Quando entrei pelas portas do salão, a visão ardeu-me na retina. O Júlio estava sentado a rir com outra mulher no colo, os dois vestidos num verde-limão tão radioativo que pareciam dois pirilampos gigantes no meio do aniversário da mãe dele. Assim que ele me viu parada na porta com um buquê barato de margaridas, o susto foi tão cinematográfico que se levantou de um salto e atirou a amante para o lado. Eu segurei o riso e mantive a calma.

Aquele salão cheio de parentes ia presenciar a maior revelação da história daquela família. E eu estava ali, de camarote, pronta a acender o primeiro fósforo. Mas deixa-me voltar um pouco e contar como cheguei até aqui. Chamo-me Bia, tenho 39 anos, sou psicóloga clínica e tenho consultório próprio na zona sul de São Paulo.
O vilão desta história é o meu namorado, Júlio César Culoni. Conheci-o num site de encontros. Quatro anos mais velho, gerente comercial, ótimo papo. Namorámos um ano antes de ele se mudar para o meu apartamento perto do metro.
Dividíamos contas e compras. Casamento? Era o próximo passo natural, mas sempre que eu tocava no assunto, ele desconversava. E eu ia deixando.
Havia um probleminha: a mãe dele. Francesca Culoni, sessenta e poucos, viúva, colada ao filho. Falavam todos os dias, viajavam juntos sem levar a namorada, andavam na rua de mãos dadas. Ele comprou bolo para comemorar a retirada da pedra da vesícula dela.
Coisas normais de mãe e filho. Fui uma vacilona. Sou psicóloga, identifico narcisistas a três quilómetros. Mas em casa olhava para o Júlio e via o homem dos meus sonhos.
A Francesca não gostou de mim desde o primeiro almoço. Senti na hora: cumprimento seco, sorrisinho de canto, olhar de indiferença. — Imagina, amor. Ela é assim.
Com o tempo melhora — disse ele. Não melhorou nada. Decidi evitá-la, convencida de que era ciúme materno. Descobri tarde demais que não era nada disso.
Há cerca de seis meses, o Júlio começou a chegar tarde. Reunião com cliente, happy hour, treinamento fora de horas, viagem de fim de semana para ver fornecedores. — Estou a ralar para ser promovido a diretor — dizia. Eu achava ótimo.
Quem sabe assim casávamos. Numa sexta de madrugada, ouvi-o chegar depois de um tal happy hour. Chutou os sapatos, desabou no sofá e roncou. Levantei-me e fui à sala.
Estava desmaiado, de boca aberta, a babar. O telemóvel estava na mão, aceso, desbloqueado, aberto numa conversa do WhatsApp. E eu, que não era nada curiosa, apanhei o telemóvel com cuidado. A conversa era com “Tonhão Mecânico”.
Última mensagem: “Já estou com saudades, meu amor. No sábado, depois da festa da tua mãe, podemos ir outra vez ao mesmo motel. Amo-te. ” A foto de perfil do Tonhão era uma mulher bonita, de cabelo castanho liso até ao meio das costas e olhos claros, uns 25 anos.
Tonhão era o meu ovo. O idiota salvou a amante com nome de homem para eu não desconfiar. Continuei a rolar. Encontrei um comprovativo de Pix com a legenda “para comprares uma lingerie bem pequenininha”.
Júlio César Culoni para Caroline Beyonce da Silva, cem reais. Caroline Beyonce. Já tinha ouvido esse nome: era uma colega de trabalho do Júlio, auxiliar de vendas. Continuei a rolar.
Eram oito meses de mensagens. Aquele desgraçado traía-me há oito meses. Lembrei-me de uma paciente que instalou um app espião no telemóvel do namorado. Eu dava-lhe sermões sobre privacidade, prisão emocional, aceitação.
A moça concordava com tudo e voltava na semana seguinte com mais um print. Cinco minutos depois, eu já tinha instalado no telemóvel do Júlio o mesmo app espião, espelhado no meu. Devolvi o aparelho ao lado do sofá, voltei para a cama e comecei a ver o filme. Tudo começara oito meses antes, formal e profissional.
Em menos de uma semana já trocavam piadinhas sobre um colega e almoçavam juntos. Em duas semanas saíam depois do trabalho. No segundo mês, Caroline perguntou:
— Amor, quando vou conhecer a tua casa? O Júlio respondeu com uma mensagem ensaiada: a ex ainda morava com ele, estava desempregada, não tinha família, nem dinheiro, nem para onde ir.
E ele, homem de princípios, deixava-a morar ali por compaixão. A Caroline derreteu-se: “Um homem que cuida da ex assim é raro. ” Rara era a estupidez dela em acreditar naquilo. No quinto mês, ela apareceu animada: “Amor, adorei conhecer a tua mãe.
Ela é um doce. ” A mãe dele apoiava o caso. Sabia da traição e aprovava. Caroline já cobrava:
— Quando vais dar prazo para a tua ex sair do apartamento?
E ele pedia calma, dizendo que esperava que ela arranjasse emprego. O que me deixou pensativa não foi a mentira em si, foi o tamanho dela. Oito meses a inventar que o apartamento era dele, que eu era uma coitada sem nada. Mas porquê?
Se queria ficar com a Caroline, era só terminar comigo. Eu própria fazia as malas dele em quinze minutos. Mas ele não me deixava. E caiu a ficha: ele gostava era do apartamento.
Vinte minutos a pé do escritório. Em São Paulo, chegar ao trabalho em meia hora é um privilégio. Se me largasse, voltava para a casa da mãe, a duas horas do trabalho. Quatro horas por dia em transportes.
Era por isso. Rodei mais um pouco. Mensagem do Júlio da semana passada: “Amor, sábado é o aniversário de 65 anos da minha mãe. Ela quer muito que vás.
Quer apresentar-te à família toda. ” Apresentação oficial da Caroline. E o Júlio nem me tinha dito que havia festa. Outra mensagem: “Só um pedido: não comentes nada da Bianca na frente da minha mãe.
Só de ouvir o nome dela, fica irritada. ”
Saí da conversa e cliquei na conversa com “mami”. A Francesca dizia: “Filho, a Caroline é linda. Vocês vão dar-me netos lindos.
” Continuei. Um ano antes: “Ainda bem que terminaste com aquela mulher, Juju. Ela não combinava contigo. ” Ele tinha contado à velha que tinha terminado comigo.
Voltei ao mês em que ele se mudou para a minha casa. A mãe perguntava:
— Estás-te a dar bem com o teu novo colega de quarto, filho? Ele respondia: “Tudo certo, mãe. O tipo é tranquilo, profissional, quase não volta a casa.
” A Francesca pensava que ele morava com um colega. O Júlio mentiu à própria mãe sobre o nosso relacionamento inteiro. Voltei mais, ao primeiro almoço na casa dela, três anos antes. Naquela noite, Francesca escreveu: “Juju, ela está perto de ti?
” “Não, mãe, pode falar. ” “Filho, não gostei dela. Não gostei nadinha. ” “Mas porquê, mãe?
” “Ah, Juju, vocês são diferentes. Se for só para curtir, tudo bem, mas cuidado para não a engravidares. Não quero netos iguais ao Ronaldo. ”
Li três vezes.
Quem era o Ronaldo? Passei três anos com um homem que ouvia a mãe a esculhambar-me pelas costas e nunca me defendeu. Que mentiu à mãe, que mentiu à amante. Três anos a olhar para o Júlio e a ver um homem que não existia.
Fechei o telemóvel. Não derramei uma lágrima. Com as pacientes traídas, eu dava sempre o mesmo discurso: a vingança nunca é plena, perdoar é a melhor superação. Quanta besteira.
A vingança pode não ser plena, mas acalma a alma. Fiquei a olhar para a parede e o plano montou-se sozinho. A Francesca ia fazer 65 anos no sábado e eu ia entregar-lhe o melhor presente: o filhinho querido de volta. A semana que se seguiu foi o meu maior exercício de atuação.
Na segunda-feira, ao pequeno-almoço, o Júlio suspirava para o café. — Bia, acabei de receber um e-mail. Vou ter de viajar para Ribeirão Preto na sexta, convenção estratégica. Só volto no domingo à noite.
Se fosse uma semana antes, ter-lhe-ia dado um beijo e dito que ia sentir saudades. Agora só via as microexpressões: o canto da boca contraído, as piscadelas em excesso, a mão a tamborilar na mesa. Péssimo ator. Diferente de mim.
— Oh, amor, logo no fim de semana? — fiz o beicinho perfeito de quem não desconfiava de nada. — Eu queria ir àquele restaurante novo na Vila Mariana, mas tens razão. Trabalho primeiro.
Tomara que consigas a promoção. Ele sorriu, convencido de que eu tinha caído. Na quinta à noite, veio com um cabide na mão. — Ajuda-me aqui, Bia.
O diretor avisou que vai haver um coquetel na convenção. Pediu algo casual, moderno. O que achas? Era a minha deixa.
Escolhi a camisa mais brega que ele tinha: verde-limão fluorescente, com um brilho sintético que doía na retina. — Estás a gozar comigo, Bia? Não é chamativa? — Nada disso, Júlio.
Psicologia das cores. O verde-limão é a cor da confiança orgânica e da transparência. Num coquetel cheio de camisas azuis e brancas, serás o único ponto de luz e inovação. Arregalou os olhos como se fosse revelação divina.
— E abotoa até ao último botão, bem apertado no pescoço. Cria uma moldura de autoridade. E usa meias brancas à mostra. Quebra o padrão cognitivo dos outros e faz com que foquem no que dizes.
O Michael Jackson sabia disso. Acreditou em tudo. Na sexta de manhã, a despedida foi digna de novela. Mala pronta, sorriso de quem tinha o mundo nas mãos.
— Vou direto do trabalho para Ribeirão Preto. — Tá bem, querido. Brilha muito lá. — Pode deixar.
Assim que a porta bateu, o meu sorriso afiou. Durante a semana já tinha transferido os pacientes de sexta à tarde. Voltei a casa ao meio-dia, abri o armário da cozinha e puxei o rolo de sacos de lixo de cem litros, o reforçado. Em menos de quatro horas, a existência do Júlio César no meu apartamento ficou reduzida a seis volumes, prontos ao pé da porta.
No sábado, estacionei em frente ao prédio da Francesca. No porta-malas, três sacos pretos. Os outros três ocupavam o banco traseiro. No banco da frente, um buquê de margaridas comprado a um vendedor no farol.
Anunciei ao porteiro que ia ao aniversário no salão de festas. Entrei. Quando passei pelas portas, a visão ardeu-me na retina. O Júlio estava lá, a rir com a Caroline no colo, casal intergaláctico perdido a caminho de Marte.
A camisa verde-limão radioativa, abotoada até ao pescoço, meias brancas à mostra. E a Beyonce? Também estava embrulhada num vestido do mesmo tom de marca-texto. Pelo visto, ele convenceu-a de que aquele era o uniforme oficial de aceitação da família Culone.
Dois pirilampos gigantes. Assim que ele me viu, o susto foi tão cinematográfico que se levantou de um salto, empurrando a Caroline, que quase desabou em cima da mesa dos doces. — Bia, o que estás aqui a fazer? — gaguejou, branco como papel.
— Ué, Júlio, não estavas em Ribeirão Preto, na convenção estratégica? — É… é que a convenção… libertaram-nos mais cedo.
Treino remoto. Vim direto para o aniversário da minha mãe, para fazer uma surpresa. Não te avisei porque… — Calma, respira.
Estás nervoso? E quem era aquela no teu colo? — apontei com o buquê. A Caroline marchou até nós e agarrou o braço dele.
— Quem é esta mulher, Juju? Outra maluca a chamar-lhe esse apelido ridículo. O Júlio abria e fechava a boca sem som. — Sou a Bia, namorada do Juju.
E tu, quem és? Assistente de palco da Xuxa? Ela apertou os olhos. — Ah, então és a famosa Bia?
Precisas de superar o término. Vocês terminaram há tempo. Arranja um emprego, sai do apartamento dele, deixa de ser uma encostada. Olhei para ela com a calma que uso com pacientes em surto psicótico.
— Nós terminámos? Preciso de arranjar emprego? Sou uma encostada? Virei-me para o Júlio.
— Do que é que ela está a falar? Ele tentou puxar-me pelo braço. — Bia, vamos conversar lá fora, por favor. Ignorei-o.
— Olha, não sei quem és nem em que planeta vives, mas o Júlio e eu ainda namoramos. Não preciso de arranjar emprego: tenho uma clínica própria. E o apartamento onde moro é meu, comprado com o meu dinheiro, financiado no meu nome muito antes de o Júlio aparecer com as malas. Se há alguma encostada nisto, não sou eu.
A Caroline olhou para ele à espera que desmentisse. Ele não disse nada. Só encarava os próprios pés. Foi nesse momento que a Francesca brotou do nada.
— Mas que baixaria é esta no meu aniversário? Tinha que ser a barraqueira da Bianca. Juju, o que está esta mulher aqui a fazer? Convidaste-a?
O Júlio abanou a cabeça, com ar de quem vai levar uma surra. — Vim trazer um presente, dona Francesca. Feliz 65 anos. — Estendi as margaridas.
Ela riu-se, seca. — Guarda as tuas flores. O meu filho terminou contigo há tempo. Isto é uma festa só para a família.
Sai daqui. Virou-se e berrou:
— Ronaldo! Ronaldo, vem cá tirar esta mulher daqui. Um rapaz alto, negro, de traços fortes e olhar calmo aproximou-se.
Clique na minha mente. Ronaldo. Finalmente percebi o que a escrota queria dizer com “não quero netos iguais ao Ronaldo”. O nojo que senti naquele momento superou a traição.
Olhei a Francesca nos olhos. — Então é por isso, dona Francesca? A senhora nunca gostou de mim e agora percebo porquê. Disse ao Júlio que não queria netos como o Ronaldo.
Não quer netos negros. A senhora é uma racista de merda. O salão ficou em silêncio absoluto. Francesca virou-se para o filho, histérica.
— Porque é que lhe contaste isso, idiota? O Júlio, mais pálido que o glacê do bolo, abanava as mãos. — Não contei nada, mãe, juro. Ela deve ter fuçado o meu telemóvel.
A Francesca ficou branca. — Como te atreves a chamar-me racista? Tenho um amigo negro. O Roberval, meu cunhado, é negro.
Está ali o meu sobrinho Ronaldo. Nesse momento, uma mulher levantou-se de uma mesa próxima. Era a Vitória, mãe do Ronaldo e irmã da Francesca. — Sério, Francesca?
Então é por isso que sempre trataste o Roberval e o meu filho como cidadãos de segunda classe? — Isso não tem nada a ver, Vitória, para de ser louca. — Trataste toda a gente igual? Então explica porque é sempre o Roberval que chamas para carregar caixas e móveis enquanto os outros cunhados ficam sentados a beber.
Porque é sempre ao Ronaldo que estalas os dedos para abrir a porta ou servir as visitas, como se fosse o teu empregado. Agora mesmo, a primeira coisa que fizeste foi mandá-lo tirar a Bianca daqui como se fosse o teu segurança. Nunca os trataste como família. Usaste-os como empregados.
— Ah, para de drama. São os mais fortes e prestativos. É um elogio. — Mentira, sua hipócrita.
Ainda guardas rancor do Roberval porque te deu o maior fora da história da família. Tentaste roubá-lo de mim, humilhaste-te, e como ele nunca te quis, decidiste que o problema era a raça dele, só para te sentires superior. Francesca berrou, histérica:
— Isso nunca aconteceu, estás a delirar! — Então explica porque disseste que não querias netos iguais ao meu filho.
Francesca gaguejava, os olhos quase a saltar das órbitas. — Eu… não é… ela está a mentir!
Essa Bianca criou raiva do meu filho porque ele terminou com ela e quer desmoralizar-me. O Júlio olhou para a mãe com uma expressão de quem finalmente via a luz. — Mãe, isso é verdade? Disseste-me aquilo sobre netos mestiços só porque o tio Roberval não te quis há quarenta anos?
A Francesca tentou falar, mas o silêncio do salão era o pior inimigo dela. O Júlio virou-se para mim, os olhos baços. — Bia, perdoa-me. Fui manipulado.
A minha mãe enchia-me os ouvidos todos os dias, dizendo que não combinávamos. Cedi e fui atrás da Caroline para a agradar. Mas sempre te amei. Só não tive coragem de enfrentar a minha mãe.
Ouviram-se cadeiras a arrastar. Toda a gente tinha ouvido a confissão covarde e o veneno da Francesca. Os convidados começaram a sair. — Não vão embora!
Ainda não cantámos os parabéns, nem cortámos o bolo! Ninguém parou. Uma tia passou por ela e comentou:
— Que vergonha, Francesca. Que horror ter-te na família.
Em poucos segundos, o salão esvaziou-se. No caos, a Caroline chegou como um raio verde-limão. Parou diante do Júlio e, antes que ele abrisse a boca, deu-lhe um estalo que ecoou no salão vazio. — Vai para o inferno, Júlio César.
Mentiste-me sobre tudo. Disseste que eras dono do apartamento, que a ex era uma encostada. Usaste-me para agradar à tua mãe doente. Vá para o inferno também, dona Francesca.
Virou-se para mim, o rosto vermelho. — Bianca, desculpa. Fui estúpida. Ele criou uma realidade paralela e eu acreditei.
Saiu a correr, deixando-o com a marca dos dedos dela na cara. Ficámos só nós três. O Júlio caiu de joelhos, a soluçar. — Bia, pelo amor de Deus, perdoa-me.
Vou mudar, vou enfrentar a minha mãe, vou fazer terapia. Olhei para ele como quem analisa uma amostra estragada. — Vais fazer terapia? Deixa-me dar-te um diagnóstico gratuito.
Sofres de transtorno de personalidade dependente em estado terminal, agravado por total ausência de espinha dorsal. Como namorada, diria que és um miúdo. Como psicóloga, digo que não há tratamento para falta de caráter. Não precisas de um divã; precisas de uma ama que te troque as fraldas para o resto da vida.
Cansou-me ser responsável por um marmanjo de 43 anos que pede autorização à mami para respirar. Dá-me a chave do meu apartamento. A partir de hoje, és um problema exclusivo da dona Francesca. Ele entregou-me a chave com a mão trémula.
— E as minhas coisas? — Como sempre, facilitei-te a vida. Já trouxe tudo. Está no meu carro.
Vou deixar empilhado à frente do prédio. Corre antes que o camião do lixo passe e leve o resto da tua dignidade. Virei-me para a Francesca, paralisada. — Parabéns pelo aniversário.
O salão está vazio, mas conseguiu o que queria: o filhinho é todo seu. Saí de cabeça erguida, descarreguei os seis sacos de lixo à entrada do prédio, entrei no carro e fui embora sem olhar para trás. Dormi como um anjo nessa noite. No domingo de manhã, o telemóvel parecia uma central de telemarketing: mensagens e chamadas do Júlio a cada dois minutos, entre juras de amor eterno e ameaças de processo.
Bloqueei sem dó. No final do dia, recebi uma notificação do Instagram: pedido de amizade do Ronaldo. Aceitei. O que começou com “Oi, Bianca, queria pedir desculpa pela minha tia” virou uma conversa que durou a noite inteira.
Ronaldo era engenheiro civil, inteligente, divertido, e não precisava de autorização da mãe para decidir com quem namorar. Quatro meses depois, estávamos num namoro sério. A maior ironia? A Vitória, o Roberval e o resto da família que o Júlio nunca me apresentou receberam-me de braços abertos.
O problema nunca foi a minha cor, o meu jeito ou o meu trabalho. O problema era a amargura da Francesca e a falta de caráter do filho. Hoje, os dois são os párias oficiais da família, trancados naquele apartamento a duas horas do centro, um a aguentar o veneno do outro. A Francesca queixa-se que quer netos, mas é difícil com um filho desempregado.
Pois é, desempregado. A Caroline não era tão boba quanto ele pensava. Quando a máscara caiu, foi ao RH da empresa e fez um dossiê completo sobre o comportamento do chefe e como ele usava o cargo para manipular subordinadas. O garanhão neon foi despedido com justa causa.
Agora passa os dias a distribuir currículos que ninguém quer ler. Quanto a mim, continuo a ser a psicóloga bem-sucedida da zona sul, mas agora chego a casa sem nenhum encostado a fingir que me ama. Troquei um parasita neon por um homem de verdade.


