poste.
O Genivaldo saiu quase a correr com a mulher atrás. O Melquíades estava sentado no meio-fio, sozinho, com a cara nas mãos. Dona Filomena saiu por último. Calminha.
Ajeitou a bolsa no ombro, olhou para mim e deu uma piscadela. Como quem diz: a noite foi muito divertida. No dia seguinte, a rua da Juju estava vazia. A casa fechada, cortinas fechadas.
Dona Filomena, que obviamente já estava na janela às seis da manhã, contou-me depois que viu o Ubirajara a sair de madrugada, a pôr as malas no camião. Foi-se embora sem olhar para trás. A Juju saiu horas depois com duas malas, entrou num carro e foi embora. Nenhum dos dois se despediu de ninguém.
Nenhum deixou recado. Sumiram da cidade como apareceram. Chegaram há um ano, viraram o bairro ao contrário e foram-se embora, deixando o estrago para limparmos. O bairro ficou em polvorosa nas semanas seguintes.
Os casais entraram em crise. Maridos a dormir no sofá, na casa da mãe, no carro. As mulheres dividiam-se entre as que queriam perdoar e as que queriam matar. O salão de beleza nunca atendeu tanta mulher a querer mudar o visual.
Cortar o cabelo, pintar de loiro, fazer as unhas. Vingança estética. O Josevaldo e a esposa continuaram casados. Ele jurou de pés juntos que a Juju tinha inventado aquela história.
A esposa fingiu que acreditou, mas toda a gente sabia que nunca mais confiou completamente. Até hoje, quando o Josevaldo chega cinco minutos atrasado a casa, tem de apresentar relatório completo do trajeto. Alguns dias depois, o Enzo apareceu no mercado. Veio até ao meu caixa com aquela cara de arrependido:
— Kelinda, preciso de falar contigo.
Sei que errei, fui fraco, mas amo-te. Podemos tentar de novo. Casa comigo no cartório, sem festa, sem nada. Só eu e tu.
Olhei para ele:
— Enzo, estou a trabalhar. Devias fazer o mesmo e pagar ao teu pai o dinheiro que ele me devolveu. Vai embora. — Mas Kelinda, estavas de cabeça quente naquele dia.
Já passaram uns dias. Vamos conversar com calma. — Não quero conversar contigo. Vai embora.
Ele não foi. Ficou parado à frente do caixa, a segurar a fila, a insistir. Os clientes atrás começaram a ficar impacientes. Foi quando o Jefferson apareceu.
Saiu do escritório, caminhou até ao caixa e disse firme:
— Estás a incomodar a minha funcionária e os meus clientes. Vai embora ou chamo a polícia. O Enzo olhou para o Jefferson, olhou para mim e foi embora de cabeça baixa. Depois disso, ainda tentou mais duas vezes.
Mandou mensagem, apareceu à porta de minha casa. O meu pai pô-lo a correr. Nunca mais apareceu. Continuou a morar no bairro, a trabalhar como servente de pedreiro, mas nenhuma moça que sabia da história queria nada com ele.
O menino bonito da rua de cima virou o parvo que gastou o dinheiro da noiva para pagar a prostituta. Claro que fiquei triste. Não é fácil descobrir que o sonho da tua vida era um pesadelo disfarçado. Mas a vida seguiu.
O mercado, os clientes, o croché. Dona Filomena continuou a vir todos os dias, a contar-me as fofocas. Agora que a Juju tinha ido embora, estava sem o entretenimento principal e teve de voltar a fazer caminhadas para encontrar novas fofocas. Três meses depois, na semana seguinte àquela confusão, marcaram outra reunião para organizar a festa junina.
Dessa vez com menos gente. Muita gente não teve coragem de aparecer. Faltaram voluntários para quase tudo. O Jefferson, que nunca se tinha envolvido com eventos do bairro, ofereceu-se para ajudar.
No dia da festa, eu estava na barraca de pastel. O Jefferson estava lá comigo, a fritar pastéis, a atender o povo, a cobrar os trocos. Naquele cenário de festa junina, com cheiro de pastel e som de forró no fundo, vi um Jefferson que não conhecia. Ria, contava piadas, brincava com as crianças.
Completamente diferente do chefe sério e reservado que eu via no mercado todos os dias. Num intervalo, ele virou-se para mim e perguntou:
— Kelinda, queres dar uma volta na festa comigo? Olhei para ele e sorri:
— Quero. Saímos a andar pela festa.
Jogámos argolas, comemos espetinhos, bebemos quentão. Ele ganhou um ursinho na barraca de tiro e deu-mo. Fazia tempo que não me divertia assim. Parámos na barraca de maçã do amor.
Ele comprou duas e deu-me uma. Peguei na maçã e fiquei a olhar para ele. Ele olhou para mim. Naquele momento, no meio da festa junina, com forró a tocar e cheiro de pipoca no ar, senti que qualquer coisa tinha mudado.
Foi quando reparei no Enzo parado ali perto, a olhar para nós. Ficou ali, sem saber o que fazer. Dona Filomena, que passava naquele exato momento, olhou para o Enzo, olhou para nós e soltou com aquela voz debochada:
— Perdeu-se, playboy. E saiu a andar, a rir sozinha.
O Enzo foi embora de cabeça baixa, sem dizer nada. Semanas depois, o Jefferson declarou-se. Disse que gostava de mim há muito tempo, mas que nunca ia falar nada enquanto eu estivesse com o Enzo. Antes de qualquer coisa, foi a minha casa falar com o meu pai.
Pediu permissão para me namorar. O meu pai olhou para ele, olhou para a minha mãe. O Jefferson tinha 35 anos, eu 23. Doze anos de diferença.
O meu pai pensou, pensou e disse:
— Se a minha filha está feliz, eu estou feliz. A minha mãe serviu café com bolo de fubá. Estava aprovado. E eu continuei a ser caixa do mercado.
Não era porque namorava o chefe que ia virar dona. Passei a vida inteira a desejar tanto o Enzo que, quando finalmente o consegui, não prestei atenção a nada. Não vi os sinais, não vi as mentiras, não vi o que estava à minha frente. Quando desejamos uma coisa durante muito tempo, apaixonamo-nos pelo desejo, não pela pessoa.
Hoje, com o Jefferson, entendi a diferença. O que sentia pelo Enzo era um sonho de criança. O que sinto pelo Jefferson é amor de mulher. E nunca tinha sentido isso antes.
A minha avó, a mesma que me ensinou croché, costumava dizer: às vezes a vida tira-te o que pediste para te dar o que mereces. E foi a mais pura verdade. A nota dos cinco reais com o desenho do bilau ainda está comigo. Guardo-a na gaveta da mesinha de cabeceira.
Não como dinheiro, mas como amuleto. Porque foi aquela nota que me abriu os olhos. A vida mandou-me um sinal e mandou-o da maneira mais inusitada possível: através de um desenho de bilau numa nota de cinco reais.
Quem disse que alguém lá em cima não tem sentido de humor?


