O jogo estava perdido, e o comandante sabia disso. As torres caíam uma atrás da outra, a base desmoronava como se fosse feita de areia. — A torre do meio inimiga caiu — disse a voz no chat. — Por acidente, se tivesse de adivinhar.

Ninguém respondeu. Só o som das habilidades a serem lançadas, o clique frenético dos ratos. — Aceito a tua orientação — disse alguém, numa imitação de um personagem do jogo. — O espírito move-me.
O comandante bufou. Olhou para o seu herói, um invocador de serpentes, e viu o ouro a acumular-se inutilmente. Os aliados estavam espalhados, sem coordenação. — Não precisas de diminuir o meu dano de ataque — gritou outro, a fingir que falava com uma entidade.
— Aceito a tua orientação. Ouço e obedeço. — Qual é o tempo de recarga disto? — perguntou o comandante, a tentar manter a calma.
— Cinquenta. — Aceito. O jogo continuava a desmoronar. O inimigo era implacável.
As tropas avançavam como uma maré negra. — Como estás hoje? — perguntou o comandante, a desviar-se de um ataque. — Estou bem — respondeu alguém.
— O meu Dota nem por isso, mas estamos a recuperar. Não te preocupes. — Eu sou divino dois, já agora — disse o comandante. — O meu bot está a dar problemas.
Estou de castigo. Como estás tu? — Tão boa. A ironia era amarga.
O jogo estava a afogar-se. As torres inimigas caíam, mas as deles também. — Vou enfiar a agulha na torre do topo inimiga — disse o comandante, a preparar-se para um ataque suicida. — Tudo tem de acabar — respondeu a voz do jogo, num eco mecânico.
A torre inimiga resistiu. O comandante morreu, e a sua equipa desfez-se. — Oh meu Deus — murmurou. — Depois pomos o dano.
A torre do meio deles foi atacada. Depois destruída. Depois mataram dois heróis inimigos de uma vez. O rei do dia o inimigo.
O quartel do meio foi abaixo. — Não, acho que o Bristle é mesmo forte — disse alguém. — Olha para os itens dele. A torre do topo caiu.
O quartel do topo foi destruído. O inimigo aproximava-se da base principal. — Estás mesmo a perder agora — disse a voz no chat. — Ele não tem muita coisa comparado com… tax it mega farmed.
A torre do fundo estava sob cerco. O quartel do fundo foi atacado, depois destruído. O inimigo gerou mega creeps. A base estava aberta, nua, sem defesa.
— Estou a começar a achar que isto foi genocídio — disse o comandante, a rir sem humor. — Eu continuo a esquecer-me disto… — respondeu alguém, a referir-se a um item que não usara. A torre do meio deles foi destruída outra vez. O comandante olhou para o ecrã de morte.
— Espera, posso comprar de volta. Posso comprar de volta. Ok. Lançou as serpentes.
Elas não fizeram nada. — Que merda de aliado — cuspiu. — Foi uma bosta. — Está bem — consolou alguém.
— Enquanto não culparem a mim, está bem. — Ele era imortal — disse outro. — Quem é este? O jogo terminou.
Silêncio. Depois o chat pós-jogo acendeu-se. — É uma tempestade de vapor — disse uma voz nova, calma. — Pareces diferente.
O comandante piscou os olhos. A imagem de perfil era familiar. — A sombra dos olhos. Gostas?
— Demasiado bonita — respondeu o comandante. — A maquilhagem devia realçar, não esconder. — Estão a insultar o SL no chat pós-jogo — disse a voz. — Como é que não sabes quem tens na lista de amigos?
— Sei, sei. É que eu faço stream, as pessoas pedem para ser minhas amigas, eu aceito e depois nunca sei quem é. E tu mudaste de nome, para ser justo. — Colar bonito — disse a voz.
— Obrigado. O comandante tocou no colar, ainda a sentir o gosto amargo da derrota. — Tenho saudades de ter colares bonitos — disse a voz, mais para si do que para o outro. — Isso é nome mau — respondeu o comandante, a olhar para o ecrã.
— Não é bom. E ficaram ali, em silêncio, a ver as estatísticas do jogo a desfilar, enquanto a noite se fechava à volta do ecrã.


