Sara Pinto, a amante da vez. A amante Sara Pinto não tem vergonha. Não tem dignidade por arruinar um casamento. As palavras ecoavam na cabeça dela enquanto o café da manhã esfriava.

Dez anos a amar Silvino Gomes. Dez minutos para destruir tudo. A noiva apareceu do nada. Disse que o casamento estava marcado, que os pais deles tinham decidido.
E a empresa que Sara herdara dos pais começou a sangrar. — Peça para ela subir e se sentar — disse a noiva, Alina Cruz. — Eu e o Silvino vamos ficar noivos em breve. Sara enfrentou-a cara a cara.
— Estou com ele há dez anos. Será que a amante não é você? — O que importa? Eu e o Silvino temos uma união decidida pelos nossos pais.
Se ele nunca te tocou em todos esses anos, como é que te toca a mim? Sara sentiu o chão fugir. Mas a pior parte veio depois. O escândalo na internet explodiu.
Disseram que os pais de Sara tinham envolvimento com criminosos antes de morrerem. As ações do grupo Sara despencaram. O crédito foi congelado. E o grupo Gomes anunciou a entrada no mundo da moda — com o primeiro alvo de aquisição: a empresa dela.
Silvino apareceu como vice-presidente do grupo Gomes para entregar a notificação. — Com esse escândalo, o grupo Sara vai desmoronar. Se vender agora, evita a prisão. — Seus pais se foram há tantos anos.
Eles não iam querer ver você sofrendo. Sara expulsou-o. Mas aquela noite, no hotel, algo estranho aconteceu. Ela foi dopada.
Acordou num quarto com um modelo desconhecido ao lado. E a porta abriu-se: Silvino, a noiva dele, e a imprensa. — Sara, o que fizeste? Ela não se lembrava de nada.
Só do rosto do modelo: Chico Jesus. Dias depois, na empresa, Sara contratou quatro modelos masculinos para o desfile anual que queria reavivar. O último fora há quinze anos, na noite em que os pais morreram. Ela suspeitava que o culpado estivesse entre os convidados daquela festa.
Chico Jesus apareceu de repente, desenhando num canto. — Veterana, quero aprender a desenhar. Não tenho dinheiro para pagar um professor. Ela reconheceu o talento.
Os traços lembravam um designer italiano de nicho, Willnas — o pseudónimo que ela própria usava para enviar trabalhos. — A senhora é que é a verdadeira estrela da indústria. Chico era inocente, puro. Mas havia algo nele que irritava Silvino.
E os dois homens começaram a reagir de forma estranha. Quando Chico se magoava, Silvino sentia a dor. Quando Silvino beijava Sara, Chico sentia o beijo. — Uma ligação empática — explicou um especialista.
— Por causa da transfusão de sangue que a mãe biológica de Silvino fez ao Chico quando ele era criança. Sara achou absurdo. Mas era verdade. — Então, se eu tocar em ti, ele sente?
— A mana tem muita força. Sua raiva passou? — Não passou nada. Apesar da confusão, Sara avançou com o plano do desfile.
Precisava de provas para limpar o nome dos pais. Marcou o evento no mesmo local do acidente, com os mesmos convidados. Alina Cruz tentou destruí-la com vídeos comprometedores. Mas Silvino e Chico Jesus uniram-se para a proteger.
— O grupo Gomes vai apoiar o desfile — anunciou Silvino. — O local será cedido gratuitamente. Alina enfureceu-se. Mas Silvino cancelou o noivado e demitiu-a da vice-presidência.
No dia do desfile, o vestido principal desapareceu. Sara decidiu subir ela própria à passerelle. — Ser jovem e magra não é o único padrão de beleza — disse ao público. — Cada corpo tem a sua beleza.
Aplaudiram. Depois, veio a parte que ninguém esperava. Sara convidou Lucas Campos, ex-motorista da família Cruz. Ele confessou tudo: há mais de dez anos, José Cruz mandara-o comprar um sedativo forte, colocá-lo num lenço edição limitada do grupo Sara, e dopar o pequeno Chico Jesus.
Depois, culparam o casal Pinto. A família Cruz assumiu os negócios e tornou-se parceira dos Gomes. — Tenho provas — disse Lucas. — Gravações secretas.
A energia caiu. O sinal de telemóvel foi cortado. Alina Cruz riu-se, triunfante. — Como vais chamar a polícia agora?
Mas Sara já tinha preparado tudo. Chico Jesus e Silvino usaram a ligação empática para comunicar. Recuperaram o pen drive. E quando a luz voltou, Alina confessou tudo em voz alta, pensando que estava segura.
— Meu pai vai para a prisão. Eu vou perder tudo. — Ouviste? — Sara sorriu.
— Ela confessou. A família Cruz foi levada pela polícia. O nome dos pais de Sara foi limpo. O grupo Sara estava salvo.
Na mansão dos Gomes, a mãe de Silvino pediu aos dois rapazes que se sentassem. — Chico, Silvino, gostei muito de uma moça. Ela e a nossa família são uma combinação perfeita. Qual de vocês vai considerar o casamento?
Os dois olharam-se. — Ele é o verdadeiro herdeiro — disse Silvino. — Eu assumo — respondeu Chico. A mãe sorriu.
— Desde que vivam bem, nada mais importa. Sara observava da porta. Ainda não sabia o que sentir.
Mas pela primeira vez em muito tempo, não estava sozinha.


