O som metálico da catraca do ônibus 203 ainda zumbia na minha cabeça, um clique seco e repetitivo que parecia marcar o ritmo da dor que pulsava nas minhas têmporas. Curitiba tinha decidido nos presentear com aquela garoa fina e persistente, típica de uma terça-feira cinzenta que transformava o asfalto da Avenida Sete de Setembro num espelho escuro e escorregadio. As minhas sapatilhas estavam húmidas, e o peso da bolsa de couro no ombro direito parecia ter triplicado desde que eu tinha saído do escritório de contabilidade às seis da tarde. A única coisa que eu queria, com uma intensidade quase física, era o silêncio do meu apartamento, um banho quente com sabonete de alfazema e o conforto do meu pijama de algodão já gasto.

Entrei apressada no saguão do prédio, cumprimentando o seu Alisson com um aceno de cabeça cansado. O elevador demorou uma eternidade, subindo devagar enquanto eu encarava o meu próprio reflexo exausto no espelho manchado de dedadas. As olheiras estavam fundas, e alguns fios de cabelo rebeldes escapavam do coque que eu tinha feito logo de manhã. “Só mais uns minutos, Eloísa”, murmurei para mim mesma, à procura de um fôlego que parecia ter ficado preso entre pilhas de balancetes e planilhas fiscais.
Quando introduzi a chave na fechadura da porta 42, um som estranho atingiu-me antes mesmo de eu conseguir rodar a maçaneta. Não era o silêncio acolhedor que eu esperava. Era um coro de vozes altas, o som estridente da televisão sintonizada num programa de fofocas e o barulho metálico de talheres a bater contra louça vazia. Respirei fundo, sentindo um nó a formar-se no estômago.
Ao abrir a porta, o cenário que encontrei ultrapassava qualquer pesadelo de cansaço que eu pudesse ter imaginado. Estavam todos lá. Seis pares de olhos voltaram-se para mim, com uma naturalidade que beirava o insulto. O sofá de linho cinzento, que eu ainda estava a pagar em doze prestações sofridas, parecia estar a desaparecer sob o peso da Nadir, a minha sogra, e da Fabiana, a irmã do Renato.
As crianças, o Enzo e a Valentina, saltavam sobre as almofadas decorativas com os pés sujos de farelo de bolacha, enquanto o sogro, o Geraldo, e o primo do Renato, o Beto, ocupavam as cadeiras da mesa de jantar, a jogar cartas como se estivessem num boteco de esquina. O cheiro no ar era uma mistura de suor, sapatos húmidos e perfume barato da Nadir. Não havia cheiro de comida, não havia o calor de um lar preparado para receber. Havia apenas a expectativa da exploração.
“Finalmente, Eloísa”, exclamou a Nadir sem sequer se levantar. Ajeitou os óculos na ponta do nariz e olhou-me de cima a baixo com um julgamento silencioso. “A gente achou que você ia fazer horas extras hoje. As crianças estão mortas de fome, coitadinhas.
A Valentina até já chorou a pedir um lanche. ”
O Renato surgiu da cozinha, a segurar uma lata de cerveja gelada. Deu-me um beijinho rápido, um gesto automático que não carregava nenhum carinho real, apenas a marcação de território de quem se sente muito confortável na própria negligência. “Oi, amor.
Ainda bem que chegaste. O pessoal decidiu passar aqui de surpresa. O Beto estava na região e a minha mãe resolveu reunir toda a gente. Eu disse que você dava um jeito naquele seu strogonof maravilhoso.
Tem carne no congelador, é só descongelar rápido no micro-ondas. ”
Senti o sangue subir-me às têmporas. O cansaço, que antes era apenas físico, transformou-se numa centelha fria de lucidez. Olhei para a pia da cozinha através da porta aberta.
Estava a transbordar de copos sujos e pratos que eles tinham usado para comer pão com margarina enquanto me esperavam. Olhei para o Geraldo, que apenas ergueu a mão num cumprimento distraído, sem tirar os olhos do baralho. “Eloísa, a barriga já está a roncar”, comentou o Beto, a rir enquanto batia uma carta na mesa. “Se demorar muito, vou acabar por comer o reboco da parede.
”
Ninguém perguntou como tinha sido o meu dia. Ninguém notou que eu estava encharcada pela garoa ou que os meus ombros estavam caídos de exaustão depois de lidar com uma auditoria fiscal complexa desde as oito da manhã. Para eles, eu não era a Eloísa, a mulher, a profissional, a dona da casa que pagava setenta por cento das contas daquele lugar. Eu era a função, a provedora de conforto, a empregada sem salário que, por acaso, também dormia com o filho preferido da Nadir.
A Fabiana, a minha cunhada, soltou uma risadinha irritante enquanto mexia no telemóvel. “Ai, Eloísa, aproveita que vais para a cozinha e traz-me um copo de água com gelo. Esta humidade acaba com a minha tensão. ”
Fiquei imóvel no hall de entrada durante alguns segundos que pareceram horas.
O som da televisão, os gritos das crianças, o tilintar das moedas da aposta do Geraldo e a voz do Renato a pressionar-me para dar um jeito no jantar formaram uma sinfonia de desrespeito. Foi então que algo dentro de mim, uma engrenagem que vinha a ser forçada há anos, finalmente se partiu. Ou talvez tenha finalmente assentado. Não gritei, não atirei a bolsa ao chão, não fiz um escândalo.
Em vez disso, um sorriso calmo e quase doce brotou nos meus lábios. Era o sorriso de quem acaba de ver a saída de emergência num prédio em chamas. “Claro”, respondi, com a voz suave e controlada, o que pareceu surpreender o Renato por um breve momento. “Eu só vou trocar de roupa e lavar a cara.
Já volto para resolver tudo. ”
Caminhei pelo corredor, a sentir o olhar da Nadir nas minhas costas, provavelmente a verificar se eu tinha engordado ou se a minha roupa de trabalho era desapropriada. Cada passo que dava no soalho de madeira parecia afastar-me de uma vida de servidão voluntária. Entrei no nosso quarto, o único refúgio que ainda me restava, e fechei a porta.
O silêncio do quarto era um contraste violento com o caos da sala. Sentei-me na beira da cama e tirei as sapatilhas húmidas. Os meus pés latejavam. Olhei para a porta e ouvi o Renato a rir de alguma piada do Beto na sala.
Estavam tão seguros da minha submissão, tão habituados à minha disposição para agradar e evitar conflitos, que nem sequer consideravam a possibilidade de uma rebelião. Levantei-me, fui até à porta e, com um movimento lento e deliberado, rodei a chave. O estalo metálico da fechadura foi o som mais satisfatório que ouvi em toda a minha vida. Eu não ia fazer strogonof.
Não ia servir água com gelo. Não ia ser o tapete de uma família que só se lembrava da minha existência quando a fome apertava. Hoje, o menu seria realidade pura, e eles teriam de aprender a alimentar-se sozinhos. O estalo da chave na fechadura pareceu reverberar pelas paredes do quarto como um trovão silencioso.
Durante anos, aquele som significava privacidade. Hoje, significava autonomia. Encostei-me contra a madeira fria da porta e fechei os olhos, deixando o peso da bolsa escorregar pelo meu braço até atingir o tapete com um baque surdo. Do outro lado, o som da televisão ainda era um zumbido constante, entremeado pelos gritos agudos da Valentina e do Enzo, que agora pareciam estar a disputar quem conseguia saltar mais alto no meu sofá de linho.
Senti uma pontada de raiva, mas respirei fundo, forçando os pulmões a expandirem-se com o ar parado do quarto, que cheirava levemente a amaciador de roupa e ao perfume de baunilha que eu passava todas as manhãs. Caminhei até à janela e observei a chuva de Curitiba ganhar força. As gotas batiam no vidro com uma insistência hipnótica, a escorrer em trilhas irregulares que distorciam as luzes dos postes da rua lá em baixo. Eu sentia-me exatamente assim, distorcida, diluída pelas necessidades de todos à minha volta.
Por quanto tempo eu tinha aceitado o papel de figurante na minha própria casa? Lembrei-me do Natal passado, quando passei doze horas na cozinha a preparar um banquete para vinte pessoas, enquanto o Renato e os primos bebiam cerveja artesanal na varanda, a discutir futebol e política. No final, quando me sentei à mesa exausta, a única coisa que sobrou foi o osso do peru e uma travessa de arroz com passas que ninguém quis. Ninguém me agradeceu.
Ninguém se ofereceu para lavar um único garfo. Naquela noite, chorei no banho, e o Renato limitou-se a dizer que eu era sensível demais. Hoje, essa sensibilidade tinha-se transformado em aço. Ouvi passos pesados no corredor.
Eu conhecia aquele andar. Era o ritmo impaciente do Renato. Ele parou diante da porta e rodou a maçaneta. Quando percebeu que estava trancada, bateu três vezes de forma curta e autoritária.
“Eloísa, porque é que trancaste a porta, amor? O pessoal está à espera. A minha mãe já está a perguntar se precisas de ajuda para encontrar os temperos, mas eu sei que preferes fazer tudo à tua maneira. Abre aí, deixa de tolices.
”
Não respondi. Sentei-me calmamente na poltrona de veludo azul que ficava no canto do quarto, um presente que eu tinha dado a mim mesma no último aniversário, e comecei a desatar os cordões das sapatilhas. Os meus pés estavam inchados, marcados pela pressão do calçado depois de um dia inteiro de pé e em deslocações. O silêncio que eu mantinha era uma barreira que ele não sabia como transpor.
“Eloísa? “, a voz dele subiu um tom, agora carregada de uma irritação mal disfarçada. “Estás a ouvir-me? Eu sei que estás aí.
Não faças essa cena à frente da minha família. A Fabiana já está com aquela cara de julgamento, e o meu pai quer jantar cedo para não perder o início do jogo. Abre logo essa porta. ”
Apertei os fones de ouvido que estavam sobre a mesa de cabeceira e coloquei-os, mas não dei play em nenhuma música.
Eu queria ouvir a desintegração da paciência dele. Queria ouvir o momento em que ele perceberia que a engrenagem que sustentava o luxo da sua preguiça tinha parado de girar. “Renato, deixa-a”, ouvi a voz anasalada da Nadir ecoar pelo corredor. Ela devia ter vindo logo atrás dele, como uma sombra vigilante.
“Tu sabes como a Eloísa é dramática. Deve estar a retocar a maquilhagem ou a descansar a beleza enquanto a gente morre de fome aqui fora. É uma falta de consideração com os idosos, mas o que se pode esperar hoje em dia, não é? No meu tempo, a mulher já chegava do trabalho com o feijão ao lume.
”
A ironia era quase palpável. A Nadir nunca trabalhou um único dia fora de casa. Viveu sob as asas do Geraldo e agora tentava estender as suas garras sobre o meu casamento. Ela via o meu salário como um complemento para o conforto do filho dela e a minha casa como uma extensão da dela, onde as regras de etiqueta e respeito não se aplicavam.
Levantei-me e fui até à casa de banho da suíte. Liguei o chuveiro no máximo, deixando a água aquecer até o vapor começar a embaciar o espelho. Tirei a roupa de trabalho, peça por peça, sentindo como se estivesse a despir uma armadura pesada e enferrujada. Entrei debaixo da água quente e deixei que ela castigasse os meus ombros tensos.
O som da água a bater no chão de cerâmica abafava as batidas agora mais fortes do Renato na porta do quarto. “Ela está a tomar banho”, ouvi-o gritar para alguém na sala, a voz filtrada pela porta e pelo ruído da água. “Ligou o chuveiro e está-me a ignorar. ”
Sorri debaixo do chuveiro.
O vapor carregava o aroma do meu sabonete de castanha, um cheiro que me conectava com a terra, com algo real e sólido. Lavei o cabelo com calma, a massagear o couro cabeludo com as pontas dos dedos, focando apenas na sensação tátil e térmica. Estava a limpar-me não apenas da poluição das ruas de Curitiba, mas da sujidade emocional de ser tratada como um eletrodoméstico de luxo. Enquanto me ensaboava, a minha mente começou a traçar o próximo passo.
Eu tinha um plano que ia para além de simplesmente não fazer o jantar naquela noite. Se eles queriam ser convidados, seriam tratados como tal. E um convidado não tem as chaves do castelo. Olhei para o meu telemóvel, que estava protegido sobre o lavatório, e vi as notificações a brilhar.
O Renato tinha-me enviado cinco mensagens seguidas. “Eloísa, isto é ridículo. Abre agora. A minha mãe está ofendida.
O que é que eu digo ao Beto? Estás a envergonhar-me. ” Não visualizei nenhuma. Saí do banho e enrolei-me no meu roupão mais felpudo.
Sequei o cabelo com a toalha, sem pressa, a ouvir agora um burburinho mais alto vindo da sala. Parecia que a fome estava a começar a gerar conflitos internos. Ouvi a voz da Fabiana a reclamar que as crianças estavam a comer bolachas recheadas e que isso ia estragar o apetite para o strogonof. Mal sabia ela que o strogonof só existia na imaginação fértil e abusiva do Renato.
Caminhei até à minha gaveta de segredos, uma gaveta trancada onde guardava os meus documentos importantes e algumas economias que o Renato nem sonhava que existissem. Peguei num pequeno pacote de amêndoas fumadas e num chocolate amargo que eu escondia ali para momentos de stress. Comi devagar, a sentir o sabor intenso e a textura crocante. Eu não passaria fome.
Estava a alimentar a minha alma com a pequena vitória daquela noite. De repente, o silêncio no corredor foi quebrado por um pontapé na porta. Não foi forte o suficiente para a derrubar, mas foi o suficiente para mostrar que o Renato tinha perdido o controlo. “Eloísa, chega dessa palhaçada.
Sai desse quarto agora e vem falar com a minha família. Tu não podes simplesmente trancar-te aí como se a casa fosse só tua. ”
Aproximei-me da porta, ainda de roupão, com o chocolate na mão. A minha voz saiu firme, sem um traço de hesitação ou raiva.
“Renato, querido”, disse, num tom que eu usaria para explicar algo óbvio a uma criança. “A casa é, de facto, setenta por cento paga por mim. O contrato de arrendamento e as contas de luz estão em meu nome. E, sinceramente, tive um dia exaustivo.
Não estou a receber visitas hoje. Se vocês estão com fome, o iFood funciona muito bem em Curitiba. Embora eu duvide que tenhas saldo no cartão para alimentar seis pessoas e a ti próprio. Agora, por favor, baixa o tom.
Estás a assustar as crianças e a dar-me dor de cabeça. ”
Houve um silêncio mortal do outro lado. Eu quase podia ver a expressão de choque no rosto do Renato e a cara de indignação da Nadir ao ser confrontada com a realidade financeira da qual ela tanto fugia. O poder que eu sentia naquele momento era inebriante.
Eu não estava apenas a fechar uma porta. Estava a abrir um novo capítulo onde eu era a única protagonista. “Não fizeste isso”, sussurrou o Renato, com a voz agora trémula de raiva e humilhação. “Fiz”, respondi calmamente.
“E vou fazer. Mas agora, com licença, vou ler o meu livro. Boa sorte com o jantar. ”
Voltei para a cama, peguei no livro que estava na cabeceira e aconcheguei-me nos travesseiros.
Lá fora, a tempestade rugia, mas dentro do meu quarto, o clima era de uma paz absoluta. Eu sabia que o confronto verdadeiro ainda estava para vir, mas a primeira batalha já tinha uma vencedora clara. O silêncio que se seguiu à minha declaração foi denso, quase sólido, a preencher as frestas da porta como uma névoa fria. Eu conseguia imaginar perfeitamente a cena na sala.
O Renato parado no corredor, com o rosto vermelho de uma mistura de raiva e incredulidade, enquanto a mãe dele, a Nadir, provavelmente levava a mão ao peito num gesto teatral de ofensa. O som da chuva lá fora, contra o vidro da janela do meu quarto em Curitiba, parecia uma banda sonora de isolamento e vitória. Eu já não era a Eloísa que pedia desculpas por existir. Eu era a mulher que tinha traçado uma linha na areia, e essa linha agora era uma muralha de madeira trancada.
Sentei-me novamente na poltrona de veludo azul, a sentir a textura macia contra a pele. O chocolate amargo que saboreava lentamente trazia notas de café e fumo. Um prazer simples que eu raramente me permitia desfrutar, sem a interrupção de alguém a pedir um copo de água ou a perguntar onde estavam as meias limpas. Ouvi o burburinho na sala recomeçar, mas agora o tom era diferente.
Já não era a algazarra de convidados à espera do banquete. Era o som de uma colónia de formigas cujo formigueiro acabara de ser pisoteado. “Isto é um absurdo”, a voz da Fabiana subiu um oitavo, carregada de um veneno que ela mal tentava esconder. “Renato, vais deixar a tua esposa tratar-nos assim?
Viemos de longe, apanhámos trânsito na Linha Verde, e ela tranca-se no quarto como uma adolescente mimada. As crianças estão com fome. O Enzo já está a roer as unhas de ansiedade. ”
“Cala a boca, Fabiana”, explodiu o Renato, e o som da sua voz fez-me dar um leve sobressalto.
Era a primeira vez que eu o ouvia perder a compostura com a própria irmã. Normalmente, ele era o mediador passivo-agressivo que sempre pendia para o lado da família. “Achas que eu estou a achar graça? Ela trancou a porta.
Nunca fez isto antes. ”
“Pois devia ter feito”, murmurei para mim mesma, a sentir um calor estranho no peito. Não era raiva. Era justiça.
Ouvi o som de móveis a serem arrastados. Provavelmente o Geraldo, o meu sogro, a levantar-se da mesa de jantar. Ele tinha aquele jeito lento de quem nunca teve pressa na vida, porque sempre houve alguém para correr por ele. “Bom, se não tem strogonof, o que é que tem para comer?
“, a voz dele era ríspida. “Eu não vou ficar aqui a ouvir brigas de casal com o estômago vazio. Beto, vê se há alguma coisa naquela geladeira. ”
O pânico na voz do Renato foi quase cómico.
“Não, pai, não mexas aí. A Eloísa é sistemática com as compras dela… ”
“Tarde demais. ” Ouvi o barulho característico da borracha da geladeira a ser puxada.
Eu sabia exatamente o que eles encontrariam. Quase nada. Como é que eu sabia que eles viriam? O Renato tinha deixado escapar um comentário vago no domingo que eu fingi não ouvir, para testar até onde iria a sua audácia.
Eu tinha propositadamente não feito as compras da semana. A geladeira continha apenas um pote de iogurte natural, três limões murchos, um frasco de azeitonas e a luz fria que iluminava o vazio da nossa convivência. “Renato! “, a voz do Beto soou vinda da cozinha num tom de pura deceção.
“Cara, a tua geladeira parece um deserto. Só tem água. E isto é o quê? Um pote de mostarda?
Como é que vocês vivem assim? ”
“Ela não fez as compras! “, gritou o Renato, e eu pude ouvir o som de algo, provavelmente um copo, a ser colocado com força sobre o mármore da bancada. “Eloísa, não fizeste as compras de propósito.
Sabias que eles vinham. ”
Levantei-me da poltrona e caminhei até à porta, mas não a abri. Encostei a boca perto da madeira, mantendo a minha voz num volume baixo, mas perfeitamente audível no silêncio expectante que se seguiu. “Eu não sabia de nada, Renato.
Tu não me avisaste. E, como tu dizes sempre que eu gasto demais no supermercado com futilidades, decidi que cada um cuidaria do seu próprio sustento esta semana. Eu já jantei um sanduíche no centro antes de vir para casa. Estou satisfeita.
Se vocês querem alimentar seis pessoas, sugiro que abram o aplicativo de entregas. Ah, mas lembrem-se, a taxa de entrega para o Bigorrilho costuma subir quando chove. ”
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo choro da Valentina. A menina, a perceber que o clima de festa tinha acabado e que o jantar prometido era uma miragem, começou a berrar.
Isso desencadeou uma reação em cadeia. A Nadir começou a reclamar da sua gastrite. A Fabiana começou a acusar o Renato de ser um marido frouxo que não mandava na própria casa. E o Beto, o primo aproveitador, começou a sugerir que todos fossem a uma lanchonete e que o Renato rachasse a conta para compensar o transtorno.
Encostei-me à porta, a ouvir a desintegração daquela unidade familiar tão tóxica. Durante anos, eu tentei ser a cola que mantinha tudo unido. Comprava os presentes de aniversário que o Renato esquecia. Organizava os almoços de domingo.
Sorria enquanto a Nadir criticava o brilho do meu chão ou o tempero da minha carne. Eu era a base sobre a qual eles construíam o seu conforto. E agora que eu tinha simplesmente me retirado, o castelo de cartas estava a desabar. “Chega!
“, gritou a Nadir. “Eu não fico mais um minuto nesta casa onde não sou bem-vinda, Renato. Eu nunca imaginei que deixarias a tua mãe passar por esta humilhação. Vamos, Geraldo.
Vamos, Fabiana. Vamos comer em algum lugar onde as pessoas tenham educação e respeito pelos mais velhos. ”
Ouvi o som de casacos a serem vestidos, o tilintar de chaves e o choro arrastado das crianças a serem conduzidas para fora. A porta da frente abriu-se, deixando entrar, por um breve momento, o som mais nítido da chuva e o ruído dos carros a passar na rua lá em baixo.
Depois, a porta bateu, um estrondo seco que selou o fim daquela visita indesejada. Mas o Renato ainda estava lá. Eu ouvia a respiração pesada dele do outro lado da minha porta. Ele não tinha ido com eles.
Estava sozinho nas ruínas da sua própria arrogância. “Estás feliz agora? “, perguntou ele, com a voz baixa e carregada de um ressentimento que me fez arrepiar. “Expulsaste a minha família.
Fizeste-me passar por lixo à frente deles. A minha mãe saiu daqui a chorar, Eloísa. A chorar. ”
“Ela não saiu a chorar, Renato.
Saiu a fazer cena, como sempre faz quando não consegue o que quer”, respondi, voltando para a cama e deitando-me por cima das cobertas. “E eu não os expulsei. Eu apenas não os servi. Há uma diferença enorme que o teu ego se recusa a ver.
Tu convidaste-os para um jantar que não tinhas intenção de preparar nem dinheiro para pagar. Usaste o meu trabalho, o meu tempo e a minha disposição como se fossem ativos teus. Hoje, a conta chegou. ”
“Isto não vai ficar assim”, disse ele, batendo na porta uma última vez antes de se afastar.
“Amanhã vamos ter uma conversa séria sobre como as coisas vão funcionar nesta casa daqui para a frente. ”
“Com certeza. Vamos”, disse eu para o teto escuro do quarto. “Mas estás a assumir que ainda haverá um ‘daqui para a frente’ para nós os dois.
”
Fiquei deitada no escuro durante muito tempo, a ouvir o Renato a revirar-se no sofá da sala. Ele não ousou tentar entrar no quarto novamente. Eu sentia uma estranha mistura de adrenalina e exaustão. O confronto físico e verbal tinha acabado, mas a verdadeira libertação, a libertação completa, ainda estava em processo de maturação na minha mente.
Olhei para o meu guarda-roupa e pensei em como seria fácil organizar as minhas coisas, mas não, porque é que haveria de sair? Eu pagava as contas. Eu mantinha o lugar. O plano começou a formar-se, mais detalhado e frio do que qualquer strogonof que eu pudesse ter preparado.
Se eles queriam que eu fosse a vilã da história por não ser a empregada deles, eu daria a eles um papel digno de um Óscar. Fechei os olhos e, pela primeira vez em meses, o sono veio rápido, pesado e sem sonhos de obrigações não cumpridas. Eu estava pronta para o passo final. O dia seguinte não seria sobre conversas.
Seria sobre execuções. O despertador não precisou de tocar às cinco e meia da manhã. Os meus olhos abriram-se antes de a vibração do telemóvel sobre o criado-mudo quebrar o silêncio absoluto do quarto. Curitiba, naquela manhã de quarta-feira, estava mergulhada numa névoa espessa, o famoso “leite”, que esconde os prédios e silencia os passos dos primeiros trabalhadores.
O ar que entrava pela fresta da janela era gelado, carregado com aquele frescor húmido que sobe do asfalto. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não senti o peso do desânimo ao despertar. Pelo contrário, havia uma claridade mental que eu não experimentava há anos. Levantei-me sem fazer barulho.
O soalho de madeira soltou um estalo discreto sob os meus pés descalços. Caminhei até à porta, rodei a chave lentamente e abri-a. O corredor estava escuro. No sofá da sala, a silhueta do Renato era um amontoado confuso de pernas e braços sob uma manta fina.
Dormia com a boca entreaberta, o rosto marcado pela má noite de sono no sofá que ele próprio ajudou a sujar com migalhas de bolacha na noite anterior. O cheiro da sala ainda era desagradável, o rasto da presença invasiva da família dele, mas eu já não sentia a urgência de limpar. Não era mais o meu fardo. Fui para a cozinha e, com movimentos precisos, preparei o meu café.
O som da água a ferver e o aroma forte dos grãos moídos na hora preencheram o ambiente. Enquanto o café passava, peguei no meu computador portátil sobre a bancada. Como contabilista, sempre tive uma obsessão saudável por folhas de cálculo. E a que abri naquele momento era a mais importante da minha vida.
Eu chamava-lhe secretamente “o custo da conveniência”. Ali, eu tinha mapeado cada cêntimo do aluguel, da luz, do condomínio, da internet e do supermercado que saía da minha conta, contrastando com a contribuição pífia do Renato, que alegava ser o máximo que podia fazer enquanto investia o resto em hobbies caros e saídas com os amigos. Ouvi um gemido vindo da sala. O Renato estava a acordar.
Senti o estômago dar um nó, mas não de medo. De antecipação. O confronto final não seria um grito. Seria uma exposição de factos.
Ele apareceu na porta da cozinha, com o cabelo desgrenhado e a expressão de quem esperava um pedido de desculpas matinal acompanhado de pão com manteiga. Olhou para mim, viu o café pronto e esticou a mão para pegar numa caneca. Eu deslizei a garrafa térmica para longe do alcance dele antes de os seus dedos a tocarem. “Bom dia para ti também”, resmungou ele, com a voz rouca.
“Vais continuar com o teatro de ontem à noite? A minha mãe mandou-me mensagens até às duas da manhã. Está arrasada, Eloísa. Disse que nunca foi tão maltratada na vida.
E a Fabiana está a falar no grupo da família que tiveste um surto psicótico. ”
Bebi um gole longo do meu café, a sentir o calor a descer pela garganta. Olhei para ele com uma calma que parecia irritá-lo mais do que qualquer insulto. “Renato, senta-te”, disse, apontando para a cadeira de madeira da mesa de jantar.
“Vamos conversar agora, e não vai ser sobre os sentimentos da tua mãe nem sobre as fofocas da tua irmã. Eu não tenho tempo para isso. Tenho de me arranjar para o trabalho. ”
Ele tentou contestar, mas eu girei o computador na direção dele.
“Vais ter tempo. Vê bem, estes são os gastos desta casa nos últimos dois anos. A azul, o que eu paguei. A vermelho, o que tu pagaste.
Se reparares no gráfico circular aqui ao lado, verás que a tua participação financeira não cobre nem o condomínio e a internet que a tua família tanto usou ontem para publicar fotos no Instagram. ”
Ele olhou para o ecrã, a expressão a mudar da arrogância para o desconforto. Tentou falar, mas eu levantei a mão. “Espera, ainda não terminei.
Além do dinheiro, calculei o tempo. Horas gastas a cozinhar, a limpar, a organizar a tua vida e a da tua família, que se instalou aqui como se este apartamento fosse um hotel fazenda gratuito. Se eu cobrasse o valor de uma diarista e de uma cozinheira particular a ti e aos teus primos, estarias a dever-me o valor de um carro popular. ”
“Eloísa, que coisa ridícula”, exclamou ele, a rir de forma nervosa.
“Casamento não é negócio. A gente ajuda-se. ”
“Não, Renato. No nosso caso, eu sustento e tu desfrutas.
Isso não é ajuda, é parasitismo. E ontem à noite, quando tentaste obrigar-me a servir seis pessoas depois de um dia de dez horas de trabalho, mataste qualquer resto de consideração que eu tinha por ti. Eu não sou a extensão da tua mãe. Não sou a empregada que tu não queres pagar.
Eu sou a dona deste contrato de arrendamento. ”
O silêncio que caiu sobre a cozinha foi cortado pelo toque estridente do telemóvel dele. Era uma videochamada da Nadir. Ele hesitou, olhou para mim e atendeu.
A voz da minha sogra invadiu a cozinha, alta e estridente, mesmo sem o som no máximo. “Renato, já falaste com aquela mulher? Eu não dormi nada. O meu açúcar subiu.
Quero saber se ela já limpou o quarto de visitas, porque eu vou aí hoje buscar o meu xaile que esqueci, e quero que ela me peça desculpas formalmente. ”
Fiz um sinal para que ele me entregasse o aparelho. O Renato, em estado de choque, obedeceu. Olhei diretamente para a câmara, onde o rosto da Nadir aparecia inchado e indignado.
“Bom dia, Nadir. O xaile está num saco do lixo pendurado na maçaneta da porta de entrada do prédio. O seu Alisson, o porteiro, vai entregar-to. E quanto às desculpas, tens razão, elas são necessárias.
Eu peço desculpas por ter permitido que entrasses na minha casa e me tratasses como uma serva durante tanto tempo. Mas não te preocupes, isso acaba hoje. Não és mais bem-vinda aqui, nem para um café, nem para buscar o xaile, nem para nada. ”
Desliguei a chamada antes de ela conseguir emitir qualquer som.
Devolvi o telemóvel a um Renato pálido. “Enlouqueceste de vez”, gaguejou ele. “Pelo contrário, recuperei a sanidade. Já liguei para a imobiliária.
Como o contrato está em meu nome e o caução foi pago por mim, dei o aviso prévio de trinta dias. Vou mudar-me para um apartamento mais pequeno, mais perto do meu trabalho. Tu tens esse tempo para encontrar um lugar que caiba no teu orçamento real. Ou talvez possas morar no quarto de visitas da tua mãe.
Tenho a certeza de que ela vai adorar ter o filhinho de volta para o servir o dia todo. ”
Ele levantou-se, a cadeira a arrastar com um som estridente. “Não podes fazer isto. Para onde é que eu vou?
Eu não tenho economias, Eloísa. Tudo o que ganho, gasto com as nossas coisas. ”
“Com as tuas coisas, Renato”, corrigi mentalmente. “O meu compromisso com o teu conforto terminou ontem, no momento em que bateste na porta do meu quarto a exigir strogonof enquanto eu desmaiava de cansaço.
”
Caminhei até à entrada, peguei na minha bolsa e nas minhas chaves. Estava pronta para o trabalho. Ao abrir a porta, vi a névoa de Curitiba a começar a dissipar-se, a dar lugar a um sol pálido, mas firme. Virei-me para ele uma última vez.
“A propósito, a palavra-passe do Wi-Fi foi alterada, e cancelei as subscrições de streaming que usavas. Se quiseres ver o jogo hoje à noite, sugiro que vás a um bar ou peças à tua mãe para pagar a conta. ”
Saí do apartamento sem olhar para trás. Enquanto esperava o elevador, ouvi o som de algo a partir-se dentro de casa, provavelmente uma caneca, e os gritos de frustração do Renato.
Mas aqueles sons já não me atingiam. Pertenciam a uma vida que eu acabara de deixar para trás, como uma roupa velha que já não serve. Ao chegar ao rés do chão, o seu Alisson cumprimentou-me com um sorriso. “Bom dia, dona Eloísa.
Tudo bem? ”
“Tudo ótimo, seu Alisson. Melhor do que nunca. ”
Caminhei em direção à paragem do autocarro, a sentir o ar frio a bater no meu rosto.
Eu não tinha apenas me vingado de uma noite de desrespeito. Eu tinha retomado o controlo da minha própria narrativa. A partir de hoje, a única pessoa que eu teria prazer em servir seria a mulher que via no espelho todas as manhãs.
E, acreditem, ela merece o melhor banquete do mundo.


