Eu estava sentada no fundo de um auditório cheio. A mulher no palco falava de ética. Bonito discurso. Mas aquela mulher ia para a cama com o meu marido.

Reconheceu-me na plateia, sorriu, cumprimentou-me pelo nome, educada, simpática, como se nada se passasse. Eu sorri de volta. Peguei no microfone e fiz a pergunta que pôs o auditório em alvoroço. Mas deixa-me recuar um pouco.
Não acordei naquela manhã decidida a armar confusão. Sou Diane, tenho 32 anos e sou advogada. Tenho um escritório de advocacia cível numa cidade do interior. Pequeno, honesto, com clientela fiel.
Vim de uma terra pobre, com uma bolsa de estudo, uma mala e uma promessa à minha mãe: “Mãe, vou ser alguém e mandar-lhe dinheiro todos os meses. ” Cumpri. Sou daquelas advogadas que discutem com juiz em audiência, que batem na mesa do procurador. No tribunal, umas respeitam-me, outras acham-me briguenta.
Não me importa. Advogada que ganha causas é competente. A Gorete é minha secretária há sete anos. É o meu braço direito, o meu café das oito e o meu radar para mentiras.
Fala o que pensa. Casei-me com o Bráulio há quatro anos. É corretor de imóveis, bonito de verdade: alto, moreno, sorriso aberto. Conheci-o quando procurava casa.
Comprei a segunda e veio o corretor de brinde. Vivíamos bem, sem dramas. Até que ele chegou a casa entusiasmado:
“Di, preciso de te dizer uma coisa. Quero fazer Direito.
Quero formar-me, inscrever-me na Ordem dos Advogados e trabalhar contigo. ”
Apoiei. Ajudei-o a estudar para os exames de acesso. Passou numa faculdade particular.
Curso noturno, das 19h30 às 22h30. Nos primeiros meses, chegava a casa a falar das aulas, dos professores, dos colegas. Eu achava bonito vê-lo entusiasmado. Passado um ano, a rotina apertou.
Víamos-nos menos, mas faltava pouco. Um dia apareceu no escritório uma rapariga a pedir estágio. Maria, 23 anos, estudante de Direito. Boas notas, postura impecável, falava bem.
Estudava na mesma faculdade do Bráulio, um semestre abaixo. Gostei dela e contratei-a. No jantar, comentei:
“Contratei uma estagiária nova. Estuda na tua faculdade.
”
O Bráulio nem levantou os olhos do prato. “Ah, que bom. Como se chama? ”
“Maria.
”
“Maria. Não conheço nenhuma Maria. ”
Na semana seguinte, ele apareceu no escritório para me buscar. Abriu a porta, viu a Maria sentada na recepção e congelou.
Ela sorriu:
“Maria Bianca. As pessoas chamam-me Bia. Conheço o Bráulio da faculdade. ”
Ele engoliu em seco.
“Pois é. Conheço-a como Bia. ”
Foi um cumprimento rápido, constrangido, e já me puxava para o jantar. Os meses passaram.
A Maria era uma excelente estagiária: pontual, organizada, inteligente. A Gorete não gostava dela. Perguntei-lhe porquê. “Não sei, doutora.
O olho esquerdo treme quando ela entra. Aquela rapariga tem qualquer coisa. ”
Achei ciúmes. A Gorete era a única funcionária há sete anos.
Um dia, ao almoço, o Bráulio disse:
“Na quarta-feira há uma palestra na faculdade. A professora Isadora Pinto vai falar sobre ética. ”
“Conheço-a de vista, dos tribunais. Sabes que é casada com o reitor?
”
Ele ficou a olhar para o copo. “Não sabia. ”
E mudou de assunto. Na semana seguinte, a Maria bateu à porta do meu gabinete.
“Doutora, posso falar em particular? ”
Sentou-se, hesitou, tirou o telemóvel. “Receba estas fotos. ”
Enviou-me tudo.
Bráulio e Isadora no estacionamento da faculdade. O carro dele a entrar num motel. Os dois a sair. Data e hora.
“Vi-o mais do que uma vez. Achei que a senhora precisava de saber. Nenhuma mulher enganada merece ser a última a saber. Sororidade.
”
Fiquei gelada. A vontade era levantar-me da cadeira, ir ali e arrancar-lhe os olhos. Mas ouvi a voz da minha mãe: “Diane, respira. ” Agradeci à Maria.
Ela saiu. A Gorete entrou com café. “Doutora, quem morreu? ”
“Ninguém ainda.
”
“Se precisar de uma pá, eu vou buscá-la. ”
Então lembrei-me: a palestra era hoje. O coração disparou. Liguei para a secretaria da faculdade.
A Gorete viu-me. “Essa cara eu conheço, doutora. É a mesma de quando vai ganhar uma causa. ”
Sorri sem responder.
“Vou só assistir a uma palestrinha sobre ética. ”
Passei a tarde sem conseguir trabalhar. Às 18h30, peguei na bolsa, passei batom e saí. “Boa palestra, doutora”, disse a Gorete, sem tirar os olhos do ecrã.
“Obrigada. Se correr mal, leva a pá. ”
Entrei no carro. Cheguei às 19h10.
O auditório estava cheio. O reitor estava na primeira fila, impecável, orgulhoso da mulher. O Bráulio estava numa fileira do meio, a rir com colegas. A Maria estava num canto.
Sentei-me na última fileira, perto da saída. Às 19h45, Isadora Pinto subiu ao palco. Bonita, elegante, mas não mais bonita do que eu. Começou a falar de ética, integridade, relações de poder.
O Bráulio não tirava os olhos dela. Até a filmou com o telemóvel. Eu via tudo. No fim, abriu para perguntas.
Levantei a mão. O microfone chegou ao meu lugar. Ela viu-me e sorriu. “Doutora, que prazer tê-la aqui.
”
“O prazer é meu. Tenho uma pergunta: o que acha de um relacionamento entre professor e aluno? É ético? ”
O sorriso encolheu.
“Há uma assimetria de poder. Na minha opinião, não é ético. ”
“Então, se não é ético, porque é que a senhora está a dormir com o meu marido? ”
O auditório prendeu a respiração.
O Bráulio levantou a cabeça, virou-se, viu-me e congelou. Isadora reagiu:
“Isso é difamação. Vou processá-la. ”
“Pode processar.
Mas eu tenho provas de que a senhora sai com o meu marido em horário de aula. E posso enviá-las já para o reitor, aqui presente. O reitor é meu cliente, talvez a senhora não saiba. ”
Foi aí que uma voz gritou do meio da plateia:
“O Bráulio anda a dormir com a professora!
”
Era a Maria. O auditório explodiu. A Isadora levou a mão à testa, revirou os olhos e caiu no palco. Teatro puro.
Só faltou a música dramática. Um rapagão umas filas atrás do Bráulio levantou-se. “Então é verdade, Bráulio? ”
“Calma, Mateus, eu explico.
”
O soco veio antes da explicação. Cadeiras a cair, gritos, gente a separar. E os comentários começaram:
“O Bráulio e o Mateus são os únicos com nota máxima a ética. ”
“Ela nunca dá mais de quinze ao resto da turma.
”
“Eu estudei duas semanas e tirei seis! ”
“Então era preciso comer a professora para passar? ”
A briga acabou. O Bráulio ficou de pé, lábio cortado, camisa rasgada.
A Maria aproximou-se e pôs-lhe a mão no ombro. Ele gritou:
“Sai de perto de mim, sua escrota. Nunca mais quero ver a tua cara. Nunca mais tiras um centavo de mim!
”
Eu estranhei. Ele veio na minha direção, apontou o dedo. “Estás contente, Diane? Precisas mesmo de fazer isto na frente de toda a gente?
”
“Eu só vim assistir à palestra da tua professora favorita. ”
“Tu és uma cínica. Fria, grossa, insuportável. Traí-te, sim.
A Isadora é uma mulher delicada, feminina, elegante. Tu és uma briguenta que nenhum homem aguenta. ”
Engoli cada palavra. Não lhe dei o gosto de me ver chorar.
“Então explica-me lá o que foi aquilo com a Maria. ”
“Queres saber? A tua estagiária é uma chantagista. Tive um caso com ela antes da Isadora.
Ela andava obcecada. Descobriu que eras minha mulher e arranjou o estágio contigo de propósito. Quando acabei com ela, começou a pedir-me mil euros por mês para não te contar. Eu pagava.
A tua amiga da sororidade. ”
Olhei para a Maria, do outro lado do auditório. Chorava, mas não era o choro de quem estava arrependida. Era o choro de quem tinha sido apanhada.
A Gorete tinha razão. O olho esquerdo tremia. Foi nesse momento que vi a Isadora a sair. O Bráulio correu atrás dela, empurrando gente.
“Isadora, espera! Eu largo a faculdade, largo tudo. Agora podemos ficar juntos! ”
Ela olhou para ele.
“Larga-me, seu animal. Achas que queria alguma coisa a sério com um Zé Ninguém como tu? Olha-te ao espelho. ”
Empurrou-o e foi-se embora.
Os alunos riram, filmaram. O Bráulio ficou sozinho, de lábio cortado, a ver a mulher que ele achava que era o grande amor ir-se embora. Sem esposa, sem amantes, sem amigos, sem dignidade. Peguei na minha bolsa e saí.
No estacionamento, uns alunos vieram ter comigo. “Doutora, dá para processar a faculdade por causa das notas? E a professora? ”
Abri a bolsa e distribui cartões de visita ali mesmo, à luz do poste.
Entrei no carro, liguei o motor. As mãos tremiam. Liguei ao chaveiro:
“Preciso de mudar as fechaduras de casa hoje, agora. ”
Chegou em vinte minutos.
Troquei as duas fechaduras. Quando o Bráulio chegou, ouvi a chave a girar, a falhar, a insistir. Depois a campainha. “Di, a chave está emperrada!
”
Abri a janela. “Mudei as fechaduras. Esta casa é minha. Aqui não entras mais.
”
“Mas as minhas coisas? ”
Subi, abri o roupeiro e atirei tudo pela varanda. Camisas, calças, fatos, sapatos, cintos. Ele apanhou tudo do chão e enfiou no carro.
Uma vizinha abriu a janela para assistir. Quando acabei, olhei lá de cima. “Agora vai-te embora ou chamo a polícia. ”
Foi.
Na manhã seguinte, cheguei ao escritório às oito. A Gorete estava lá, café pronto. “Bom dia, doutora. Como foi a palestra?
”
“Produtiva. Liga à Maria, manda-a vir buscar as coisas e assinar a rescisão do contrato de estágio. ”
“O quê? ”
“A Maria chantageava o Bráulio.
Teve um caso com ele antes da Isadora. Arranjou o estágio de propósito. Cobrava-lhe mil euros por mês para não contar. ”
A Gorete ficou em silêncio três segundos.
“Doutora, está mesmo a dizer que a professora se chama Isadora Pinto? ”
“Sim, Gorete. Mas olha que o nome é o menor dos problemas. ”
Aceitou a resposta, ligou à Maria.
A Maria veio no fim da tarde, calada, pegou nas coisas, assinou a rescisão sem ler. À porta, tentou:
“Doutora, eu explico. ”
“Não precisas. Podes ir.
”
A Gorete segurou a porta. “Adeus, querida. Até nunca. ”
Entrei com o divórcio na mesma semana.
Casámos com separação total de bens. Não havia nada para dividir. Ele nem apareceu na audiência. Sem o meu ordenado em casa, a vida apertou.
Cortou a faculdade. O sonho de ser advogado morreu na mesma noite em que o auditório todo soube quem ele era. Ficou apenas o corretor com um corte no lábio e uma história que ninguém na cidade esquecia. A Maria tentou arranjar outro estágio.
Mas o mundo jurídico é pequeno. Quando ligavam a pedir referências, eu respondia com toda a educação:
“Maria Bianca? Trabalhou comigo. Não é de confiança.
”
Três palavras e uma sentença. Não conseguiu mais nada na cidade. Acabou por encontrar um lugar a duas horas de distância. Quatro horas de viagem por dia, dentro de um autocarro.
Mil euros de chantagem não compensaram, pois não? A Isadora perdeu o cargo. O reitor divorciou-se em silêncio, como tudo o que fazia. Ela continuou a advogar, mas nos tribunais ninguém esquece.
Sempre que entrava numa sala, havia cochichos. A professora de ética tornou-se sinónimo de falta de ética. Eu fiquei com os processos dos alunos contra a faculdade. Fraude académica, favorecimento de notas, prejuízo.
Ganhei dezenas. O escritório cresceu. Contratei uma nova estagiária, e a Gorete fez questão de a entrevistar comigo. “Se o meu olho esquerdo tremer, ela não entra.
”
Não tremeu. A rapariga ficou. A faculdade chegou a convidar-me para ser advogada da instituição. O reitor ligou-me:
“A senhora é das melhores advogadas da cidade.
Prefiro tê-la do meu lado do que contra mim. ”
Agradeci e recusei. “Gosto de onde estou. Gosto de lutar pelas pessoas.
Foi para isso que me formei. ”
Virei, sem querer, a advogada das mulheres traídas. Paravam-me na rua:
“Doutora, o meu marido também me traiu. Aceita o meu caso?
”
Aceitava. Na eleição seguinte, candidatei-me a vereadora. Campanha de porta em porta, com um capacete de viking e a Gorete ao meu lado a distribuir panfletos. Ganhei por maioria esmagadora.
Hoje, a Gorete é minha assessora. Levo-a comigo para toda a parte. Não é só porque é competente: é porque tem um radar para gente falsa que nunca falha. Antes de cada reunião, olha para a sala e diz-me:
“Doutora, o olho esquerdo está parado.
Pode entrar. ”
E eu entro a rir. Mas se um dia aquele olho começar a tremer, sei que vou ter outra guerra para travar.
E ainda bem.


