Eu estava no fundo do auditório, a comer churro, quando um homem gritou que pagara a faculdade da oradora. Era meu marido. A oradora era a amante dele. Ninguém sabia, mas eu também estava a…

Eu estava no fundo do auditório, a comer churro, quando um homem gritou que pagara a faculdade da oradora. Era meu marido. A oradora era a amante dele. Ninguém sabia, mas eu também estava a...

Eu estava sentada no fundo do auditório, a comer um churro recheado com doce de leite, quando a oradora da turma de jornalismo acabou de ser pedida em casamento. Havia buquê, plaquinhas, lágrimas, plateia em êxtase. No meio daquela emoção, um homem gritou:

— Eu paguei a tua faculdade, sua vigarista! Era o idiota do meu marido.

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Todos ficaram em choque. Eu não estava à espera daquela reação, por isso achei ainda mais divertido. Mas deixem-me recuar uns anos até ao início do desastre. Chamo-me Cátia, tenho 32 anos e moro no interior do Rio Grande do Sul.

A minha mãe foi mãe e pai ao mesmo tempo, costureira, pequena e de pavio curto. Eu terminei o secundário, fui trabalhar como caixa num supermercado e deixei a faculdade para trás. Aos 23 anos, num churrasco de domingo, conheci o Itamar. Ele vendia sapatos, dizia-se trabalhador, sonhava em comprar uma casa e formar uma família.

Casei-me aos 24, num casamento simples no cartório, sem festa, porque ele achava que festa era dinheiro deitado fora. Fomos viver para uma casa arrendada. Dividíamos tudo a meias: eu pagava metade, ele pagava a outra. Em casa, o trabalho era todo meu.

Ele não levantava um dedo. Aos 25 anos, olhei para o caixa e pensei: ou saio daqui ou morro a apitar códigos de barras. Queria ser advogada. O Itamar riu-se com a cabeça para trás.

— Diploma não enche barriga, Cátia. — Enche, sim, se formos boa advogada. — Faculdade é ilusão. Eu não acabei o secundário e ganho os meus dois mil por mês.

Ele nunca me apoiou. Eu paguei a minha faculdade com o meu ordenado. Fiz o vestibular para Direito, passei, arranjei desconto e comecei uma rotina exaustiva: supermercado de manhã, faculdade à noite, estudo até à meia-noite. E o Itamar, no sofá, a jogar consola.

Toda a hora extra, todo o subsídio, todo o dinheiro que sobrava, eu depositava na conta dele para a nossa casa dos sonhos. Ele dizia que a conta dele rendia mais. Eu escrevia sempre no Pix, com carinho: “depósito para a nossa casa dos sonhos”. Como se cada transferência fosse um tijolo na parede da nossa futura sala.

Na faculdade fiz um amigo, o Diego. Era gay, tinha namorado, o Ronnie, e dava-me boleia todas as noites. O Itamar não gostava. — As vizinhas vão pensar que me estás a pôr os cornos.

— Ele é gay, Itamar. — Isso é o que ele diz. Foi com o Diego que desabafei quando as contas apertaram no último ano. Faltava o estágio obrigatório para concluir o curso, mas nenhum estágio pagava tão bem como o supermercado.

Eu não podia largar tudo. O Itamar engasgou-se com a Coca-Cola quando lho contei. — Vais largar um emprego com contrato para ir atrás de um sonho que pode não dar certo? Fiquei calada e continuei no supermercado.

Um domingo, durante uma limpega geral, encontrei um boleto no bolso de uma jaqueta do Itamar. Era da faculdade, no valor de 598 reais. A minha mensalidade era 450. O nome no topo: Valesca Popovic da Silva.

Jornalismo, oitavo semestre. Não conhecia ninguém com aquele nome. Tirei fotografias ao boleto e deixei-o na mesa da cozinha. Quando ele chegou, perguntei com calma:

— Quem é Valesca?

Ele tossiu, engasgou-se, pensou depressa. — É a filha da Sónia do trabalho. Pediu-me para pagar o boleto, deu-me o dinheiro, eu esqueci-me de lhe devolver. Eu conhecia a Sónia.

Solteira, sem filhos. O Itamar estava a mentir-me na cara. Sorri e fingi que acreditava. Quando ele adormeceu, depois de três cervejas para acalmar os nervos, apanhei o telemóvel dele na cabeceira.

Sabia o padrão. Abri o WhatsApp e encontrei a conversa com Valesca. Dois anos. Dois anos de mensagens, fotografias, áudios, boletos pagos, encontros em motéis.

Ele chamava-lhe “meu amor” e escrevia: “deixa-me pagar a tua faculdade, investir na educação é importante”. Para mim, dizia que diploma não enchia barriga. Chorei. Depois a raiva secou-me as lágrimas.

Tirei capturas de tudo, mandei para o meu e-mail, apaguei os rastos e jurei que eles iam pagar. Contei ao Diego. Ele procurou a Valesca e não a encontrou em lado nenhum, até que um amigo da mesma sala lhe contou o que faltava: ela tinha namorado, o Bruno, e ele ia pedi-la em casamento na colação de grau, na sexta-feira à noite. Toda a turma sabia.

A Valesca era a oradora. Depois o Diego fez uma pesquisa com uma fotografia dela e descobriu mais um pormenor: ela anunciava-se num site de acompanhantes com o nome de guerra Valesca Hilton. A conclusão foi simples. O Itamar era um cliente enganado, apaixonado por uma miúda que tinha namorado e outras fontes de rendimento.

Ele não sabia de nada. Na manhã seguinte, fui ao laboratório fazer exames. Dois dias depois, recebi o resultado: clamídia. Tudo o resto, negativo.

Sentei-me no corredor do centro de saúde e fechei os olhos. Sete anos de fidelidade, e o presente que o meu marido me tinha trazido foi uma doença que ele apanhara da amante. A médica receitou quatro comprimidos e disse:

— Tem de avisar o seu parceiro. Clamídia espalha-se como fofoca em cidade pequena.

Sorri. Ia avisar, sim. Procurei um advogado, o Dr. Marcos Darce.

Contei-lhe tudo, mostrei-lhe as capturas, os boletos, os comprovantes dos Pix. Ele ouviu sem me interromper. Depois disse:

— A senhora está muito bem organizada. Vamos pedir o divórcio e a devolução de cada centavo que depositou na conta dele.

Saí de lá com uma pasta amarela debaixo do braço e um plano na cabeça. Na quinta-feira, troquei a folga para sexta. Em casa, preparei o pequeno-almoço e disse ao Itamar, com toda a naturalidade:

— Hoje há colação de grau das turmas de moda e jornalismo na faculdade. Vai começar às sete.

Ele parou de mastigar. A semente tinha sido plantada. A Valesca não lhe tinha contado nada, claro. Mas ele não ia perder a oportunidade de ver a amante formada, depois de lhe ter pago metade da faculdade.

Ao meio-dia recebi uma mensagem dele: “vou fazer horas extra, volto tarde”. Pois claro. Às seis da tarde, estava na faculdade com Diego. Comprámos churros à porta, entrámos no auditório e sentámo-nos no fundo.

O auditório estava cheio. Vi o Itamar entrar de uniforme da loja, com um buquê enorme de rosas vermelhas na mão. Em sete anos de casamento, nunca me tinha dado flores. Dizia que era dinheiro deitado fora.

As luzes baixaram. Os formandos de moda subiram ao palco, depois os de jornalismo. Quando chamaram Valesca Popovic da Silva, a plateia explodiu. Ela subiu como se fosse uma estrela de cinema, salto agulha, cabelo loiro platinado, sorriso ensaiado.

Fez um discurso bonito, a dizer que tinha pago a faculdade com o suor do próprio rosto, que quem se esforça sempre alcança. Diego sussurrou:

— Acordava às cinco da manhã para atender clientes. Mordi o churro para não me rir em voz alta. No fim do discurso, o Bruno levantou-se na plateia, subiu ao palco com um buquê ainda maior que o do Itamar, ajoelhou-se e pediu-a em casamento.

Os colegas levantaram as plaquinhas a formar “Valesca, queres casar comigo? ”. Ela gritou que sim, pulou-lhe para o pescoço, a plateia aplaudiu. A mãe dela chorava.

Foi nesse momento que o Itamar se levantou. — EU PAGUEI A TUA FACULDADE, SUA VIGARISTA! O auditório congelou. A Valesca perdeu a cor.

O Itamar subiu ao palco furioso, mostrou fotografias do telemóvel à família dela, acusou-a de o ter enganado. O Bruno começou a empurrá-lo. Depois veio o soco. Os dois rolaram pelo palco enquanto os colegas de jornalismo filmavam tudo com os telemóveis.

Era o primeiro furo da carreira deles. Eu continuei sentada no fundo, a comer o meu churro, a ver o caos. Depois levantei-me. Subi ao palco sem pressa.

O Itamar estava no chão, por cima dele o Bruno com o punho no ar. Passei por eles, peguei no microfone caído e olhei para a plateia. — Com licença. Boa noite.

O meu nome é Cátia Manjo. Sou a esposa do Itamar, este que está aqui no chão. O silêncio foi total. — Há dois anos que ele tem um caso com a Valesca.

Quando descobri, fui fazer exames. Deram positivo para clamídia. Houve um grito coletivo. Pessoas a tapar a boca, pessoas a olhar umas para as outras.

Continuei:

— Se ele me passou, ela também tem. E o noivo dela também pode ter. E qualquer pessoa que tenha tido relações com eles também. Foi o suficiente.

Um homem levantou-se no meio do auditório, vermelho de raiva:

— Vou processar a agência de acompanhantes! Então é assim que fazem o controlo de saúde?! E saiu a bater com a porta. O segredo da Valesca caiu diante de duzentas pessoas.

O Itamar e o Bruno pararam de lutar para olhar para ela. A Valesca encolheu-se no canto do palco, a implorar ao Bruno:

— Foi só um caso, não significou nada, eu amo-te! O Bruno tirou o anel do dedo dela com toda a calma, pô-lo no bolso e saiu sem dizer uma palavra. Os pais dela subiram ao palco.

O pai, com a voz baixa, mandou-a ir a casa só para buscar as coisas. A mãe virou-lhe as costas. Ela ficou sozinha, de joelhos, de beca preta amassada, batom desfeito. O Itamar veio ter comigo, quase a chorar:

— Amor, eu não sabia que ela era acompanhante.

Perdoa-me! — Foste um traidor durante dois anos, Itamar. O meu advogado entra com o divórcio na segunda-feira. Vais devolver o dinheiro da nossa casa dos sonhos, com juros e correção.

Saí do palco sem olhar para trás. Diego esperava-me no corredor, com o braço estendido. Saímos juntos no meio da multidão que fugia do auditório. No dia seguinte, o amigo do Diego tinha publicado a história.

Em vinte e quatro horas, dois milhões de visualizações. Em uma semana, a cidade inteira estava atrás de exames. A Valesca desapareceu. O Bruno também.

O Itamar não desapareceu; fez pior. Começou a fazer escândalos à porta do supermercado todos os dias, a suplicar perdão de joelhos, até me fazer perder o emprego. As clientes queixavam-se. Quando contei ao Dr.

Marcos, ele anotou no caderno e disse:

— Vamos acrescentar a perda do emprego ao processo. Depois olhou para mim e fez uma pausa. — E, já agora, preciso de uma estagiária. A senhora está no quarto ano de Direito.

Quer ficar aqui comigo? Aceitei. O escritório estava cheio. Depois daquela colação, a cidade explodiu em divórcios.

Todas as mulheres diziam a mesma coisa: “venho por indicação da Cátia”. O divórcio saiu um ano depois. Fui ressarcida, formei-me e passei na OAB. O escritório cresceu.

O Dr. Marcos, que entretanto tinha deixado de ser apenas o meu chefe, chamou-me à sua sala uma manhã com duas pastas em cima da mesa. — Tenho duas perguntas para ti. Queres ser minha sócia?

Abriu a pasta azul. Um contrato. — E queres ser minha esposa? Abriu a pasta vermelha.

Um anel. Chorei. Disse que sim às duas coisas.