Cheguei a casa, vinda do trabalho, e ouvi vozes no meu apartamento. A minha mãe, o meu irmão Alan e a minha cunhada Sara estavam lá dentro, sem me terem pedido autorização, a avaliar as obras que eu tinha feito. A minha mãe olhou para mim e foi direta:
— O apartamento valorizou com as renovações. Se quiseres ficar, a renda passa a ser 4.

500 euros. Se não tiveres dinheiro, tens até ao fim do mês para fazer as malas e sair. Não havia forma de pagar o triplo da renda de um dia para o outro. Então limitei-me a fazer as malas e a sair.
O que ela não imaginou foi que a sua ganância se tornaria na minha maior vingança. Mas, para perceberes o resto, tenho de recuar alguns meses. Chamo-me Alice, tenho 28 anos e sempre fui a filha prática. O meu irmão Alan era o menino de ouro, o empreendedor de quem todos falavam.
Eu fui construindo a minha vida devagar: estudos, trabalho, estabilidade. Até que consegui um cargo alto numa grande empresa, com um salário que mudava a minha vida. O problema era a viagem: quatro horas por dia entre casa e escritório. Ao fim de duas semanas, percebi que precisava de viver mais perto.
Num jantar em casa dos meus pais, contei que andava à procura de casa. A minha mãe trocou um olhar com o meu pai. — Lembras-te do apartamento da avó Helena? Os inquilinos saíram.
Fica a quinze minutos do teu trabalho. O último pagava 1. 500 euros. Posso manter esse preço para ti.
Era cerca de metade do valor de mercado. Aceitei na hora. No dia da mudança, percebi que o apartamento estava num estado miserável. Papel de parede a descolar, nódoas no teto, um sofá velho no meio da sala.
Liguei à minha mãe e pedi autorização para fazer obras. — Podes, sim, mas sem essas cores modernas. — Fica tranquila, pensei em tons neutros. Passei seis meses a trabalhar no apartamento: pintura, papel novo, móveis, luzes, tudo escolhido com cuidado.
Comprei um sofá cinzento, uma mesa de madeira, uma carpete. Cada peça foi paga com o meu dinheiro. Quando terminei, senti um orgulho enorme. A minha mãe foi visitar, percorreu a casa e, para minha surpresa, abraçou-me.
— Está linda, Alice. Duas semanas depois, fui a outro jantar em casa dos meus pais. Tinha uma promoção para anunciar: gestora de contas sénior, com aumento e uma equipa para liderar. Mal abri a boca, a conversa mudou para o Alan.
A empresa de entregas dele estava em dificuldades, disse o meu pai. Um concorrente grande tinha chegado à cidade, com uma aplicação melhor e preços mais baixos. — Vamos tirar um empréstimo para o ajudar — anunciou o meu pai, sem hesitar. — Talvez seja altura de mudar de negócio — arrisquei.
— Em vez de atirar dinheiro para um buraco… O silêncio que se seguiu cortou o ar. O meu pai disse que eu não percebia de negócios. A minha mãe disse que o Alan era um empreendedor, que assumia riscos.
Fiquei calada. Já não valia a pena discutir. Seis meses depois, o Alan foi à falência. Ele e a Sara foram viver para casa dos meus pais.
No primeiro jantar de família depois disso, o Alan culpou o mercado, os bancos e a concorrência. Quando tentei dizer que era preciso planear aquele tipo de cenário, gozou comigo:
— Tu és só uma empregadinha de escritório. O que é que sabes de negócios? A Sara também não aguentava viver com os sogros.
Foi então que o Alan perguntou:
— Mãe, o apartamento da avó Helena ainda está arrendado? — A Alice mora lá — respondi. — A Alice fez um trabalho maravilhoso no apartamento — disse a minha mãe, sorridente. Vi o olhar que o Alan e a Sara trocaram.
Um olhar calculista. Senti o estômago gelar, mas ignorei. Na quarta-feira seguinte, cheguei a casa e encontrei-os lá dentro. A minha mãe, o Alan e a Sara estavam a inspecionar tudo.
A Sara passou a mão pelas cortinas que eu tinha pendurado. — Mãe, porque é que não me avisaram? — perguntei. — Não sejas ridícula, Alice.
Este apartamento é meu, não preciso de autorização. A Sara continuou a visita, aprovando cada canto. Depois sorriu, daquele sorriso que eu conhecia bem. — É perfeito.
Podemos mudar-nos para a semana. A minha mãe então explicou o plano:
— O apartamento valorizou com as tuas renovações. Se quiseres ficar, a renda passa a ser 4. 500 euros.
A ficha caiu. Queriam que eu saísse para dar a casa ao Alan e à Sara. Eu não podia pagar aquilo. Eles foram-se embora, tranquilos, como se eu não tivesse direito a nada.
Fiquei sozinha no meio da sala que eu própria tinha pintado. Não chorei. Abri o telemóvel e comecei a procurar outro apartamento. Encontrei um a dois quarteirões do escritório.
Na manhã seguinte, pedi o resto da semana ao trabalho, fui ver o imóvel, assinei o contrato e paguei o sinal. Depois contratei uma empresa de mudanças para o mesmo dia. Enquanto os homens carregavam as caixas, marquei com post-its tudo o que me pertencia. Saíram o sofá, a mesa, as cadeiras, a máquina de café, a televisão, a cama, o colchão.
Deixei o fogão e a máquina de lavar loiça, que já lá estavam quando entrei. Desmontei as estantes que tinha instalado. Arranquei o papel de parede. Tirei as luzes.
Quando terminei, o apartamento parecia o mesmo que eu tinha encontrado: paredes nuas, chão vazio e aquele sofá velho, sem capa, no meio da sala. Deixei as chaves num envelope e fui para a minha nova casa. Na manhã seguinte, o telemóvel explodiu. A minha mãe gritou:
— O que é que fizeste?
Arruinaste as paredes! O apartamento está vazio! Onde é que o teu irmão vai dormir? — Eu levei o que era meu, mãe.
Tenho recibo de tudo. Deixei o que já lá estava. Quanto ao papel de parede, tentei aproveitá-lo, mas rasgou-se. Que pena.
Desligou. A Sara mandou mensagens a chamar-me invejosa. O Alan disse que eu sempre tive ciúmes do sucesso dele. Não respondi a nenhum.
Passou um mês. Recebi uma chamada de um número desconhecido. — É a senhora Alice Matias Lima? Falo da esquadra central.
A sua mãe apresentou uma queixa contra si por furto e danos no apartamento. No dia seguinte, fui à esquadra com um dossier de recibos, extratos bancários e fotografias de antes e depois. A investigadora comparou as imagens e os documentos. — Não há indícios de furto.
Os bens são seus. E as fotografias mostram que o apartamento ficou em melhores condições do que estava. Não há dano. E acrescentou:
— A sua mãe vai ser criminalmente responsabilizada por denúncia caluniosa.
E ainda vai ter de pagar uma multa. Dois dias depois, a minha mãe ligou-me:
— Por tua causa tenho de pagar três mil euros! A investigadora diz que foi denúncia caluniosa. Se pagares a multa, eu perdoo-te tudo.
— Perdoar-me? Tu é que devias pedir desculpa. Não vou pagar nada, mãe. Assume as consequências.
Primeiro culpou a Sara, disse que tinha sido influenciada. Depois começou a falar das dívidas. O Alan tinha aberto um negócio de aluguer de bicicletas e estava outra vez cheio de dívidas. A Sara, segundo ela, fazia exigências e não ajudava em nada.
E o apartamento da avó estava vazio porque o Alan e a Sara não queriam viver lá, e ninguém aceitava pagar o valor que ela pedia. — Mãe, tenho uma proposta. Vende-me o apartamento. Dou 120 mil euros, abaixo do valor de mercado, porque está num estado mau.
Com esse dinheiro pagas a multa e ainda pagas parte das dívidas. Ela murmurou que aquilo valia pelo menos 200 mil euros. Respondi que era o máximo que podia pagar e mais do que valia no estado em que estava. Hesitou, mas não tinha alternativas.
Assinámos o contrato e transferi o dinheiro. O apartamento passou a ser meu. Renovei-o outra vez, com calma, e coloquei-o a arrendar por um valor justo. Com essa renda, pago o meu apartamento, o empréstimo e ainda sobra para despesas.
Fiquei, finalmente, segura e independente. Em casa dos meus pais, a tensão aumentou. Eles acabaram por dar um ultimato ao Alan e à Sara: ou começavam a contribuir para as despesas ou saíam. A Sara, que não estava disposta a viver sem luxos, arranjou um namorado rico e deixou o Alan.
Ele ficou arrasado. O negócio das bicicletas também não durou. Claro: ninguém queria alugar, preferiam comprar. Desta vez, foi ele que me veio pedir emprego.
Queria um cargo como o meu, com o mesmo salário, sem ter feito nenhum percurso. Dei-lhe uma gargalhada na cara. — Tu achas que podes saltar tudo o que eu construí em anos? Acabei por lhe arranjar um lugar de assistente na empresa onde trabalho.
O grande empreendedor passa os dias a tirar fotocópias e a preencher folhas de cálculo no andar de baixo. Quase nunca o vejo. Os meus pais, entretanto, descobriram que o filho dourado não tem talento para nada. Agora mandam-me mensagens, querem que eu vá jantar, perguntam como estou.
Finalmente querem ser uma família feliz. Mas já é tarde. A confiança que tinha neles desfez-se. Hoje sou eu que lidero a minha equipa e sou dona do meu próprio património.
O filho preferido trabalha para mim, e a mãe que tentou expulsar-me para lhe dar o apartamento acabou por me vender essa mesma casa por uma fração do valor. Quiseram deixar-me no fundo, mas esqueceram-se de que eu sou gestora financeira. Sei muito bem multiplicar aquilo que é meu.


