No dia seguinte ao jantar, liguei para o buffet e para o salão. Senti um aperto no peito, mas ignorei. A frase da minha filha ainda ecoava na minha cabeça, como se tivesse sido dita ontem: “Você vai nos envergonhar no casamento, mãe? ”.

Cada repetição era uma agulha enfiando no meu peito. Eu estava na cozinha, limpando as mãos no avental, quando ela soltou aquilo. O Felipe é de uma família muito tradicional, e ela disse que eu não me encaixava. No jeito que eu falo, nos meus trejeitos.
Senti como se alguém tivesse arrancado meu coração e jogado no chão. Repeti as palavras dela, deixando-as pairarem no ar como uma acusação. Depois, disse que não iria ao casamento. O alívio no rosto dela foi como uma bofetada.
Ela parou no batente, virou-se para mim. Levantei da cadeira e fui até o quarto. Dona Margarida, minha vizinha, apareceu depois. Ela me trouxe para dentro, fechou a porta, me sentou no sofá e fez um chá de erva-cidreira bem forte, do jeito que sabia que me acalmava.
A dor física era quase um alívio comparada à dor no peito. No dia seguinte, Margarida me perguntou: “Tá tudo no seu nome? ”. Peguei os contratos do buffet, do salão, da decoração, do fotógrafo, da banda, dos convites, dos docinhos.
Tudo no meu CPF. Comecei a somar em voz alta, apontando para cada comprovante. O buffet custava R$ 58. 000.
O valor original era 65. 000, mas o Sr. Antônio disse que eu era cliente antiga e fiel, então baixou. O salão de festas, no Lourdes, com capacidade para 200 pessoas, custava R$ 35.
000. A decoração, R$ 28. 000. O fotógrafo, R$ 15.
000. A banda, R$ 12. 000. Os convites, R$ 1.
000. Os docinhos, R$ 8. 000. Meu Deus do céu.
O número ficou piscando no visor da calculadora: R$ 157. 000. Sentei no chão frio, encostei as costas no armário e fiquei ali. Lembrei de quando a Bruna passou no vestibular.
Eu tinha trabalhado três noites seguidas sem dormir para terminar um vestido de festa e comprar o tênis que ela queria. Quando entreguei, ela pulou no meu pescoço, me encheu de beijos, disse que eu era a melhor mãe do mundo. Talvez eu não me encaixasse no mundo dela, no mundo dos restaurantes caros, das roupas de grife, das famílias tradicionais com sobrenome no dicionário. Mas lembrei de uma coisa que minha mãe me disse quando eu tinha 20 anos e estava para casar com o pai da Bruna: “Ninguém pode te fazer sentir pequena sem o seu consentimento”.
Levantei do chão, lavei o rosto na pia, olhei meu reflexo no vidro escuro da janela. Olheiras profundas da noite mal dormida, pele marcada pelo sol de tanto estender roupa no varal. Mas eu estava de pé. No dia seguinte, acordei cedo e me arrumei.
Não estava elegante no padrão das revistas, mas estava apresentável. Primeira parada: o buffet do Sr. Antônio. Ele me atendeu com um sorriso, mas meu rosto devia estar sério demais.
“Minha filha disse que não quer que eu vá no casamento dela. Preciso cancelar tudo. ” Ele colocou a mão no meu ombro, um gesto reconfortante. “A senhora perde metade do valor, R$ 29.
000, mas recebe R$ 29. 000 de volta. ” Respirei fundo. Melhor perder metade do que perder tudo.
Ele rasgou o contrato no meio. “R$ 58. 000, cada centavo”, pensei. Segunda parada: o salão de festas Jardim das Rosas.
“Vim cancelar a reserva para o dia 28. ” A atendente conferiu os papéis. “O senhor vai perder 30% do valor, R$ 10. 500, e devolvemos R$ 24.
500. ” Melhor do que nada. Perder mais de 11. 000 doía, mas ainda estava em pé.
Mastiguei devagar o último pedaço do meu sanduíche, sentada num banco da praça. Então liguei para a Bruna e coloquei no viva-voz. Silêncio do outro lado. Senti uma pontada de dor no peito.
Disse: “Me afastei do seu casamento. Vai ter que olhar no espelho e decidir quem você quer ser”. Ela não respondeu. Desliguei.
Cheguei em casa e Margarida estava me esperando. Sentei no sofá, coloquei as mãos no rosto e chorei. Ela ficou em silêncio ao meu lado. No sábado de manhã, a Bruna apareceu.
Vinha com uma caixa de fotos. “Encontrei isso no meu apartamento ontem. ” Ela abriu a caixa. Havia uma foto do aniversário de 10 anos dela, outra da formatura do colégio, e a última, tirada no dia em que passou no vestibular.
“Você está me abraçando tão forte e tem tanto orgulho no seu rosto”, ela disse, com a voz embargada. Então contou que foi ao psicólogo. “Eu fui no psicólogo ontem. Eu não sei o que eu estava pensando quando disse aquilo.
” As lágrimas escorreram pelo rosto dela. Ficamos ali, sentadas no sofá, olhando as fotos. Ela pediu desculpas, mas eu sabia que aquilo não apagava tudo. Eu tinha cancelado o casamento.
Tinha perdido milhares de reais. Mas, pela primeira vez em meses, respirei fundo sem sentir o peso do mundo nas costas.


