Eu estava a ver o casamento do meu ex-namorado com a minha ex-melhor amiga pelas câmaras de segurança. Tudo perfeito. Votos lindos, famílias emocionadas, centenas de pessoas a sorrir. De repente, toda a gente parou.

A voz da noiva ecoou pelo salão:
— Quando ele tira a roupa, parece um cão sharpei. É muita pele. Depois, a mesma voz, nervosa:
— Esta parte vais cortar, não? Pelo amor de Deus.
Silêncio. Depois gritos. A sogra levantou-se e deu um estalo na cara da noiva. O noivo ficou branco, a olhar para o próprio corpo exposto.
O salão virou o caos. Eu tomei mais um gole de vinho e sorri. Mas deixa-me voltar atrás. Eu chamava-me Mary, tinha vinte e oito anos e uma empresa de organização de eventos.
A Vivi era a minha melhor amiga desde a faculdade. Trabalhava numa empresa de ricos e arrastou-me para a festa de fim de ano. — Olha ali. Apontou para um canto.
— Aquele é o filho do dono. Era um homem grande, deslocado, sozinho ao pé da mesa dos frios. — Podre de rico, mas feio e gordo. Queres que te apresente?
Vocês formavam um belo casal. — Estás a gozar? Só porque somos gordos? — É brincadeira.
Vem. Antes que eu pudesse protestar, já me puxava. O Jared tinha olhos castanhos gentis. Trocámos números.
No primeiro encontro, puxou-me a cadeira, ouviu-me, pagou o jantar. Eu gostei dele. A Vivi continuava com as piadas:
— Estás mesmo a namorar com aquele porco gordo? — Para, Vivi.
— É brincadeira. Mas que ele é gordo, é. Com dois anos de namoro, ele estava com cento e quarenta quilos. Pressão alta, pré-diabetes, joelhos a ceder.
O médico foi claro: precisava de considerar a cirurgia bariátrica. Não era estética, era sobrevivência. A cirurgia assustava-o. Passei noites a segurar-lhe a mão.
Quando contei à Vivi, ela riu:
— Finalmente vai deixar de ser o boneco da Michelin. — Não tens mesmo empatia nenhuma? — Foi só uma piada. A cirurgia correu bem.
Passei meses a cuidar dele. Comida na hora certa, remédios, curativos, noites mal dormidas. Um ano depois, cinquenta quilos a menos. Maxilar definido, roupas novas, mulheres a olhar para ele.
Ele gostava da atenção. Começou a ficar mais tempo no trabalho, a sair com colegas. Depois vieram os comentários:
— Não queres ir ao ginásio comigo? Fazia-te bem.
— Podias arranjar-te melhor quando saímos. Eu sentia a distância. Não imaginava o que vinha a seguir. Na festa de fim de ano da empresa do pai, ia ser a minha empresa a organizar.
Eu estava bonita: vestido preto, maquilhagem impecável. Quando saí do quarto, ele olhou e disse:
— Estás arranjada. Só isso. No carro, mal falou.
No salão, vi a Vivi de vermelho, deslumbrante. Os olhos dela estavam cravados no Jared. Acenou lá do fundo, sem vir ter comigo. Pouco depois, estava ao lado dele, a tocar-lhe no braço, a rir com intimidade a mais.
Eu tentei convencer-me de que era paranoia. Quando o vi a beber demasiado, fui ter com ele:
— Amor, vai com calma. Ele gritou no meio do salão, à frente de toda a gente:
— Estou farto de que me digas o que fazer! — Jared, vamos conversar em casa.
— Olha para ti, Mary. Não te cuidas. Estás gorda, largada. Eu esforcei-me para mudar e tu continuas igual.
O silêncio foi total. Eu senti o sangue a subir e as lágrimas a chegar. No canto, a Vivi tapava a boca para disfarçar o riso. Saí com a cabeça erguida.
Em casa, o telemóvel: uma foto dela a beijar o rosto dele. “Amor não se escolhe, acontece. ” Comentários a dizer que finalmente tinham assumido. Liguei-lhe.
— Há quanto tempo estão juntos? Silêncio. — Isso não importa, Mary. Desliguei.
Depois chegou a mensagem da Vivi:
— Amiga, desculpa. Não controlamos os sentimentos. Espero que continues a ser minha amiga. Eu não respondi.
No dia seguinte, fui buscar as minhas coisas. Ele disse que não ia estar. Quando abri a porta, senti cheiro de café e perfume. A Vivi estava na sala, com uma t-shirt minha, a beber da minha caneca.
Três caixas de papelão com a minha vida. — O que estás aqui a fazer? — Eu moro aqui. — Arrumaste as minhas coisas?
— Organizei tudo direitinho. Não falta nada. — Falta a minha t-shirt. Tira.
Nesse momento, o Jared apareceu no corredor. Disse que tinha dormido demais. A Vivi, a rir:
— A noite foi longa. Ele não disse nada.
Então olhei para ele. — Sabes que ela passou três anos a chamar-te gordo nojento, não sabes? A Vivi:
— Para de inventar mentiras, Mary. Eu sempre gostei do Jared.
Ele virou-se para ela:
— Não sabia disso. Depois olhou para mim como se eu fosse a vilã:
— Tu sabias que ela gostava de mim e mesmo assim? Isso é muito baixo. Não tive energia para discutir.
Pedi a t-shirt outra vez. Ela tirou-a à frente dele e ficou só de roupa interior. Eu vi o olhar dele a descer, a boca a entreabrir, o corpo a reagir. Na minha frente.
Ele pigarreou:
— Pega nas tuas coisas e deixa a chave no balcão. Puxou-a pela mão e fechou a porta do quarto. Ouvi risos e a cama a bater na parede. Carreguei as caixas e fui embora.
O primeiro mês foi duro. Acordava a pensar neles, adormecia a pensar neles. Tinha uma empresa para tocar. Fiz terapia.
Aos poucos, voltei a estar bem. Um ano depois, a lista de novos contratos passou pelas minhas mãos. Então vi: Vivienne e Jared Williams. Casamento.
A minha empresa. A Vivi tinha escolhido de propósito. Eu podia recusar. Mas não ia dar-lhe esse gostinho.
Deleguei à equipa e segui. Num jantar com amigas, alguém desabafou:
— Não sei como ela casa com o Jared. Fala mal dele para toda a gente. Diz que ele é bonito de roupa, mas nu é horrível, que tem a barriga toda flácida, que parece um sharpei.
— Para a cabeleireira, para o vendedor, para desconhecidos na fila do café. Eu ouvi em silêncio. E tive uma ideia. Entre os serviços que eles tinham contratado estava um mini-documentário.
Gravações separadas com os noivos, para ser exibido no casamento. Chamei o Greg, o dono do estúdio, ao almoço. Contei-lhe o plano. — E se ela processar?
— perguntou. — Ela assina contrato antes de gravar. Ninguém a obriga a dizer nada. Se abrir a boca, é problema dela.
— És mesmo terrível, Mary. Conheço o homem perfeito: o Tyler. Bonito, carismático. Elas derretem-se todas.
Tyler passou uma tarde com a Vivi, champanhe à vontade. Ela flertou, mostrou fotos do corpo do Jared, chamou-lhe nojento, disse que apagava a luz para ir para a cama com ele. No fim, pediu:
— Isto vais cortar, não? — Claro.
Com o Jared foi mais contido, mas deixou frases boas: que a Vivi era a mulher mais impressionante do mundo, que tinha sido passada para trás pela melhor amiga, e que ainda bem que aquela vaca tinha saído da vida deles. No dia do casamento, o salão estava impecável. Eu entrei pelos fundos e fui para a sala de gerência. O Natan, dono do salão, abriu uma garrafa de vinho.
A cerimónia foi linda. Vivi entrou de vestido de princesa, Jared chorou, os votos emocionaram toda a gente. Eu assisti tudo pelas câmaras. Depois da recepção, o mestre de cerimónias anunciou a surpresa.
As luzes baixaram. O ecrã gigante acendeu. No início, fotos de infância, uma história bonita. Depois, um corte.
Vivi, com champanhe na mão:
— O que eu mais amo no Jared? O cartão de crédito. Risadas nervosas. O vídeo continuou.
— De roupa, ele é lindo. Mas nu, meu Deus. Mostrou a foto do torso dele no ecrã. — Não parece uma geleia?
É nojento. Parece um cão sharpei. Apago a luz para conseguir ir para a cama com ele. O salão ficou em silêncio absoluto.
Depois:
— Esta parte vais cortar, não? Pelo amor de Deus. E continuou: ela a flertar com o Tyler, a dizer que ia ganhar um cargo de diretora, que tinha tentado dar em cima do pai do noivo. Depois o Jared, sorridente:
— A Vivi foi passada para trás pela melhor amiga.
Ainda bem que aquela vaca saiu da nossa vida. A tela ficou preta. As luzes acenderam. Cinco segundos de silêncio.
Vivi tentou salvar:
— Gente, eu estava bêbada. Era brincadeira. Ele disse que ia cortar. A mãe de Jared levantou-se, atravessou o salão e deu-lhe um estalo na cara.
— Tentaste dar em cima do meu marido, não conseguiste, e fisgaste o meu filho. O pai de Vivi avançou. A família explodiu. Cadeiras, gritos, dedos apontados.
O pai de Jared gritou que ela nunca mais punha os pés na empresa. Jared arrancou a gravata e saiu. Na sala, dei outro gole no vinho. O Natan olhou para mim:
— Mary, o que foi isto?
— Tiveram o que mereceram. Ele percebeu. — Foste tu? Jesus.
— Lembra-te disto antes de me pisares os calos. Nos dias seguintes, o vídeo espalhou-se por todo o lado. Alguém filmou o ecrã. Vivi perdeu o emprego na segunda-feira.
Perdeu as amigas, a reputação, e voltou a morar com os pais. Jared ficou em casa, reconhecido na rua como o noivo do sharpei. Uma semana depois, ligou-me. — Mary, fui um idiota.
A Vivi fez-me a cabeça. Disse que querias o meu dinheiro, que competias com ela. Eu acreditei. — Aceito as tuas desculpas.
— Então podemos tentar de novo? — Não. Desliguei. A Vivi apareceu na minha empresa com um furacão de ameaças.
— Arruinaste o meu casamento. Vou processar-te. Vou acabar contigo. — O contrato é limpo.
Assinaste. Ninguém te obrigou a dizer nada. Ela processou. O caso não avançou.
Jared anulou o casamento com base no vídeo. Depois deixou-se ir. Largou o ginásio, a dieta, e engordou tudo e mais um pouco. Eu não senti pena.
A Vivi passou anos a fingir que era minha amiga, a rir-se de mim, e roubou-me o namorado. O Jared humilhou-me na frente de toda a gente depois de eu o ter cuidado durante três anos. Eles só receberam o que plantaram. Seis meses depois, eu estava outra vez na sala de gerência do Natan, depois de um casamento de verdade, daqueles em que os noivos se amam.
Ele rodou a taça:
— Sabes que fazemos uma boa dupla nos negócios? — Nos negócios? — E fora deles, se deixares. Eu sorri.
Hoje, dois anos depois, tenho uma empresa maior, uma equipa incrível, uma reputação impecável, e o Natan. Uma noite, brinquei:
— Se me traíres, destruo-te a vida. — Sei. Por isso nunca vou trair.
Olho para trás e vejo o Jared que conheci, gentil e inseguro, e o homem em que se tornou: arrogante e cruel. A cirurgia não lhe mudou o caráter; apenas o revelou. E a Vivi sempre foi o que era. Eu é que não quis ver.
Aprendi. E, honestamente, o melhor final é este: estou feliz, em paz, e totalmente vingada.


