Ele tinha 20 anos, eu 38, e estava a limpar o meu camião quando os dois idiotas começaram a gozar com ele. Ouvi-os chamar-lhe “bonequinho” e fazer piadas sobre camionistas, e algo em mim rebentou….

Ele tinha 20 anos, eu 38, e estava a limpar o meu camião quando os dois idiotas começaram a gozar com ele. Ouvi-os chamar-lhe "bonequinho" e fazer piadas sobre camionistas, e algo em mim rebentou....

O dia em que percebi que tinha medo de um miúdo de 20 anos, acabei de estacionar um tráiler de 18 metros como se fosse um carro de brincar. Nem curva apertada, nem porto de montanha, nem tempestade na autoestrada. O que realmente me punha nervoso era ele. Chamo-me Rafa, tenho 38 anos, barriga de camionista, barba por fazer e mãos que já não lembram o que é não ter gordura de motor entranhada.

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No meu mundo, sou o rude, o brincalhão, o que tem sempre uma piada de mau gosto na ponta da língua e uma história inventada sobre uma empregada de mesa qualquer que se atirou para cima de mim numa área de serviço. Tenho fama de durão. A piada é que quase tudo é teatro, porque no fundo, bem lá no fundo, onde ninguém olha, eu sei perfeitamente que não encaixo no papel que represento. O que sempre me roubou horas de sono foram olhares de tipos que nunca perceberam nada.

Mas no meu mundo isso não se diz. Cala-se. Esmaga-se, cobre-se com gasóleo e piadas brutas. Até chegar o Luca.

Conheci-o numa terça-feira qualquer na base da empresa, no lava-rápido de camiões. Eu vinha de uma rota longa. Barcelona, Lisboa quase sem parar, costas feitas em pó. Estacionei no meu lugar, desci da cabine e a primeira coisa que vi foi um miúdo magricela a lutar com uma mangueira de pressão.

Tinha um macacão azul com o logo da empresa e umas sapatilhas brancas que noutro contexto seriam modernas, mas ali eram só carne para canhão para a sujidade. A água saía disparada, a bater na carroçaria de outro camião e a encharcá-lo até à cintura. — Fogo! — ouvi-o murmurar, a rir-se sozinho.

— Eu sou mesmo idiota. Tinha o cabelo escuro colado à testa, a camiseta a espreitar pelo decote do macacão, os olhos claros semicerrados pelas gotas. Viu-me e endireitou-se logo. — Boas, é seu o scania vermelho?

— gritou por cima do barulho. — Sim — respondi, brusco por reflexo. — Mas se lhe deres com essa mangueira como estás a fazer, vais deixá-lo pior do que na última vez que nevou lama. O miúdo sorriu, longe de se ofender.

— Calma, chefe. Aos camiões bonitos trato-os com carinho. Chefe. Bonito.

Duas palavras parvas que não deviam significar nada, mas senti um aperto estranho no estômago. Cruzei os braços a tentar manter o personagem. — Não me chames chefe. Chamo-me Rafa.

— Pois eu sou o Luca — disse, aproximando-se com a mangueira já controlada. — Levo aqui uma semana. Sou o escravo que limpa o que vocês sujam. Disse-o a rir, sem vitimismo.

Baixei o olhar para as mãos dele. Tinha os dedos cheios de pequenos cortes, daqueles de lutar com chapas e produtos químicos, unhas curtas, limpas, movimentos inseguros, mas concentrados. Um miúdo, pensei. Um miúdo.

E ainda assim, custou-me desviar o olhar da curva do pescoço dele quando baixou a cabeça para ajustar o jato. Nos dias seguintes, cruzámo-nos várias vezes. Eu fazia de conta que nem o via, ou seja, via-o tanto que sabia o horário dele de cor, mas fingia indiferença. Quando chegava à base, procurava a figura dele sem querer.

Macacão azul, boné que virava ao contrário quando fazia calor, auscultadores pequenos nos ouvidos com música que só ele ouvia. Os outros camionistas gozavam com ele. — Eh, miúdo, dá-lhe bem na grelha que aí tenho uma coleção de mosquitos que é património nacional. — A ver se aprendes depressa e para o ano te deixam conduzir um a sério.

O Luca respondia com educação, uma piada suave, e seguia com a vida. Comigo, porém, parecia diferente. Não fugia, mas também não me dava o mesmo gozo. — Então, Rafa?

Hoje também me trazes o camião disfarçado de montanha? — dizia, apontando para a lama. — Se não te queixas, não cobras — respondia. E no entanto, quando ele se inclinava para chegar às jantes, eu notava que algo no meu peito se soltava.

Não gostava, não gostava nada de me sentir mole. Que eu seja rude não é por acaso. Cresci numa aldeia pequena, daquelas onde toda a gente se conhece e os rumores viajam mais depressa que a Internet. O meu pai era camionista antes de mim, mas dos de outra época.

Copo de vinho ao almoço, piadas de mau gosto e mão dura para tudo. — Um homem tem de ser um homem — repetia-me. — Nada de lamúrias nem mariquices. Ouviste?

Eu assentia, claro, e cada vez que me apanhava a olhar demasiado para os jogadores da equipa adversária nos intervalos do futebol, mordia a língua até saber a sangue. Não havia lugar para mim em voz alta, então aprendi a imitar. As piadas dele, as risadas, a forma de olhar para as mulheres, fazer o fresco, deitar piropos parvos que não sentia. A estrada, paradoxalmente, foi um alívio.

Dentro da cabine estava sozinho. Ninguém me pedia nada. Podia pôr a música que quisesse, cantar como um idiota, deixar a mente vaguear. Mas havia sempre o regresso, o bar, os colegas, a pose.

E agora, ainda por cima, aqueles olhos claros a olharem para mim como se pudessem ver através do disfarce. Numa sexta-feira, depois de uma semana especialmente longa, cheguei à base com o humor pelos calcanhares. Tinham-me falhado um pagamento, apanhado um engarrafamento de três horas. Estacionei de má maneira.

O Luca veio a correr, a secar as mãos num pano. — Tocaram-te todos os bichos da província, não foi? — brincou. — Isto vai precisar de duas rondas.

— Tu dá-lhe, que é para isso que te pagam — soltei, mais brusco do que o habitual. Vi o sorriso dele esmorecer um pouco, mas não disse nada. Começou a deitar água, concentrado. Eu fiquei encostado à roda, a olhar para o telemóvel, a resmungar sozinho contra o mundo.

Ao fim de dez minutos, notei que a mangueira tinha parado. Levantei os olhos. O Luca estava de pé à minha frente, com o sobrolho ligeiramente franzido. — Estás bem?

— perguntou. — Perfeitamente — respondi, na defensiva. — Porque é que não havia de estar? Encolheu os ombros.

— Não sei. Hoje vens mais… bruto do que o normal. — E quem és tu para saber como eu sou normalmente?

A pergunta soou mais agressiva do que queria. O Luca mordeu o lábio um segundo. — Só estava a tentar ser simpático. Se não queres falar, percebo, mas também não precisas de morder.

Virou-se para voltar ao trabalho e, ao vê-lo ir embora, senti uma pontada de culpa. — Muito bem, campeão — disse comigo. — Desabafa com o único que te fala com carinho. — Eh, rapaz — chamei-o.

Ele parou. — Desculpa — soltei de repente. — Venho atravessado. Não é contigo.

O Luca virou-se com um meio-sorriso. — Já imaginava. Mas obrigado por dizeres. Há gente que vai de durona e nunca pede desculpa.

Aquele “gente que vai de dura” tocou-me mais do que devia. Encolhi os ombros. — Também não te habitues. Não vou estar a pedir desculpa todos os dias.

— Com que me deixes pôr a minha música quando limpo o teu camião, dou-me por pago — respondeu, a aliviar o ambiente. — Depende do que ouvires. Se me puseres bachata, troco-te pelo túnel automático. Riu-se.

— Trato feito. Tu deixas-me pôr a minha lista e eu garanto que este Scania brilha mais do que os outros. A minha lista. Não sabia que uma frase tão simples podia soar tão íntima.

Naquele dia, enquanto limpava, tocou uma canção suave, daquelas que eu nunca poria diante de ninguém. Guitarras calmas, voz jovem, letra a falar de ficar acordado a olhar para alguém a dormir. Notei que me relaxava. Ele cantarolava baixinho.

— Gostas? — perguntou de repente. — Não está mau — admiti. — É diferente.

— É de um miúdo que põe coisas na Internet — explicou. — Descobri-o a estudar. Ajuda-me a não ficar stressado. — A estudar o quê?

— Mecânica. — Apontou com a cabeça para os camiões. — Um dia quero estar lá em cima, não só aqui em baixo com a mangueira. Disse-o com uma mistura de entusiasmo e timidez que me desarmou.

— Quantos anos tens? — perguntei. — Vinte. Completados há dois meses.

Quase metade da minha idade. A diferença bateu-me de repente como uma parede. É um miúdo, Rafa, repeti comigo. Tu já vais caminho dos 40.

Deixa de olhar para onde não deves. Mas quanto mais repetia, mais notava algo a amolecer por dentro quando o via sorrir. A coisa degringolou de vez numa tarde de chuva. Cheguei encharcado, de mau humor, esperando encontrar o lava-rápido vazio.

Mas estavam lá dois camionistas a fumar debaixo do telheiro enquanto o Luca esfregava as rodas de um tráiler. Reconheci-os. Eram de outra empresa, desses que andam sempre com a sobranceria no máximo e zero filtros. Estavam a rir-se.

— Olha-me para ele, parece um bonequinho — dizia um. — Se lhe deitares um euro, de certeza que te limpa o carro também. Eu deitava-lhe outra coisa. O outro soltou uma gargalhada rude.

O Luca dava-lhes as costas, a fingir que não ouvia, mas notava-se-lhe a mandíbula tensa. — Eh, fedelho — continuou o primeiro. — Se eu te convidar para um copo, lavas-me a mota também? — Estou a trabalhar — respondeu o Luca, sem olhar.

— Se precisam de alguma coisa, peçam ao encarregado. — Uiii, que fino. — Gozou o segundo. — Igual não gosta de motas, gosta mais é de camionistas.

Algo se acendeu cá dentro. Já ouvi essas piadas toda a vida e normalmente deixo passar. Até já me ri para não ficar de fora. Mas vê-las dirigidas a ele, àquele miúdo que só se estava a ganhar a vida, tirou-me do sério.

Antes de me aperceber, lá estava eu a avançar para eles. — Acontece alguma coisa? — perguntei com a voz baixa. Os dois viraram-se.

— Nada, pá — disse um, levantando as mãos. — Só estávamos a falar com o miúdo. — Pois o miúdo está a trabalhar — respondi. — E se têm tanta necessidade de fazer piadas, vão para o bar, que ali talvez alguém vos ria.

— Não te armes em parvo, homem — disse o outro. — Não dissemos nada. — Ouvi-vos perfeitamente — contestei. — E ele também.

— Apontei com a cabeça. — Por isso, ou se calam, ou se vão, que isto não é um circo. Olharam-se, incomodados. Durante um segundo pensei que a coisa ia escalar, mas no fim um deles estalou a língua, deitou a beata para o chão e afastou-se.

— Estás muito sensível, pá — murmurou. — Até à próxima, na estrada. Vi-os ir. Quando me virei, o Luca estava a olhar para mim.

Tinha os olhos ligeiramente húmidos, como se contivesse algo entre a raiva e a emoção. — Não precisavas de te meter — disse. — Precisava. É fácil rir quando quem leva com as piadas é outro.

Ficou um momento em silêncio. — Obrigado — acrescentou. Encolhi os ombros, desconfortável. — Vá, não fiz assim tanto — tentei tirar importância.

— Só ladrei um pouco mais alto do que eles. Riu-se. — És mais mole do que pareces, sabes? A frase atravessou-me.

Já mo tinham dito antes, mas nunca soara tão verdadeiro e tão perigoso. Naquela noite, já na cabine, com a chuva a bater no tejadilho e a autoestrada a deslizar sob as rodas, não consegui tirar da cabeça a cara dele quando o defendi. Nem o obrigado, nem principalmente aquele “és mais mole do que pareces”. Porque era verdade.

Com os outros consigo manter a armadura, soltar piadas, fazer-me de duro, gabar-me de conquistas inventadas. Mas com ele o disfarce caía-me aos ombros. Descobri-me a sorrir sozinho ao lembrar como ele dançava com a mangueira nas mãos, como se lhe franzia o nariz quando algo não saía como queria, como cantarolava aquelas músicas esquisitas. E de repente, sem pedir licença, imaginei-me a beijá-lo.

Foi um pensamento fugaz, como um clarão no retrovisor. O Luca, com o macacão meio aberto por causa do calor, as mãos molhadas apoiadas na cabine, a olhar para mim de frente, eu a aproximar-me, a agarrá-lo pela cintura, a sentir o cheiro a sabão barato e a gasolina. Afastei a imagem com um abanão mental. — Estás doido — disse em voz alta.

— É um miúdo. Vai denunciar-te, vai rir-se, o que for. Esquece. Mas as mãos continuavam a tremer-me um pouco no volante.

Nos dias seguintes, tentei evitá-lo. Chegava à base quando ele já tinha acabado ou ficava noutra zona para não passar pelo lava-rápido. Inventei desculpas para não lhe deixar o meu camião. O Luca notou.

Claro que notou. Numa terça-feira, aproximou-se do parque de estacionamento a secar as mãos. — Estás chateado comigo? — perguntou, direto.

— O quê? Não. — Respondi rápido demais. — Porque havia de estar?

— Porque há três dias que trazes o camião feito um caco e não mo deixas tocar — disse, apontando com o queixo para a carroçaria cheia de pó. — E pensei que talvez te tenha aborrecido alguma coisa. O que me aborrece é o que me fazes sentir, pensei. Mas isso não se diz.

— Estou a experimentar outro lava-rápido — menti. — É mais rápido. — Ah. — Baixou o olhar, a tentar esconder que lhe tinha doído.

— Claro, faz sentido. Virou-se e foi nesse momento que o meu próprio coração me traiu. Vê-lo afastar-se encolhido, como se tivesse feito mesmo algo mal, foi como levar um murro no peito. — Luca — chamei-o.

Virou-se. — Amanhã — hesitei um segundo — amanhã trago-to a ti. Ao camião, quero dizer. Os olhos dele iluminaram-se de uma forma que nem a água da mangueira conseguia explicar.

— Vale — sorriu. — Amanhã deixo-to tão limpo que te vais ver refletido e vais-te assustar. — Já me assusto de série — tentei brincar, embora por dentro me estivesse a morrer. — Mas faz a tua magia.

Foi-se, saltitando por cima de uma poça, contente. Eu fiquei ali, a sentir que acabava de me render. A partir daí, deixei de me fazer de tolo. Cada vez que voltava de rota, procurava o Luca, e se não estava, apanhava-me a mim próprio de mau humor.

Falávamos mais. Contou-me que vivia com a avó num apartamento pequeno, que trabalhava ali para ajudar nas despesas enquanto fazia o curso de mecânica, que o pai estava fora há anos, que a mãe vivia noutra cidade, que o sonho dele era conduzir, mas também arranjar camiões, perceber como funcionam por dentro. Eu contei-lhe coisas que não costumava contar. Não sobre o meu pai exatamente, mas sobre o medo de ficar sem trabalho, sobre a estrada às vezes ser longa demais, sobre a dificuldade em dormir quando parava.

Ele ouvia sério, como se cada palavra importasse. — Não pareces tão velho como dizes — atirou-me um dia. — Quem te disse a minha idade? — A ficha que aparece no escritório — riu-se.

— Trinta e oito. Podias ser meu pai, mas pareces mais… trinta e um. — Que generoso — resfoleguei.

Embora por dentro aquela parvoíce me tivesse inchado como um balão. Cada comentário dele fazia-me sentir visto, e isso era tão agradável quanto aterrador. A noite em que tudo mudou, estava eu a estacionar depois de uma tempestade. Havia relâmpagos no horizonte.

O ar cheirava a terra molhada. A maioria dos camionistas já tinha ido embora. Só ficavam alguns camiões a brilhar sob os holofotes. O Luca estava a terminar de limpar um quando me viu.

— Pensava que hoje te livravas de mim! — gritou por cima do barulho da água. — Chegas tarde. — A tempestade parou-me — expliquei.

— Mas a lama não se vai embora sozinha. — Dá-me cinco minutos e é a tua vez — sorriu. Enquanto esperava, encostei-me à cabine a ver a cena. Ele a mover-se à volta do camião, concentrado, a água a escorrer pelo metal e pelo macacão, a luz amarela dos holofotes a desenhar sombras compridas, o ruído distante de um trovão.

De repente, algo dentro de mim fez clique. Estava farto de me esconder, de fingir que não sentia nada, de o tratar com frieza para não mostrar o que realmente se passava comigo, de viver a vida como se estivesse sempre em segunda. Olhei para ele, senti medo, sim, mas também uma clareza nova. Se continuar assim, pensei, um dia ele vai-se embora daqui.

Vai encontrar outro trabalho, outra cidade, outra vida. E eu fico com o camião limpo e a consciência suja por não ter tido coragem de lhe dizer o que me faz sentir. A ideia doeu-me mais do que qualquer rejeição possível. Naquele momento, o Luca fechou a mangueira e tirou o boné, sacudindo a água do cabelo.

— Pronto — anunciou. — Monstro pronto para o banho. Aproximou-se de mim com a confiança habitual, sem imaginar o que se passava na minha cabeça. — Ponho-te a lista de sempre?

— perguntou, mostrando o telemóvel. Olhei-o nos olhos. Era tão jovem, tão doce, tão perigoso para alguém que tinha construído a vida inteira sobre um muro. Engoli em seco.

— Luca — disse. — Devagar. — Sim? — Quando acabares hoje…

— Senti as mãos a suar. — Podes ficar um bocado mais? Quero falar contigo. Ficou muito quieto.

Durante um segundo, julguei ver um lampejo de nervosismo nos olhos dele. — Claro — respondeu por fim. — Não tenho pressa. Sorriu-me.

E enquanto ligava de novo a mangueira, eu soube que naquela noite ia atravessar uma linha. Não sabia como. Não sabia se teria palavras ou se o medo me faria recuar. A única coisa que sabia era que já não queria continuar a beijar ninguém na minha cabeça.

Queria arriscar-me a beijá-lo a verdade, mesmo que fosse com as mãos a tremer, mesmo que o coração me pedisse para fugir pela autoestrada. Enquanto a água batia na carroçaria e a música suave começava a tocar nos auscultadores dele, fiquei a olhar para as mãos dele e tomei a decisão que andava a evitar há anos. Na próxima vez que o Luca estivesse perto o suficiente, não ia perder o momento. Terminou de passar água às rodas, pendurou a mangueira e tirou os auscultadores.

— Pronto — disse, dando uma palmadinha carinhosa na lateral do Scania. — Está mais limpo que a minha consciência. Tentei rir, mas saiu-me um som estranho, seco. — Obrigado, rapaz.

Aproximou-se, a secar as mãos no pano. — O que querias falar? — perguntou, direto, sem rodeios. Sempre tão valente para umas coisas.

Eu, com quase 40 anos, não era capaz de ordenar uma frase. — Podemos subir à cabine? — propus, apontando para cima. — Aqui em baixo passa toda a gente.

O Luca sustentou o meu olhar um segundo e assentiu. — Vale. Subiu primeiro pela escada, com a agilidade de quem já a conhece de cor. Eu segui-o, sentindo que cada degrau era um não há volta atrás.

Dentro, cheirava ao costume. Gasolina, ambientador de baunilha barato, café seco no porta-copos. A minha casa. O Luca sentou-se no banco do passageiro, virado para mim, com uma perna dobrada.

Parecia pequeno no meio de tanta estrutura. Eu deixei-me cair no meu lugar, mas não liguei nada. Nem luzes, nem motor. Só o silêncio, cortado pela chuva no tejadilho.

— Estás a dar-me um bocado de medo, eh — brincou, a tentar aliviar o ambiente. — Parece que vais despedir-me. — Não te vou despedir — respondi no instante. Então sorriu de lado.

— Então o que foi, Rafa? Tens cara de quem estacionou o camião dentro da sala de alguém. Passei a mão pela barba, nervoso. Não era fácil, mas tinha passado a semana toda a ensaiar dizer a verdade.

E se não saísse perfeita, que saísse partida. — Fiz muitas coisas mal na vida — comecei. — Mas acho que esta é a primeira vez que tenho medo de fazer algo bem. O Luca ergueu uma sobrancelha.

— Isso soa a profundo. — Não te rias — protestei, embora o sorriso dele me ajudasse a continuar. — Olha, rapaz, eu não sou muito de falar do que sinto. Já deves ter notado.

Assentiu. — És mais de resmungar. — Sim. Pronto.

O caso é que contigo me acontece uma coisa estranha. Desde que chegaste. O Luca endireitou-se. — Estranho tipo…

caio-te mal, ou estranho tipo… repara que limpo melhor que a máquina automática? Voltou a puxar pelo humor, mas o olhar estava sério. Engoli em seco.

— Estranho tipo que me custa falar-te com frieza — soltei, a agarrar-me com força ao volante desligado. — Que me apanho a procurar-te com o olhar quando chego. Que quando aqueles dois idiotas fizeram piadas contigo, me apeteceu arrancar-lhes a matrícula. Que me custa mais levares-me a mal do que o patrão.

Ficou calado. Eu continuei, antes de recuar. — E isso não me acontecia. Não assim, com ninguém.

Passei a vida a fazer de tipo durão que fala de mulheres que nem me interessam. E de repente chegas tu, com o teu macacão azul e as tuas músicas esquisitas, e desmontas-me a função. O Luca apertou os dedos sobre o joelho. — Rafa — sussurrou.

— Deixa-me acabar, por favor. Não quero que isto fique a meio. O caso é que gosto de ti, Luca. E não falo de me dares jeito.

Gosto de ti daquela forma que não supostamente não te devia dizer. Tenho ciúmes quando falam contigo, quando vais embora, quando passas por mim sem olhares. E hoje, hoje fartei-me de fingir que não. Pronto.

Estava dito. As palavras a pairar no ar, pesadas e libertadoras ao mesmo tempo. O Luca olhava-me fixamente, sem pestanejar, como se tentasse perceber se aquilo era uma piada. — Estás a falar a sério?

— perguntou por fim. — Mais a sério do que quando apanho um porto de montanha carregado até cima — respondi. — E sei que sou mais velho que tu e que talvez agora te tenha arruinado o trabalho e que possas pensar coisas de mim que nem quero imaginar. Mas não podia continuar a fazer-me de forte quando a verdade é que contigo, o papel cai-me ao chão.

Fez-se um silêncio tão intenso que ouvi uma gota de água a escorrer pela porta. O Luca respirou fundo. — Eu não esperava isto — admitiu. — Bem, um pouco esperava.

— Mordeu o lábio. — Às vezes tinha a sensação de que ficavas mais bruto exatamente quando eras mais simpático comigo. Era estranho. — Como?

— Como se te zangasses contigo próprio. — Cravou os olhos nos meus. — Mas não pensei que fosses dizê-lo. Que fosses olhar para isto de frente.

Senti algo a soltar-se-me no peito. — Incomoda-te? — perguntei. E odiei-me pelo quão pequena soou a minha voz.

O Luca não respondeu logo. Levou o seu tempo, e agradeci que não soltasse um “está tudo bem” automático. — Impressiona-me — disse por fim. — E mexe comigo.

Tu sempre foste o tipo grande que defendia os outros, o que ladrava mais alto que o resto. Que agora me digas que por dentro estavas assim… — sorriu triste — … talvez não sejas o único que andou a fingir.

Olhei-o confuso. — Como assim? O Luca baixou o olhar um segundo, depois levantou-o com decisão. — Quando entrei aqui, pensei que ia estar sozinho, a trabalhar e já.

E de repente apareces tu. No princípio intimidavas-me imenso. Depois vi que tinhas mais medo de te mostrares do que eu de fazer mal o meu trabalho. E comecei a olhar demasiado para o teu lado.

— A olhar como? — perguntei com o coração na boca. Ficou vermelho, envergonhado. — A pensar se virias naquele dia, se ias ficar para falar, se ias deixar o teu camião para eu limpar.

A saber-me mal que fosses bruto. A alegrar-me quando me defendeste daqueles dois. — Encolheu os ombros. — Acho que já sabes o que vem depois.

Soltou-se-me o ar que não sabia que estava a prender. — Tu também tiveste ciúmes — aventurei. — Quando paraste de me trazer o camião — admitiu —, pensei que te tinhas cansado de mim ou que tinha feito algo mal. Não me ocorreu que o problema fosse gostares demasiado de mim.

Aquele “demasiado” fez-me cócegas e medo ao mesmo tempo. Ficámos a olhar um para o outro, a menos de um metro de distância, com tudo o que não tínhamos dito a flutuar à nossa volta. E foi aí que decidi deixar de pensar. — Luca — sussurrei.

— Vou pedir-te uma coisa estranha. Mais estranha do que isto. — Tenta — brincou, nervoso. — Vou beijar-te — disse com a voz rouca.

— Não porque queira aproveitar-me nem porque espere algo de ti depois. Vou beijar-te porque passei meses a fazê-lo na minha cabeça e já não sei quem sou lá dentro. Mas se a qualquer momento quiseres que pare, dizes e acabou. Os olhos dele abriram-se um pouco mais.

Então fez algo que não esperava. Aproximou-se ele um pouco. Não muito, só o suficiente para que a resposta ficasse clara. — Vale — sussurrou.

— Mas faz isso já, que senão desmaio de susto. Rimos, nervosos, com o coração a bater-me contra as costelas. A distância fechou-se. Não foi um beijo de filme.

Foi desajeitado. Os narizes chocaram-se um pouco, os meus lábios estavam secos, os dele frios por causa do ar noturno. Eu cheirava a gasolina e tabaco, ele a sabão e chuva. Mas quando finalmente encaixámos, todo aquele ruído de fundo desapareceu.

Senti a mão dele subir devagar até à minha nuca, a agarrar-se com força. Eu pus a minha na cara dele, áspera e suave ao mesmo tempo, e pela primeira vez em 38 anos não me senti um impostor. Não estava a fazer de macho, não estava a representar para ninguém. Era um homem rude, fresco, cheio de quilómetros, a beijar outro homem porque lhe saía da alma.

Quando nos separámos, os dois respirávamos com dificuldade. O Luca tinha as bochechas coradas e os olhos brilhantes. — Vale — disse, a tentar recuperar o ar. — Isto foi muito pouco profissional.

Soltei uma gargalhada fraca. — Se quiseres, ponho no relatório. Lavagem do camião, mudança de filtros e beijo de teste. O Luca deu-me uma palmadinha no ombro.

— Idiota. Ficámos assim, a centímetros, a sorrir como dois tolos até a realidade nos alcançar. — Isto — murmurou ele — não vai ser fácil, pois não? Neguei devagar.

— Não. Por causa da idade, do trabalho, do que vão dizer. De tudo. Assenti.

— Eu passei a vida a fingir que era uma coisa. Tu estás a começar a tua. Não quero arrastar-te para um armário que não é teu. O Luca olhou-me com uma seriedade que não estava habituado a ver em alguém de 20 anos.

— Rafa, eu não preciso que me metas em lado nenhum. Já sei o que sou. O que não sabia era se tu te ias atrever a olhar para ti. E hoje olhaste.

Isso já é muito mais valente do que mil quilómetros com neve. As palavras dele cravaram-se dentro de mim. — E tu? — perguntei.

— O que queres? Levou uns segundos. — Quero conhecer-te sem a armadura. Não só o Rafa que conta piadas no bar, nem o Rafa que se faz bruto para não sentir.

Quero ver quem és de verdade quando desces do camião e tiras as botas. Rimo-nos. — Prepara-te para um quadro — disse. — Não prometo nada de filme.

— Não quero nada de filme — negou. — Quero coisas verdadeiras. Olhámo-nos outra vez, longos segundos. — Não sei se sei fazer isso — confessei.

— Ser eu próprio. Estive tanto tempo proibido. O Luca estendeu a mão e pô-la sobre a minha, grande e cheia de calos. — Então aprende comigo — propôs.

— A mim ninguém me ensinou a ser adulto ainda. Podemos praticar os dois. A mão dele era muito mais pequena, mas naquele gesto havia uma força diferente da minha. Uma força que não nascia dos músculos, mas da decisão.

Apertei-lhe os dedos. — Vale — sussurrei. — Vamos praticar. Naquela noite não aconteceu mais nada.

Nem pressas, nem mãos à procura de mais do que aquilo, nem cenas que se descontrolassem. Só nos demos outro beijo, mais curto, uma espécie de lembrete. Depois descemos da cabine. O Luca foi para casa com a sweatshirt encharcada e um sorriso que não tentou esconder.

Eu fiquei um bocado sentado no banco do condutor, às escuras, com as mãos ainda quentes onde tinham sentido as dele. E pela primeira vez, em vez de medo, senti uma paz estranha. Como se a estrada que sempre tinha sido o meu refúgio, de repente tivesse um destino. Passaram semanas.

Não nos tornámos namorados de um dia para o outro, não apusemos rótulos urgentes. Mandávamos mensagens parvas, às vezes fotos de amanheceres da cabine que eu nunca tinha partilhado com ninguém. Ele ensinava-me coisas do curso. Eu levava-lhe sandes quando coincidia com os horários dele.

Havia dias em que apenas roçávamos as mãos ao despedir-nos. Outros, quando a base estava vazia, deixávamos que um beijo se prolongasse um pouco mais. Nunca ultrapassámos linhas que nenhum de nós não tivesse a certeza de querer ultrapassar. O encarregado, o Sérgio, olhava-nos de soslaio de vez em quando.

Nunca disse nada. Um dia, apenas me soltou:

— Estás diferente, Rafa. Menos resmungão. — Deve ser a mudança de óleo — respondi.

Ele limitou-se a sorrir. Um mês depois, recebi uma chamada do meu pai. Há tempo que não falávamos. — Então, como vai a estrada, filho?

— perguntou com o tom rude de sempre. — Bem — respondi, mais acompanhado. Não entrei em detalhes, mas pela primeira vez não senti que lhe estava a mentir. Só que estava a escolher que parte lhe contar.

Quando desliguei, olhei-me no pequeno espelho da cabine. A barba, as olheiras, o boné velho. E atrás, no reflexo do vidro, a figura do Luca a aproximar-se com a mangueira, a levantar a mão para me saudar. “Um homem tem de ser um homem”, disse o meu pai.

E percebi uma coisa. Ser homem, para mim, já não era repetir a frase dele nem imitar os gestos dele. Era estar ali com os meus medos, as minhas mãos sujas, o meu coração mole, e mesmo assim escolher. Escolher não magoar para esconder o que sinto.

Escolher cuidar de quem quero, mesmo que isso signifique mostrar que me importa. Escolher beijar um rapaz de 20 anos com respeito, sem me esconder de mim próprio. Escolher, no fundo, conduzir a minha vida. Não deixar que ma conduzam.

A última imagem que te deixo é esta. Uma autoestrada de madrugada, o céu ainda escuro, mas com uma faixa laranja a espreitar longe, muito longe. A rádio a tocar baixinho uma daquelas canções que eu antes nunca teria admitido gostar. O Scania vermelho a devorar quilómetros como sempre.

E no banco do passageiro, o Luca meio adormecido, a cabeça apoiada na janela, a mão estendida para mim. Eu conduzo com uma mão, a outra tenho-a entrelaçada na dele. Não há fogos de artifício, nem aplausos, nem ninguém a olhar. Mas ali, no meio do nada, um camionista rude, que sempre foi o forte, o durão, o fresco, permite-se algo que nunca tinha permitido.

Ser terno. E perceber que às vezes o ato mais valente não é acelerar. É tirar o medo e dizer: “Sim, sou assim. E não vou pedir desculpa por amar.