Na frente dos meus netos, a minha filha olhou-me nos olhos e disse: «Papá fez bem em abandonar-te. És patética.» Não chorei. Levantei-me, beijei cada um e saí. No carro, percebi: aquilo não foi…

Na frente dos meus netos, a minha filha olhou-me nos olhos e disse: «Papá fez bem em abandonar-te. És patética.» Não chorei. Levantei-me, beijei cada um e saí. No carro, percebi: aquilo não foi...

Na frente dos meus netos, a minha filha olhou-me nos olhos e disse: «Papá fez bem em abandonar-te. És patética. » O Té levantou os olhos do telemóvel. A Lara parou de desenhar.

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Eu não chorei. Não respondi. Levantei-me devagar, beijei cada um na testa e saí. No carro escuro da garagem, fiquei parada com as mãos no volante.

Aquilo não tinha sido um momento de raiva. Foi calculado. Chamo-me Nair Lustosa, tenho 67 anos, e conheço a Vanessa há quarenta porque a trouxe ao mundo. Sei a diferença entre o que ela diz sem pensar e o que ela diz depois de pensar muito.

Aquilo foi pensado. Naquela tarde de sábado, tinha chegado ao apartamento dela no Batel com um pote de compota de figo. O Té estava no sofá, a Lara desenhava. O Fábio apertou-me a mão e desapareceu para o escritório, como sempre.

A Vanessa fechou o computador e começou a falar de uma cessão de direitos sobre o portfólio de receitas e protocolos nutricionais da empresa. Eu disse que precisava de ler o documento antes de assinar. Ela respondeu que era uma formalidade, que eu não ia entender os termos técnicos. Quando insisti, a voz mudou.

Foi então que me olhou com aquela frieza e disse: «Papá fez bem em abandonar-te. És patética. »

Ainda na garagem, abri a lista de contactos do telemóvel. Silas Moura.

Não falávamos há vinte anos. Foi meu colega na Universidade Federal do Paraná, seguiu para direito, e foi a ele que procurei quando registei as obras no INPI. Atendeu ao terceiro toque: «Nair, quanto tempo? » — «Silas, preciso de ti.

Acho que tenho um caso interessante. »

Na segunda-feira de manhã, recebeu-me no escritório do Centro Cívico. Levei uma sacola de supermercado dobrada dentro da bolsa. Dentro, trinta e um anos de trabalho documentado.

Cadernos desde 1993, com data e a minha letra em cada entrada. E-mails que enviei à Vanessa quando ela montou a empresa, com as tabelas de protocolos e o cabeçalho da minha clínica. Fotografias das aulas que lhe dei nos primeiros anos, legendadas por ela como «nossa consultora técnica fundadora». O contrato de prestação de serviços de 2015.

E os certificados de registo no INPI, datados de 2016, de seis obras técnicas de minha autoria — os mesmos protocolos que a empresa usava como base da metodologia exclusiva. Silas leu tudo em silêncio. Depois fechou a última pasta e disse: «Nair, a tua filha estava a tentar fazer-te assinar uma cessão sobre obras que tu já registaste. O advogado dela ou não fez o trabalho de casa, ou sabia e apostou que tu não sabias o que tinhas.

» — «Eu acho que sabia. » — «Eu também. »

Preparámos a resposta. Silas enviou uma notificação extrajudicial, com os números dos registos, o período de uso sem licença e um prazo de resposta.

E eu fiz uma ligação em paralelo. Liguei à Glorinha, minha ex-sócia, que conhecia toda a gente do mercado de alimentação funcional em Curitiba. Foi ela que me contou que a Vanessa tinha dado entrevistas a uma jornalista, Patrícia Wendel, a apresentar-se como criadora dos protocolos. A reportagem estava quase pronta.

A Glorinha tomava café com a Patrícia. Expliquei à Glorinha o que tinha acontecido e, vinte minutos depois, Patrícia concordou em esperar e ouvir-me. Encontrei-me com a Patrícia num café perto do Batel. Mostrei-lhe os cadernos, os e-mails e os registos.

Leu tudo sem dizer nada. Quando acabou, disse que iria rever o escopo da reportagem. Enquanto isso, a Vanessa moveu-se. Ligou ao Dr.

Humberto Vaz, nutrólogo reformado, amigo do meu ex-marido, a dizer que eu estava irracional e que a família temia pelo meu estado cognitivo. O Dr. Humberto não confirmou nada do que ela disse. Telefonou-me para me avisar.

Pedi-lhe que me examinasse e fizesse um relatório. Na terça-feira de manhã, passámos duas horas no consultório. O relatório descrevia-me como orientada no tempo e no espaço, com memória preservada e sem qualquer défice cognitivo. Ficou guardado.

Não tive de o usar naquele momento. A notificação chegou à empresa. O tom mudou. A Vanessa ligou-me a dizer que havia um mal-entendido, que a cessão era um documento padrão, que o advogado tinha redigido mal.

O Fábio mandou-me uma mensagem a pedir que eu não complicasse as coisas. Não respondi. Deixei que pensassem que o recuo tinha funcionado. A reunião aconteceu no escritório do Silas.

Do outro lado da mesa estavam a Vanessa, o Fábio e o advogado. Silas apresentou o caso sem levantar a voz: as obras registadas, o uso comercial sem licença, os royalties não pagos. O advogado deles tentou interromper, mas cada resposta era um documento posto em cima da mesa. Depois, Silas abriu a segunda pasta.

A holding que o Fábio tinha montado para receber os direitos tinha uma estrutura com irregularidades e um sócio cujo nome nunca tinha aparecido em lado nenhum — um ex-sócio comercial do Fábio com um passado de disputa resolvida extrajudicialmente e registos de irregularidades contabilísticas. A sala ficou mais silenciosa. O advogado pediu cinco minutos. Voltaram doze minutos depois dispostos a negociar.

Seguiram-se semanas de negociações. Depois, a Vanessa escalou. O advogado dela apresentou uma providência cautelar a pedir a suspensão das negociações, com um relatório médico falso, assinado por um médico que eu nunca tinha visto, a descrever sintomas que nunca tive. Silas apresentou ao juiz o relatório do Dr.

Humberto, datado de semanas antes, feito por um médico de reputação irrepreensível. A providência foi indeferida em quarenta e oito horas. Nesse meio-tempo, o Fábio ligou-me. «Dona Nair, eu sabia que a cessão estava errada.

Mas não sou eu que mando neste casamento. O retalhista vai encerrar o contrato. A empresa não resiste se perder esses contratos. » Fiquei em silêncio.

No dia seguinte, disse ao Silas que estava na altura de terminar aquilo. A minuta final tinha três camadas: o reconhecimento formal da minha autoria; um licenciamento remunerado com royalties sobre a faturação futura; e uma indemnização pelo período de uso sem licença. Havia ainda uma cláusula que eu tinha pedido e que a Vanessa não esperava: qualquer material de marketing, embalagem, site ou apresentação que descrevesse a metodologia tinha de incluir, de forma visível, a atribuição de autoria. «Vão resistir mais a isto do que ao dinheiro», disse o Silas.

«Eu sei. Por isso é a cláusula que não negocio. »

O advogado deles pediu cinco dias. Cinco dias depois, respondeu que aceitavam os termos.

Assinámos no cartório do Centro Cívico numa segunda-feira de manhã. A Vanessa chegou sozinha, de blazer escuro, com o advogado por videoconferência. Silas leu cada cláusula em voz alta. Depois de cada uma, o advogado dizia «está de acordo» e a Vanessa ficava em silêncio.

Quando acabou, pôs o documento em cima da mesa. Ela assinou primeiro. Eu assinei com a mesma letra dos cadernos dos anos noventa. Estava feito.

Já de pé, perto da janela, ouvi-a dizer: «Não precisavas de ter chegado a isto. » — «Precisava exactamente disto. Chamaste-me patética à frente dos teus filhos. Não havia como voltar atrás.

» O acordo protegia a empresa. A atribuição era o mínimo. «Vais continuar a gerir o que construíste, mas com o meu nome onde sempre devia estar. » Ela parou à porta, sem se virar.

«Tu sempre soubeste que eu precisava de ti para isto funcionar. » — «Sim. E tu também sempre soubeste. Isso é o que torna tudo mais triste.

» Ela saiu. Nos meses seguintes, o Fábio saiu da sociedade. O retalhista encerrou o contrato. Outros distribuidores renegociaram para baixo.

A empresa encolheu, mas não fechou. A reportagem da Patrícia saiu sem citar nomes, mas quem conhecia o mercado sabia a quem se referia. No material de marketing, nas embalagens, no site, passou a estar escrito: «desenvolvido a partir de protocolos de autoria de Nair Lustosa, nutricionista». A minha vida tornou-se mais minha.

Fui a Lisboa sozinha, em setembro, e passei oito dias a caminhar sem dar satisfações a ninguém. Quando voltei, o Té foi buscar-me ao aeroporto e disse que queria estudar nutrição. A Lara continuava a mandar-me áudios e eu respondia com receitas, a explicar por que razão uns ingredientes e não outros. No Dia da Mãe, a Vanessa escreveu uma mensagem comprida, cheia de desculpas.

Respondi três dias depois: «Eu sei que sabes que te amo. O resto vamos construindo. »

Meses mais tarde, ela ligou. Disse que tinha começado a fazer terapia, que estava a perceber coisas.

Eu disse: «A porta não está fechada, mas é uma porta diferente. Vais ter de aprender a entrar por ela. » Ela ficou em silêncio. Depois disse: «Eu sei, mãe.

» Desliguei. Fiquei sentada na poltrona, com a tarde de Curitiba lá fora, e percebi que estava bem. E isso chegava.