Eu estava do outro lado da rua, sentada numa mesa de canto do café, escondida atrás de uma planta enorme, a ver no telemóvel o meu namorado e a ex-namorada dele da faculdade, em roupa interior, aos saltos e a coçar-se como dois loucos no meio da sala, vermelhos como lagostins. E a melhor parte é que eles não faziam ideia de que eu estava por trás de tudo. Antes de me achares uma maluca vingativa, deixa-me contar como começou. Chamo-me Marina, tenho 26 anos e sou educadora de infância.

Na altura, namorava com o Rodrigo, analista de contas no Banco Itacu. Conhecemo-nos num curso de desenvolvimento pessoal, daqueles em que entramos iguais e saímos iguais, mas com namorado. Ele era bonito, simpático, tinha aquela pose de homem sério e decidido. Só tinha um problema: chamava-se Leonardo.
O Leonardo era colega dele no banco. Tinham feito faculdade juntos e o Leonardo tinha-lhe roubado uma promoção para coordenador. O Rodrigo nunca mais foi o mesmo. Todas as semanas era a mesma cantilena: o Leonardo só ganhou porque o pai tem cunhas, o Leonardo não sabe falar com clientes, o Leonardo faz-lhe a vida negra.
Eu ouvia, concordava, para não arranjar confusão. No fundo, ia-me cansando. Passados uns meses, os pais do Rodrigo venderam a casa e foram viver para outro estado. Ele ficou, alugou um apartamento sozinho e a primeira coisa que comprou foram duas câmaras de segurança: uma na sala, outra no quarto.
Dizia que era para afastar ladrões. Quando estávamos juntos, eu fazia questão de desligar a câmara. Ele pedia para deixar ligada, dizia que queria ver as filmagens quando tivesse saudades. Eu recusava sempre.
Não ia ser a mulher que deixa um vídeo íntimo na mão de um homem. A minha rotina era esta: todas as sextas, ia a casa dele, limpava, passava a ferro, trocava a roupa de cama, cozinhava o jantar e ainda lhe deixava marmitas para a semana. Ele raramente agradecia. No máximo saía um obrigado automático, enquanto olhava para o telemóvel.
Mais comum era criticar a comida. O frango sem tempero, o estrogonofe salgado, o feijão com pouco alho. Eu engolia e continuava, porque se não fizesse, o homem vivia de noodles instantâneos e salgadinhos. Uma sexta-feira, saí de casa dele por volta das oito, entrei no Uber e lembrei-me de que tinha esquecido a jaqueta da Bruna em cima do sofá.
Pedi ao motorista para voltar. Ele deixou-me na calçada em frente ao prédio. Foi aí que vi o Rodrigo a entrar com uma loira alta, muito bonita. Não atravessei a rua.
Não gritei. Fui para o café da esquina, pedi um chá de camomila e sentei-me na mesa escondida pela planta. A aplicação das câmaras dele estava no telemóvel. Eu sabia o e-mail e a palavra-passe, porque o tinha visto a fazer login quando trocou de aparelho.
A palavra-passe era a data de aniversário dele. Entrei. Os dois estavam na sala, ele deitado no sofá, ela por cima, aos beijos e risos. Aumentei o som.
Ela chamava-lhe Rô. Falavam da faculdade, de uma festa de formatura. Depois ela disse o nome do Leonardo. Percebi aos poucos o que estava a ver: aquela mulher, a Tábata, era a noiva do Leonardo.
Ex-namorada do Rodrigo na faculdade. Estavam a rir-se dele e a rir-se de mim. Ele chamava-me Marinete. A namorada empregada, que limpa, lava, cozinha e ainda vai para a cama sem dar trabalho.
Riram-se muito. Dali a pouco foram para o quarto. Fechei a aplicação, saí do café e fui para casa chorar. Não chorei pela traição.
Chorei pela ingratidão. Por cada marmita que lhe preparei, por cada camisa que lhe passei, por cada vez que lhe disse que o amava e ele me respondeu com um sorriso vazio. Naquela noite, decidi que ele ia pagar. Mas com uma regra: nunca podia saber que fui eu.
Queria que ele achasse que tinha sido azar, coincidência, karma. Lembrei-me do pó de mico que a minha mãe usava em miúda para pregar partidas aos colegas. Abri uma loja online e encomendei o melhor avaliado. Também encontrei o Leonardo no LinkedIn.
Anotei o número dele. O coitado não fazia ideia do que a noiva fazia por trás das costas dele. Na sexta seguinte, cheguei ao apartamento do Rodrigo à hora do costume. Acenei para a câmara da sala e sorri, para ele não desconfiar de nada.
Limpei como sempre. Depois, com luvas, abri o pó de mico e tratei de tudo: cuecas, meias, fatos, camisas, sapatos, roupa de cama, almofadas, toalhas. Espalhei generosamente onde sabia que eles iam parar. Fui ao quadro elétrico e desliguei o disjuntor do chuveiro.
Saí, atravessei a rua e sentei-me no mesmo café, desta vez com um cappuccino e biscoitos caseiros. Às seis e meia, o Rodrigo chegou. Cinco minutos depois, a Tábata entrou, de vestido curto apesar do frio. Beberam vinho, riram-se, começaram a agarrar-se e foram para o quarto.
Passado um quarto de hora, começou a coceira. Ele no corpo, ela nos braços. Depois passaram a coçar as costas um do outro. Foram para o banho, mas o chuveiro estava frio.
Tiveram de tomar banho gelado, numa noite de inverno, e saíram a tremer, com as toalhas que também eu tinha semeado. Entretanto, peguei no telemóvel antigo que tinha comprado com um chip pré-pago e enviei ao Leonardo uma mensagem:
“Oi, Leonardo. Não me conheces, mas a tua noiva disse que ia visitar a avó doente, pois não? É mentira.
Está na casa de um colega teu. Segue o endereço e a prova. ”
Mandei a morada e a captura de ecrã da câmara. Ele leu logo.
Vinte segundos depois respondeu: “Esse é o Rodrigo do Banco Itacu? ” “Sim. Vai ver com os teus próprios olhos. ”
Voltei para a aplicação.
Os dois coçavam-se e já não estavam a achar graça. O Rodrigo mandou-me mensagem a pedir um antialérgico: “Amor, tens antialérgico aí em casa? Tenho uma alergia terrível. ” Respondi com o silêncio.
Ele mandou outra: “Marina, responde-me! ” Ignorei. Através da câmara, vi-o a atirar o telemóvel para o sofá aos berros. O Leonardo chegou à porta do prédio.
O portão abriu na hora, porque alguém saía. Ele entrou. Um minuto depois, três batidas na porta. O Rodrigo, de boxers e a coçar-se, foi abrir.
Assim que deixou uma fresta, o Leonardo empurrou a porta com toda a força. A porta bateu-lhe na testa e ele caiu no chão. “Onde é que ela está? ”
O Rodrigo nem conseguiu responder.
O Leonardo já tinha aberto a porta do quarto. A Tábata estava na cama, de lingerie, a coçar-se. “Léo, amor, o que é que estás aqui a fazer? ”
“O que é que tu estás aqui a fazer na casa do Rodrigo?
Onde está a tua avó doente? E por que estás vermelha e a coçar-te como uma cadela sarnenta? ”
A Tábata ergueu o queixo, decidida a não se rebaixar. “Quer saber, Léo?
Cansei de ti. Sempre gostei mais do Rodrigo. Só ia casar contigo pelo dinheiro e pela família. ”
“Ainda bem que foste sincera.
Vou mandar as tuas coisas para casa da tua mãe. ”
“Não, manda para cá. Vou morar com o Rodrigo. ”
O Rodrigo, caído no chão, levantou a cabeça:
“Morar comigo?
Estás maluca? ”
A Tábata ficou branca. “Como assim? Tu insististe meses para eu largar o Leonardo!
”
O Rodrigo riu-se, a coçar a barriga. “Nunca te amei. Há cinco anos, talvez. Eu só queria mostrar ao idiota do Leonardo o que é perder a mulher.
Ele roubou-te de mim na faculdade e roubou-me a promoção. Olha o karma, Léo. Olha o karma à tua porta. ”
O Leonardo abanou a cabeça, virou-se e saiu sem dizer mais nada.
A Tábata percebeu que tinha sido usada. Ateou-se ao Rodrigo aos gritos e estalos. Os vizinhos chamaram a polícia. Quando os agentes entraram, encontraram os dois aos gritos, um a atirar coisas, outro a desviar-se.
Mandaram-nos sentar no sofá. Sentaram-se. Em trinta segundos, os dois começaram a coçar-se outra vez com a mesma fúria. Os agentes trocaram olhares, perguntaram se era doença contagiosa, disseram para procurarem um médico e foram-se embora o mais depressa possível.
A Tábata vestiu-se, enfiou as coisas numa mala e ainda gritou:
“Vai para o inferno, Rodrigo! ”
“Depois de ti! ”
Bateu com a porta. O Rodrigo ficou sozinho no sofá, a coçar-se e a esfregar as costas no estofo.
Horas depois, já em casa, recebi as mensagens dele: “Acho que queimaste o meu chuveiro. Usaste algum produto diferente na limpeza? Tenho uma alergia horrível. Vais-me pagar o chuveiro.
”
Respondi uma única vez:
“Rodrigo, o nosso namoro não está a dar certo. Terminámos. Não me procures. ”
Ele tentou ligar, depois desistiu.
Eu ainda fiquei a ver as câmaras, mas não por saudade. No sábado, chegou com um chuveiro novo. O eletricista trocou-o, riu-se ao abrir o quadro elétrico, cobrou 150 reais. O Rodrigo tomou um banho demorado e saiu aliviado, convencido de que a alergia tinha passado.
Até pegar na toalha. A toalha também estava cheia de pó de mico. Vi-o no quarto, parado, a olhar para o corpo, a coçar-se todo, sem perceber porquê. No dia seguinte, voltou com um saco cheio de pomadas.
Umas cor-de-rosa, outras verdes, de todas as marcas. Passou-se com elas, mas pomada não trata pó de mico. No banco, o Leonardo começou a dar-lhe os piores serviços. Os colegas ignoravam-no.
O ambiente ficou insuportável. Duas semanas depois do flagra, mandou-me um e-mail:
“Marina, estou a sentir muito a tua falta. O médico disse que é alergia emocional. Volta para mim.
Volta a cuidar de mim como cuidavas. ”
Não respondi. Pouco tempo depois, vi-o a dizer à mãe que ia pedir a demissão e voltar para casa. As câmaras do apartamento deixaram de funcionar nessa semana.
Ele foi embora e levou a comichão com ele. Passados três meses, encontrei a Tábata no supermercado. Estava atrás da caixa, com o olhar perdido. Perdeu o noivo, o casamento, a casa e a vida que tinha planeado.
Tudo por um homem que nunca a amou. O Rodrigo hoje entrou para a igreja e costuma escrever versículos nas redes sociais. Fala em perdão, em renovação, em castigo divino. Está convencido de que a coceira que nunca o largou foi o karma.
Deixei-o com essa ideia. Foi a única coisa que lhe deixei de graça.


