Eu estava parada junto ao estacionamento da empresa, a ver o meu noivo ser humilhado por uma mulher diante de dezenas de colegas de trabalho. A melhor parte foi quando ela lhe acertou um pontapé nas partes. Segurei o riso. Tinha de parecer chocada, devastada, a noiva traída que descobria tudo naquele exato segundo.

Enquanto o meu agora ex-noivo ficava caído no asfalto, encolhido, a gemer, algo ainda mais surreal aconteceu. Mas calma. Deixem-me voltar ao início, porque antes de terem pena dele, é preciso saber o que ele me fez. Chamo-me Luía, tenho 28 anos.
Conheci o Júnior há dois anos, na mesma empresa, em andares diferentes. Eu era analista financeira, ele assistente comercial. Já dava para ver a diferença, mas na época achei bonito. Ele era simpático, falador, daqueles que conversa com toda a gente e sabe o nome do porteiro.
Começámos a namorar, um ano e meio cada um na sua casa. Ele morava em Guarulhos com os pais. Eu tinha o meu apartamento alugado em São Paulo, perto do trabalho. Ele gastava três horas por dia dentro do carro, entre ir e voltar.
Três horas. Eu morava a quinze minutos. Foi ele que propôs morarmos juntos. Achei maduro, achei certo.
Na semana seguinte, mudou-se para cá. Trouxe duas malas, uma caixa de copos de cerveja personalizados e a consola. Três meses depois, pediu-me em noivado num McDonald’s. Meteu a aliança dentro de um sundae de morango e ficou à espera que eu comesse.
Nem se ajoelhou. Eu estava apaixonada. Tirei a aliança da boca, limpei-a no guardanapo e disse que sim, a chorar. Era uma argolinha simples, daquelas de quiosque.
Na altura achei romântico. Um mês depois, vendeu o carro. Disse que a garagem do prédio só tinha uma vaga. Passou a usar o meu para tudo.
As contas ficaram todas no meu nome. Ele transferia o que achava justo. Um dia mandou-me cento e cinquenta reais para as compras e disse, com a cara mais lavada do mundo: «Tá bom assim, né? Eu como bem menos que você.
»
Eu ganhava quase o dobro dele. Ele dizia que devíamos dividir proporcionalmente ao que cada um ganhava. E eu, analista financeira, deixava passar. Porque o amava.
Porque estávamos a construir uma vida. Olha que idiota. Aos domingos, ele chamava os amigos para ver o jogo. Eu fritava pastéis e lavava copos, e eles, sentados no meu sofá, a comer a minha comida, diziam: «Júnior, difícil achar mulher assim.
Quando eu crescer, quero uma mulher dessas. » E ele ria, como quem tinha ganho um prémio. Como se eu fosse um troféu. E eu saía da sala toda convencida, a achar que aquilo era elogio.
Há quatro meses, chegou a casa entusiasmado. Ia fazer uma pós-graduação em gestão comercial, segunda, quarta e sexta, das sete às dez da noite. Fiquei orgulhosa. Achei que finalmente queria crescer.
A partir daí, começou a malhar mais, comprou roupa nova, perfume importado. «A pós-graduação deu-me gás, amor», dizia ao espelho. Pouco depois, chegou com outra novidade: ia passar dois fins de semana por mês na casa dos pais, para ajudar o pai com uma reforma na casa. «Não quero ser o tipo de filho que sai de casa e se esquece dos pais.
» Dei-lhe um abraço, emocionada. Que homem dedicado. Ele ainda disse: «Vou sozinho, mas tu aproveita, descansa, vai ver a tua mãe. » E assim começou.
Havia uma coisa que me incomodava. Ele quase nunca atendia o telemóvel ao fim de semana. Dizia que a casa dos pais tinha mau sinal de rede. Eu acreditava.
Então chegou o fim de semana que mudou tudo. Sexta à noite, saiu a dizer que ia ajudar o pai a montar uns móveis. A minha mãe tinha viajado, por isso fiquei em casa. Sábado de manhã, acordei, fiz café e abri o Instagram.
E vi um story da tia Marlene, tia do Júnior. Uma foto no aeroporto, embarque internacional, com os pais dele ao lado. Legenda: «Finalmente a viagem dos sonhos com a minha irmã e o meu cunhado. Portugal nos espera.
»
Fiz zoom. Conferi a data. Era a tia, era a dona Cleide, era o seu Valdomiro. Os três a embarcar para Portugal.
O pai do Júnior, que ele supostamente estava a ajudar a montar móveis, estava num avião. Calma, Luía, pensei. Talvez ele tenha ficado sozinho na casa, a fazer o trabalho. Mas se os pais tivessem marcado uma viagem internacional, ele teria comentado.
Mandei-lhe uma mensagem casual: «E aí, amor? Como está a montagem dos móveis? » Respondeu em dois minutos: «Nossa, tá difícil. Estamos aqui quebrando a cabeça com um armário.
Meus pais mandam um beijo. »
Foi naquele segundo que percebi que estava a ser enganada. Fiquei parada na cadeira da cozinha, a pensar. Se ele não estava na casa dos pais, onde estava?
E a resposta só podia estar no computador. Aquele onde eu tinha criado uma conta de login só para ele jogar. Sentei-me e comecei a adivinhar a senha. Aniversário da mãe?
Errado. O meu aniversário? Errado. O dele?
Errado. Número de tentativas excedido. Esperei os cinco minutos. E então lembrei-me de uma mania parva que ele tinha: sempre que se sentava no computador, cantarolava baixinho.
«2 3 4 5 6 7 8, tá na hora de molhar o biscoito. » Gabriel, o Pensador. Digitei 2345678. A tela desbloqueou.
A primeira aba era o WhatsApp Web. A segunda, o Gmail. A terceira, o Instagram. Tudo aberto.
Foi aí que conheci a Barbosa. Primeira conversa do WhatsApp. Última mensagem: «Já tá vindo? » Cliquei.
Mensagens do dia anterior: «Querido, já reservei o quarto de sempre no nosso hotel. » «Perfeito, meu amor. Mal posso esperar para te pegar de jeito. »
A minha primeira reação foi pensar que o Júnior me estava a trair com um homem.
Passei cinco minutos a sentir pena dele, a imaginar uma vida dupla, tudo. Mas continuei a rolar para cima, e apareceu uma foto de uma mulher loira, sarada, de biquíni, em frente ao espelho de uma academia. Bárbara. Babi.
Ele tinha-lhe mudado o nome no telemóvel para «Barbosa», para eu não desconfiar se aparecesse uma mensagem no ecrã. Continuei a ler. Foram cinco meses de conversa. A primeira mensagem: «Oi, aqui é o Júnior da academia.
Lembra de mim? » Depois, fotos de músculos, encontros marcados em motel, e uma mensagem que me rasgou: «Babi, tive uma ideia. Vou inventar para a minha noiva que vou começar uma pós-graduação à noite. Assim a gente consegue dar uma escapada três vezes por semana.
» Ela respondeu: «Você é um gênio, bebê. »
Eu tinha passado quatro meses orgulhosa, a deixar o jantar quente para ele chegar. Encontrei vídeos deles juntos. Encontrei-o a falar mal de mim: «Ela é tão chata e sem graça.
Só aguento ela porque minha família a adora e ela seria uma ótima esposa para cuidar de mim. » Não uma parceira. Não o amor da vida. Uma empregada.
E a Babi, a amante selvagem, a mulher que ele queria ter do lado. Foi aí que a ideia começou a formar-se. Fui ao Instagram dele, procurei Bárbara Mendes, personal trainer. Marido: Rogério Mendes, empresário, CEO do Grupo Mendes.
Encontrei o e-mail dele no LinkedIn. Corajoso, seu Rogério. Voltei para o computador e abri o Gmail do Júnior. Escrevi um e-mail para o Rogério, em nome do Júnior, a confessar o caso com a Bárbara há cinco meses, a pedir que ele aceitasse o divórcio, que lhe deixasse uma pensão generosa e a casa, para que pudessem morar juntos.
Anexei fotos, vídeos, prints. Programei o envio para segunda-feira às oito da manhã. Depois, escrevi para a academia onde a Bárbara trabalhava, também em nome do Júnior. A confessar a relação séria com ela, a pedir que ela passasse a atender apenas alunas, e a pedir uma cópia da chave da sala de artes marciais para poderem ter encontros com privacidade, porque o tatame era confortável e já tinham quase sido apanhados.
Anexei as selfies deles dentro da academia. Programei para segunda às oito. Faltava a parte três. No domingo à noite, ele mandou-me a mensagem habitual: «Amor, estou saindo já.
Chego em uma hora e meia. Faz aquele strogonoff que eu gosto. » Nem respondi. Fui ao site de acompanhantes e criei um anúncio com as fotos da Bárbara, o telefone dela e o Instagram.
«Personal trainer, 25 anos. Dou aulas particulares para sedentários carentes. Atendo em motel ou hotel. Horário flexível.
» Publiquei, apaguei o histórico e fui dormir. Ele chegou, encontrou a cozinha vazia, comeu um miojo e foi para a cama emburrado. Passou a noite aos voltas, a olhar para o teto e para o telemóvel, inquieto, como quem brigou com alguém. Eu dormi descansada.
Segunda-feira, fomos juntos para o trabalho no meu carro. Ele ia calado, maxilar travado, sem rádio, sem cantarolar. Entrámos às oito. Nessa hora, os e-mails estavam a sair da caixa do Gmail dele.
O dia foi o mais longo da minha vida. Por fora, trabalho normal, planilhas, reuniões. Por dentro, só pensava: será que o Rogério já abriu? A academia já a despediu?
Quantos homens já lhe mandaram mensagem? Às seis e um quarto, saímos juntos. Atravessámos a portaria e foi aí que a vi. Uma mulher de macacão de ginástica colado ao corpo, parada em frente ao portão, de braços cruzados e um olhar que podia furar metal.
Babi Fitness em carne e osso. Fingi que não a conhecia. Ela avançou: «Júnior, seu canalha de merda. » Deu-lhe um tapa na cara.
Seco e alto. As pessoas pararam, os seguranças viraram-se, os telemóveis saíram dos bolsos. «Você acabou com a minha vida, seu desgraçado. Eu vou acabar com a sua.
»
«Bárbara, do que você tá falando? »
«Do e-mail que você mandou pro meu marido e pra academia. Me demitiram hoje. E você ainda me cadastrou num anúncio de acompanhantes.
Meu telefone não para de tocar. »
«Eu não mandei e-mail nenhum, sua louca. »
Ela virou-se para mim: «Você é a Luía? Eu sou a mulher que estava tendo um caso com o seu noivo há quatro meses.
» Levei a mão à boca, com os olhos cheios de lágrimas falsas. «Amor, essa mulher é obcecada por mim», gritou ele. Ela riu, sarcástica. E contou tudo, alto, para toda a gente ouvir.
O e-mail para o marido. O e-mail para a academia. O anúncio de acompanhantes. A demissão.
A casa. Tudo. Ele tentou virar a situação: «Você sai por aí com um monte de macho e acha que fui eu? »
«Agora que não tenho meu velho pra me bancar, você vai me sustentar.
»
«Eu não vou bancar mulher nenhuma, ainda mais uma interesseira e rodada. »
Ela olhou para mim com pena verdadeira: «Foge desse homem, amiga. Ele é um lixo. »
Ele explodiu: «Cala a boca, Bárbara, sua pu—» Não acabou a palavra.
Foi aí que ela lhe deu a joelhada. Com toda a força. As pessoas à volta soltaram um «uiii» coletivo. Ele dobrou-se e caiu no asfalto, a fazer um ruído que eu nunca tinha ouvido.
Nem humano, nem animal. E, como se não pudesse ficar pior, passou uma senhora com um pincher à trela. O cão viu o Júnior deitado à altura perfeita e começou a acasalar com a perna dele, com toda a dedicação canina. A senhora puxou: «Osvaldo, sai daí, menino.
Não é hora. » E continuou o passeio, puxando o cão, que ainda olhava para trás com cara de apaixonado. Eu tive de segurar o riso com todas as forças. Olhei para ele no chão, encolhido, a segurar as partes.
«Quero que saias do meu apartamento hoje. O noivado acabou. » Tirei a aliança, aquela argolinha ridícula, e atirei-lha à cara. Abaixei-me, tirei-lhe o chaveiro do bolso, separei a chave do apartamento e a do carro.
«Estas são minhas, Júnior. Boa sorte com o resto. » Virei costas, entrei no carro e fui embora. Duas horas depois, apareceu em casa.
«Amor, deixa-me explicar. Foi uma armação. Ela era obcecada por mim. » «Pega nas tuas coisas e sai da minha casa agora.
» «Mas eu não tenho para onde ir. » «Vai para a casa dos teus pais. » Ele respondeu sem pensar: «Mas meus pais voltam de Portugal só na quarta. » Silêncio.
Ele percebeu o que tinha dito. A cara que fez naquele segundo valeu tudo. Abaixou a cabeça e foi arrumar as malas. Meia hora depois, apareceu com duas malas, uma mochila e a consola.
Pediu carona. Eu abri a porta e apontei para fora: «Adeus, Júnior. » Fechei-lhe a porta na cara. Da janela, vi-o na calçada a discutir com três motoristas de Uber até finalmente pedir um Uber Bag.
Assisti a tudo com uma taça de vinho na mão. Na terça de manhã, o vídeo do barraco já corria nos grupos da empresa. O Júnior foi despedido por justa causa. Ficou em casa de um amigo até os pais chegarem de Portugal.
Tentou três empresas concorrentes. Nenhuma o chamou. A Bárbara fez vídeos a fazer-se de vítima, falou o nome completo dele, o bairro, o Instagram. O vídeo viralizou.
O Júnior acabou por trancar o perfil. Um mês depois, ela já estava com um senhor de sessenta anos, a postar fotos em restaurantes caros e praias. Cada um sabe o que faz. Um dia, num evento empresarial, vi o Rogério Mendes de longe.
Bem vestido, sorriso tranquilo, e do lado dele uma mulher loira, jovem, uma versão turbinada da Bárbara. Ele olhou na minha direção, mas não sabia quem eu era. Sorri e segui andando. No fim das contas, a melhor vingança é aquela que ninguém sabe que fomos nós.
Eles ainda andam a dizer que foram vítimas um do outro. Deixo-os continuar a pensar. Quem sou eu para os desmentir?


